“Notas”- 16/12/2016

“Mais uma manifestação, mas estão começando a acertar…”

“Quantos tem aí, hein? Uns três mil?”
“Não, se tiver algumas centenas já é muito”, respondo à caixa do sacolão em frente ao Mercado Central.

Na frente do referido sacolão, populares assistiam a manifestação que ficara estacionada algumas horas na Pça.Sete, e descia agora a Av. Amazonas rumo à Pça. Raul Soares. Alguns registravam a passagem do caminhão da CUT com celulares enquanto alguns poucos outros gritavam deboches, e ainda outros resmungavam sobre vagabundagem remunerada.

Esta manifestação foi, como de costume, mais outro dia de transtorno, mais um embaraço de um trânsito infernal, num 13 de Dezembro com céu ameaçador. Apenas mais uma manifestação, mas estão começando a acertar, a gritar com suas vozes estridentes mais que palavras de ordem de sindicato e diretório acadêmico; o que representará na prática a tal “PEC dos Gastos” para os populares, e estes paravam um pouco para ouvir, o desprezo silencioso sendo substituído por uma curiosidade que diz algo a quem sabe interpretar o que observa das reações populares, sobretudo de uma cidade como Belo Horizonte, celebrada por analistas políticos como termômetro político infalível.

 

O que começa como aversão silenciosa evolui para silêncio respeitoso, e depois para a adesão franca, apaixonada. O PT ainda provoca no belorizontino aversão inequívoca, e o caminhão da CUT e o cortejo de funcionários públicos e estudantes não atrai simpatia, mas o que era gritado do alto do caminhão atingia o alvo exato da população: o que o programa de Michel Temer custará para quem menos pode se defender, enquanto a classe política não expressa desejo de contribuir para o sacrifício geral.

Claro que uma mente treinada se pergunta sorrindo o que a CUT faria se fosse Dilma Rousseff a apresentar a conta da dissipação governamental, mas isto agora nada adianta; quem tem que se oferecer como alvo de fúrias é o grupo político que tomou o Poder após o impeachment. Ao grupo deposto, restou organizar as massas contra o que seria a política econômica inevitável para o restante do mandato do PT.

E isto em semana de delações atingindo o núcleo do Poder e pesquisas dando conta de que Lula é o morto que não morreu.

Como não se pensou nisto? Como imaginaram que seria fácil, que tudo seria lucro, bastaria tirar o PT da Presidência, e tudo voltaria a 2001?

Reinaldo Azevedo atribui a uma “Direita Burra” este desvio da rota dos sonhos. Bom, o que fez a “Direita Inteligente”, senão se convencer de que a fase histórica do PT se esgotara e repassar esta miragem à classe política, em tudo dependente da classe jornalística para se orientar?

Uma Direita inteligente apostaria na decomposição lenta deste espectro político e não em uma deposição que não removeria sequer a cabeça do monstro, quando muito alguns cachos de sua cabeleira. E os cabelos do monstro voltaram a crescer rejuvenescidos pela desmoralização de um Governo que parece esperar 2017 para começar.

E foi uma oportunidade que não saberemos se perdoará este desperdício.

X

Das amizades com pessoas notórias

Amigos leitores me perguntaram por email se a carta do Ferreira Gullar foi início de uma amizade, se voltei a procurá-lo, se me arrependi da perda da carta, etc.

Bom, a coisa parou nisto. Lembro de ter enviado outra carta agradecendo sua atenção e esta não teve resposta. Não escrevi mais, entendi o poeta como homem ocupado, verificando logo ser impossível amizade entre um escritor notório e um admirador criança, ambos morando em estados diferentes. Portanto, não fiquei tão chateado assim com o sumiço da carta em uma das inúmeras mudanças de casa dos anos seguintes.

Não, nunca mais tentei contato. Não saberia como encontrá-lo e temia me decepcionar. Em texto de Gullar publicado na coluna de Ricardo Setti comentei a história da carta, e foi esta das poucas vezes que mencionei o episódio. Outra vez aqui no blog, e agora na morte do poeta.

Foi um episódio interessante que não mudou minha biografia, e que deve ter sido esquecido por Gullar logo após ele postar sua resposta.

Gandhi observava que amizade se dá  apenas entre iguais, e Morrissey contra- recomendava conhecer admirações; confirmações diversas das duas frases tenho tido em minha vida.

Não abandonei na fase adulta o desejo de conhecer autores de linhas que me comoveram, ensinaram, divertiram.

Acontece que poucos são os autores que são como a persona que escreve tais linhas; a condição humana é mesquinha, muitos temem perder seu lugar no banquete.

Houve quem não acusasse recebimento de meu email, houve quem respondesse por gentileza apenas (gentileza que eu, ingênuo, tomei por amizade), e houve alguns que se mostraram mesmo inimigos.

Poucos se tornaram amigos, interessados por meu trabalho, e com algum parentesco espiritual. Estes eu não teria conhecido se não tivesse o hábito (buscar contato) que me levou às decepções, para os leitores verem como é difícil tomar decisões na vida.

Hoje não me arrisco mais nesta estrada das notoriedades; busco homenageá-las com meu trabalho, e me fazer digno, ao menos aos meus olhos, de me considerar um colega de ofício.

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