“Notas”- 10/12/2016

Duas dietas jornalísticas

Não parece visível o estancamento da sangria provocada pelas delações da Lava-Jato. Não é prudente esboçar qualquer previsão sobre o painel de possibilidades que serão oferecidas ao eleitor em 2018, e mais que nunca os candidatos a profeta se desmoralizam.

O que parecia certo não o é mais: o PT como o derrotado indiscutível das próximas eleições. Tudo pode acontecer, de Lula conseguir ser candidato (improvável, mas não impossível) a algum político lançado por ele em uma composição de partidos de Esquerda ou pelo PT.

O PSDB, que já é inexpressivo fora de São Paulo e estados menores, tende, pelas delações que mencionam os principais nomes da sigla, a perder ainda mais credibilidade. Belo Horizonte, por exemplo, é cidade onde o PSDB consegue ser ainda mais desprezado que o PT, o que se confirmou nas últimas eleições municipais.

O PMDB tem como candidato natural um Presidente da República que reluta em posar para a foto oficial da Presidência e guarda a faixa presidencial para quando o País estiver pacificado, além de suas outras estrelas serem nomes frequentes em denúncias variadas.

E são estas as siglas que contam, no momento.

Não acredito que Ronaldo Caiado venha ser um nome competitivo para 2018, apesar de elogiado em redes sociais por suas qualidades indiscutíveis. Há enorme porção do território nacional que tomaria seu nome como algo ainda por se demonstrar compatível com a ideia que se cristalizou nas mentes como uma liderança popular;  2018 é logo ali, pouco mais de um ano de distância apenas.

Resta, portanto, o território que vem se organizando há décadas e que não precisará nem mesmo de uma depuração interna, pois a depuração que o salvará, vem sido realizada pela Lava-Jato: o território compreendido como Esquerda.

E não faz um ano que a Esquerda dava sinais inequívocos de cansaço, com simpatizantes evitando fixar adesivos em seus carros, e justificando voto no PT por mera rejeição ao PSDB. O impeachment de Dilma Rousseff seguido por um governo que hesita em sê-lo devolveu décadas de vida ao corpo pré-comatoso de uma Esquerda desmoralizada e isolada das massas.

Não me arrependo de ter escrito o que escrevi sobre o impeachment nos posts pouco anteriores (vejam o arquivo), ainda que acusado por alguns leitores, em conversas comigo, de “pessimista”. O quadro atual confirma o que escrevi sobre o erro de interromper processo salutar de desmoralização de um setor inteiro da política. O que veio a seguir desmoralizou a política inteira; não se confia nem mesmo no STF, que vinha, nos últimos tempos, se tornando tema de conversas de populares, algo que penso ser inédito na História do Brasil.

E não se pode culpar a classe política formada por ignorantes em sua maioria, ou o homem comum entregue à luta pela sobrevivência; há uma classe que é paga para informar e esclarecer, e dela tem se cobrado pouco no Brasil: a classe jornalística, que usufrui do prestígio de ser considerado o “Quarto Poder da República”.

Que dieta ela serve aos políticos e ao homem comum? Como ela tem prestado seus serviços?

Esta semana me deu dois exemplos que passo aos leitores, ambos de jornalistas que leio por obrigação; os dois me soam desagradáveis, pois escrevem para públicos partidários definidos; um para a militância do PT e PC do B, Paulo Henrique Amorim; outro, Reinaldo Azevedo, para o público classe média que sai às ruas contra o estado de coisas que acredita ter surgido do Nada e que acredita também que este estado de coisas um dia “sumirá do mapa”, o público leitor de “Veja”. Ambos adotam um estilo “motivacional” enjoativo, mas ambos são leitura obrigatória, caso se queira saber para onde as massas que consomem jornalismo marcharão.

 

Paulo Henrique Amorim, que liderava no meio do jornalismo governista (quando o PT era Governo) a campanha do “Não Vai Ter Golpe”, passou a liderar a campanha do “Isto não dura seis meses”. Como ambas não se cumpriram, mudou de tática; a escolha deve ser pela desmoralização de um Governo que pelo visto durará mesmo até 2018. Amorim conclui que Governo desmoralizado deve durar até o segundo derradeiro. Bom, era o que eu escrevia sobre o Governo Dilma Rousseff, não se deve tirar de campo o time que perde de goleada.

Outro exemplo que julgo didático é o de Reinaldo Azevedo. Nesta semana, em seu programa na “Jovem Pan”, Reinaldo imitou Lula (alguém ri daquela imitação? Já vi adolescentes fazerem melhores) ridicularizando a “Direita burra” que exige eleições já em 2017. Que esta Direita é burra, e paga (e faz os brasileiros todos pagarem) por seu imediatismo, quem discorda?

Mas o que faz Reinaldo considerá-la burra é o fato de que estas massas não calculam que Lula em 2017 poderá ainda não estar condenado, e portanto, em condições legais de ser candidato, com chances nada desprezíveis de ganhar.

Este é o guia jornalístico da Direita: alguém que incentivou a interrupção de um mandato que desmoralizava não só o Governo, mas todo o arco de forças que o apoiava, e agora admite estar temeroso da volta de Lula ao painel de escolhas do eleitor.

Entendem agora por que as coisas caminham como caminham no Brasil?
Comparem as duas dietas jornalísticas servidas à massa e dela concluam sobre nosso futuro.

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