“Notas”- 30/12/2016

“Pouco sal e muita lesma…”

Na infância brincávamos, eu e colegas da vizinhança (no período em que morei em Uberaba, começo da década de ’80), de derreter lesmas, jogando sobre os bichos que rastejavam nos muros, punhados de sal – o bicho derretia, desmanchava-se numa gosma repulsiva como ele.

Quem não conhece esta característica deste bicho, e quem nunca se utilizou disto como metáfora para escrever o trabalho a ser realizado sobre pontos fracos de um oponente?

A Direita ainda parece desconhecer o sal que derrete lesmas nas discussões com a Esquerda; a Direita brasileira, pelo menos, utiliza argumentos de eficácia nula nas discussões. Ainda mergulha suas palavras em fórmulas morais quando discute com quem não esconde ter outra moral. Causando o riso, na hipótese mais generosa.

O direitista cita números econômicos, e o esquerdista bem treinado (o mal treinado, o MAV rotineiro, apenas insultará; e insultos contra quem não sabe insultar é sempre vantagem) também declama os seus (danos frutos de bloqueios, início da fase de industrialização dos países socialistas – muito posteriores aos capitalistas – e número de médicos e engenheiros formados e analfabetismo inexistente comparado aos países capitalistas). No que tenho visto, esquerdistas decoram melhor seus números, não importa se falsificados.

O direitista mencionará as moradas coletivas, as latrinas com famílias inteiras como usuárias e o atraso tecnológico. O esquerdista lembrará que moradas coletivas com instalações sanitárias idem também existem nos cortiços do sistema capitalista. E estará certo.

Quanto à tecnologia, o esquerdista voltará a invocar a História – períodos de guerra, industrialização posterior, etc.

Memórias de dissidentes e ex-espiões serão sempre colocadas em dúvida, e o Esquerdista quase sempre leva a melhor neste tipo de discussão: além do deboche  do Esquerdista para com depoimentos chocantes irritar o Direitista e fazer este vítima fácil de armadilhas retóricas, o subjetivismo e avaliações morais podem ter contaminado um texto que, por estes fatores, é ineficaz como arma política. São valiosos como Historia e depoimento existencial, apenas. São grandes livros, nunca armas letais.

Nos meus anos de observação de discussões políticas tenho assistido poucas vitórias para a Direita, ainda que os esquerdistas que tenho visto discutir com direitistas serem inferiores em cultura e honestidade intelectual. Por que homens cultos e com intenções de discutir com franqueza são esmagados por fanáticos de leitura restrita, quando não por vigaristas indisfarçados (e vigaristas podem acreditar em suas mentiras, nunca demais lembrar)?

Porque confiam no idealismo como arma de combate verbal.

Jean Paul Sartre declarou que o perigo que muitos esquerdistas corriam nas discussões com direitistas era cair no idealismo, território segundo Sartre, amigável ao direitista (talvez tenha dito liberal ou conservador; o sentido no contexto é o mesmo). Os fatos, a dureza dos fatos, deveria ser o refúgio do esquerdista em uma discussão.

Paulo Francis lembrou em um texto a inutilidade de estabelecer paralelos morais em discussões com esquerdistas: “Voltar Marx contra eles é o que não suportam” (citação inexata, pois cito de memória). Francis entendeu Sartre.

Nunca discuto com petistas atacando o que eles defendem, pois sei ser esta uma discussão que só consome saliva e energia. Lembro os programas sociais ineficazes, e demonstro ter lido autores que eles citam de orelhada. Não economizo na mistura de fúria e deboche. Fúria demonstra paixão (sem ela, não há política, segundo Antônio Carlos Magalhães) e desestimula tentativas de intimidação; deboche adianta o desarme da bomba do adversário: o deboche.

Muitos direitistas (ainda que direitistas pela lente dos esquerdistas, pois apenas liberais) negligenciam estudos: por que iriam se esforçar, pensam, quando a realidade prova que a teoria defendida por nossos antagonistas é uma mentira? Que técnica de discussão seria mais conclusiva que os milhões de mortos por execuções, tentativas de fuga do Paraíso e fome?

Na verdade, a preguiça convence a muitos que superioridade moral faz todo o serviço; a História (quando não invocam Deus) diz o que tem de ser dito.

Bom, o resultado é o que vemos: esquerdistas controlando a programação mental das massas. Esquerdistas não acreditam em serviço dispensável por lógico. Por superior do ponto de vista moral.

Escrevem sem cessar, e tratam de divulgar seus iguais. A Direita…

Pouco sal e muita lesma os males do Brasil são.

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