“Notas”- 03/12/2016

Apenas mais um transtorno

Sexta-Feira teve mais uma manifestação anti-Michel Temer no centro de Belo Horizonte. Caminhão da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e juventude do PT, o tal “Levante”.

Não foi tanta gente, talvez centena ou menos que isto, mas conseguiram arrastar o trânsito em um dia da semana no qual sempre o trânsito é problemático.

Talvez esta seja mesmo a ideia: parar a cidade e assim conseguir a atenção que os belorizontinos, estes reacionários, estejam negando ao PT quando petistas apenas ocupam a Pça .Sete. Mesmo irritados, os belorizontinos, estes “coxinhas”, caminhavam sem mesmo olhar ao caminhão.

Não foi desta vez.

Um guitarrista tocava o tema musical “Baile de Favela” como fundo à discursalhada enfadonha das lideranças estudantis. Barbudinhos, moças com saião hippie, nenhum funkeiro identificável. Não pareciam desanimados, contudo.

Este mérito, o da perseverança, não se pode negar à Esquerda.

Sabem que defendem facção política impopular, em cidade que vem nas urnas reiterando sua recusa à ela, e não se abatem. Caras feias ou indiferença – calculada ou espontânea, não importa – nada dizem aos que julgam ser obrigação parar o trânsito e impor presença nas ruas.

Mas para muitos, para maioria, foi apenas mais um transtorno.

A efervescência política pré-impeachment vem sendo soterrada pelo desânimo de uma situação de constante espera, de incerteza enervante; há um Presidente que não parece ter pressa de iniciar nova fase, e este estado de coisas vem cozinhando os nervos da população em banho-maria.

A Esquerda tem sido, sob este aspecto, admirável. Onde outros desanimam, se rendem à prostração pela espera, a Esquerda combate sem demonstrar cansaço.

Ontem, e em muitos outros dias, foi apenas mais um transtorno.

 

Quando os ajustes que este Governo anuncia se fizerem sentir pesados e amargos, e sobre os que não podem se defender, os frutos desta vigília aparecerão, podem apostar.

Será mesmo que não há como cortar a gordura dos gastos sem punir quem nada fez para que o País chegasse ao pesadelo? Como os trabalhadores não se sentirão traídos se cortes em aposentadorias descerem sobre suas cabeças e os gastos com ministérios e autarquias não diminuir de forma correspondente?

Exigir que o homem da rua não culpe o Governo Temer por ter ele herdado o caos é o mesmo que esperar que um camponês discuta as correntes do chamado marxismo ocidental.

Quem deve insistir na missão de esclarecer e formar cidadãos é a Imprensa e esta se dedica à militância partidária mais rasteira, descuidada de seus deveres, embriagada por uma pequena vitória que conta pouco na guerra.

Mas exigir visão histórica de jornalistas me parece tão absurdo quanto cobrar do camponês distinções entre Escola de Frankfurt e Antonio Gramsci.

Tive saudades da fervura de 2013, 2014 e parte de 2015, período no qual populares discutiam votos de Ministros do STF como discutissem futebol. Tão ontem e tão distante!

Leio defesas e ataques ao projeto contra abuso de autoridade e me certifico que a neutralidade é mesmo o refúgio dos que fogem de seus deveres morais: advogados gritando com Sérgio Moro e desqualificação constante de procuradores da Lava-Jato parecem ser pormenores que não devem contar na luta por uma bela abstração. A impropriedade de se levantar discussões neste momento deveria nem precisar de explicações, mas não é o que vemos. A falta de senso de dramaticidade é sintoma de doença mental coletiva.

E não se pode culpar apenas os petistas e seus correlatos pelos deslizes desta hora, no Congresso Nacional e em parte da Imprensa; muitos dos antigos antagonistas do antigo regime estão nesta luta contra “excessos” do Judiciário.

E esta indefinição também contribui para que o desinteresse e a apatia pavimentem a estrada pela qual PT – ainda que através de outras forças, o que chamo de “Pós-PT” – retorne ao Poder.

Retorno que se dará enquanto tolos ainda estejam cantando vitórias imaginárias.

Falando em tolos, verifico que os grupos pró-PSDB desapareceram da praça depois das eleições, e isto já deveria dizer tudo a um observador.
A Pça.Sete voltou a ter único dono, e logo mais o País todo.

E caminhei debaixo das ameaças do céu carregado ao som de “Baile de Favela” tocado pelo guitarrista do caminhão da CUT.

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