“Notas”- 17/12/2016

Sobre arquivos

Elio Gaspari , na palestra do Décimo Congresso da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) disponível no “YouTube” explicou seu sistema de arquivo de informações: Gaspari elabora fichas sobre os assuntos que o interessam, ainda que informações que pareçam aos olhos não-treinados como irrelevantes. Assim trabalhou na sua série de livros sobre a Ditadura, por exemplo. Segundo o jornalista, uma média de dez a vinte por dia.

Não faço fichas, e confesso ser um erro cometido tanto por preguiça quanto por falta de um arquivo fixo físico, e também falta de perícia no computador para nele armazenar as fichas.

Mas tomo nota do que me interessa, e sempre procuro memorizar nomes citados, ainda que de passagem, em um texto. Se alguém interessante menciona um nome, é porque algum interesse, alguma relevância, o personagem envolvido por este nome possui. Nada deve ser tomado como um cisco desprezível. Caso a citação seja recorrente, ainda maior é, para mim, a obrigação de procurar informações.

Gaspari observa que a memória do nosso cérebro é traiçoeira e por isto convém não confiar apenas nela, e recomenda numerar as fichas a partir de determinado número; abaixo deste, a memória ainda pode ajudar.

São conselhos de um profissional de competência indiscutível, e penso ser burrice desprezar conselhos de profissionais de competência indiscutível, mas muitos dos que ganham a vida escrevendo (o que não é meu caso) consideram-se acima destes conselhos de “gente ultrapassada”. E o resultado vemos todos os dias na internet: erros primários que seriam evitados com checagem das informações.

Nada é desprezível, nada é “detalhe”.

Lembro Ruy Castro em palestra (também disponível no “YouTube”) contando sobre sua busca por informação sem dúvida “nojenta”, e de relevância discutível: a marca da escarradeira da redação do Mário Rodrigues, pai do Nelson Rodrigues. Sua companheira, a jornalista e escritora Heloisa Seixas teria, segundo Ruy, questionado a necessidade de procurar esta informação e ouviu do autor de “O Anjo Pornográfico” a explicação segundo a qual, se o autor resolver filtrar informações pelo critério da “relevância”, em muito pouco tempo ficará sem qualquer informação. Faz todo sentido; a filtragem é posterior, a procura deve ser a mais abrangente possível – quem desconhece isto, desconhece a força das minúcias na composição de uma grande reportagem ou de um romance.

Uma obra-prima como “Os Sertões” estaria mutilada sem as descrições que cansam na primeira leitura da obra. “A Sangue Frio” sem  descrever hábitos “menores” dos dois criminosos seria uma reportagem policial rotineira e “Notícias do Planalto” sem a descrição de tipos e hábitos dos jornalistas (descrições questionadas por jornalistas no “Roda Viva” com o autor do livro, Mario Sergio Conti) seria apenas um compilado das matérias sobre o Governo Collor. Seriam livros muito menores, em suma.

Eu de minha parte não confio apenas na memória (embora tenha memória elogiada por jornalistas experientes) nem para citar meus próprios textos. Nas poucas vezes em que me citei, abri outra tela no computador.

Anotar, e guardar, atividades tão importantes como o domínio do idioma para quem escreve.

A “Velha Escola” sempre soube disto, e o que ela produziu confirma tudo que ela aconselha.

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Villas-Bôas Corrêa

Falando em “Velha Escola”, o Brasil perdeu Villas-Bôas Corrêa. Como escrevi no texto da morte do Chico Anysio, as novas gerações sofrem perda dupla: de um grande talento e do parâmetro que define um grande talento. Sem jornalistas como Villas-Bôas, alguns jovens jornalistas poderão acreditar que analisar política sempre foi redigir textos partidários, primários – nas ideias e no estilo (estilo de internet, expressões idiotas como “Mimimi” em cada parágrafo) – e sem esforços de apuração.

Tive a ventura de ter um pai que tinha como jornal de predileção o “Jornal do Brasil”e na adolescência pegar ainda um pouco da “Coluna do Castelo” e sei, portanto, o que é uma coluna política de nível. E também de ter lido textos como os de Villas-Bôas, elegantes e repletos de informação. Como o eram seus comentários televisivos, que além de lúcidos e agudos, me faziam sonhar em chegar à idade dele com aquela classe.

Teve no filho, Marcos Sá Corrêa, um herdeiro na elegância e na leveza do texto.

Tudo no Brasil vai se nivelando por baixo e estas perdas ampliam este processo, esta banalização da crônica política; escreve-se hoje para entreter o “Povo da Internet” e mesmo talentos se apequenam assim.

Para quem aprecia bom jornalismo, uma perda brutal, um assalto no qual nos levam bens que sabemos ser de difícil substituição.

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