“Notas”- 08/12/2016

Ferreira Gullar

O Brasil perde Ferreira Gullar, e dele digo que foi de minhas primeiras fixações.

Escrevi um pouco sobre este episódio aqui no blog:

Entre os livros da biblioteca materna, um volume magro, de capa azul, me captou atenção – uma “Antologia Poética” do Ferreira Gullar. Não consigo até hoje explicar minha obsessão com o livrinho que adotei como leitura de todas as horas: carregava o volume para o fundo do quintal e relia sem cansaço poemas que me provocavam riso e curiosidade. Tinha meus oito ou nove anos, e o livro ganhou aspecto que levou colega de meu irmão a indagar se o cachorro estaria lendo o livro…

Resolvi então escrever ao poeta e não me lembro se me servi do contato da editora, e não importa. Lembro de ter dito na carta que meu poema preferido no livro era “Galinha” (“Galinha/ morta/ flutua no chão…”) e relatado minha impressão de entrevista recente na TV. Dias depois uma carta chega, com uma ou duas frases e o poema “Galinha” transcrito na caligrafia do autor.

Este documento, me envergonho de contar, perdi em uma das muitas mudanças de casa.

 

Eu não o perdi de vista, contudo. A admiração de infância se cristalizou, e dele li o que pude: muitos outros poemas, críticas de arte em diversos veículos, entrevistas. Entrevista dele anunciada na TV tinha em mim um telespectador atento. Isto não sofreu qualquer abalo ou diluição; os anos produzem algumas mudanças de gosto, e este gosto só se confirmou na maturidade de leitor de poesia; a leitura do “Poema Sujo” já na adolescência, me tocou como na infância o descobri, nem um pouco menos.

Gullar vinha sendo muito pouco respeitado no País que teve a sorte de tê-lo.

E não é de agora, destes dias em que qualquer crítica o partido da Universidade, o PT, sepulta carreiras. Desde o governo de seu amigo José Sarney, as sátiras à sua figura vinham substituindo apreciações justas ao seu trabalho.

Lembro do Tarso de Castro na sua coluna na revista “Afinal” se referindo a Gullar como “poeta da Casa de Criação da Rede Globo”, mas Tarso era coerente às críticas aos artistas que trabalhassem para a Globo – quem não lembra de suas gozações sobre a série “Chico e Caetano”? E Tarso, também lembro, defendia roqueiros nacionais atacados por Gullar, que qualificava o rock nacional como “geração sem caráter”…

Gullar também polemizou nos anos ’90 com Carlos Heitor Cony por conta dos eventos do imediato pós -64. E Cony, na minha opinião, levou a melhor na contenda, pois forneceu pormenores sobre sua coluna no “Correio da Manhã” onde abrigou texto de autoria (ou participação na autoria) de Gullar.

Mas isto ainda foram fricções que demonstravam interesse na Cultura e no enfrentamento entre intelectuais.

Hoje…

O sujeito escreve qualquer observação sóbria sobre o comportamento dos intelectuais simpatizantes do PT e recebe o juízo do Conselho dos Sábios da Aldeia: “Reacionário”.

Gullar também enfrentou tabus caros ao clero acadêmico em assuntos dos quais entendia: artes plásticas – o crítico veterano se recusava a aceitar como manifestação artística certo tipo de “instalação” que nada exige de seus criadores, exceto talento de promoção de mercado – e tratamento de doentes mentais; como pai de filhos esquizofrênicos, Gullar questionava o status especial de doenças (as da mente) que prescindiriam de tratamento.

E não custa repetir, a observação aguda do comportamento de seus pares em um momento que exige posições claras, também contribuiu para que a conta fosse apresentada ao escritor.

Conta póstuma, na forma de textos ligeiros que não se pode levar em consideração, por superficiais e mal escritos, e também na forma de um texto de jornalista talentoso, Mario Sergio Conti (que ignoro se escreveu sobre Gullar com este ainda vivo).

Conti, em artigo para “Folha de S.Paulo” deplora a poesia recente de Gullar e sua prosa memorialística, da qual colheu alguns clichês.

Não conheço a poesia recente de Gullar, nem sua prosa memorialística, mas compreendo que, em prosa longa, alguns clichês escapem do rigor estético. Conti escreve em “Notícias do Planalto” (primeira reimpressão, pág.680) de dois personagens que se encontraram, “não fizeram amor”, utilizando o clichê da classe média para se referir ao ato sexual. Acontece.

Tenho idade para ter visto algumas perdas da cultura nacional. Mais que a idade, a ventura de ter tido dois pais que liam, e por isto, ter tido, desde muito novo, a dimensão destas mortes.

Lembro meus sete anos assistindo a morte de Vinícius de Moraes, John Lennon, Glauber Rocha, Nelson Rodrigues…e nos anos seguintes ver a floresta ceder espaço cada vez maior ao deserto. O Brasil desertifica-se sem possibilidades de qualquer reflorestamento, pois o meio intelectual nivela-se, cada vez mais, por baixo.

Ferreira Gullar foi perda do quilate das enunciadas; quantos do porte ainda restam? Dez?

Haverá então um deserto total e conclusivo.

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