“Notas”- 31/12/2016

Palavras de fim de um ano pesado

E esta viagem de um ano vai se aproximando de sua estação final: reservo as horas até 2017 para refletir, evitando juramentos solenes.

Ah, os juramentos de fim de ano: não desperdiçar horas na internet, comer menos, me exercitar mais, colocar o cérebro no refrigerador quando perceber que a temperatura deste anuncia explosões, como recomendava Leonel Brizola…

Algo do que me prometi já comecei a praticar nos 43 do segundo tempo; a prorrogação e os pênaltis (minutos finais do último dia do ano) não me têm servido nos anos mais recentes.

Aconselho a quem me lê marcar no relógio tempo de leitura, e reduzir pela metade (cálculo modesto) os sites e blogs da navegação eletrônica diária. Muito do que acessamos é roubo de tempo, e nem se pode culpar alguém; a TV, com seus horários de programação e comerciais, aliviava a consciência do procrastinador, a internet nega este consolo.

Venho adotando estas medidas com calma, fazendo com que o hábito espalhe e fortaleça suas raízes no meu modo de existir. Pressa, para quê?

Não foi a pressa que infelicitou o Mundo em 2016?

Assinaturas de acordos de paz a toque de caixa, quando negociações deveriam ter sido mais dilatadas; guerras resultantes do ritmo ditado por lideranças internacionais, ansiosos para impor suas agendas, ainda que mutilando países e regiões inteiras?

Não foi a pressa que ditou o impeachment de Dilma Rousseff quando a desmoralização de seu governo seria mais frutífera? Não foi a pressa em nos livrarmos do petismo que nos fez cair em um governo vacilante que está servindo apenas como ante-sala do “Pós-PT”?

Não teria sido a pressa de formadores de opinião (e seus patrões) o que causou o erro de remover governo que estava desmoralizando não apenas o PT como a casta acadêmica inteira? Classe política composta por poucos intelectuais é pasto para a ditadura de jornalistas competentes como redatores e editores, mas falhos como analistas políticos.

A pressa em se desvencilhar do combate ao PT (combate que poderia exigir anos de luta) e voltar aos assuntos amenos parece ter tido peso considerável na mente dos jornalistas que excitaram a opinião pública em torno de algo – fim do mandato presidencial – que não era nem de longe saída da armadilha da democracia brasileira: a democracia dos eleitores que não leem e não questionam (mesmo porque esmagados pela luta pela sobrevivência) candidaturas demagógicas e promessas impossíveis de honrar.

A pressa dos empresários em salvar suas posses da crise gerou mais crise, e desta afoiteza restará ainda muitas vítimas a resgatar pelos próximos anos.

A pressa dita ao Presidente Michel Temer medidas das quais tem se visto forçado a recuar, e este andamento de governo, no qual o dia de hoje será negado pelo de amanhã, alimenta nas massas medo e rancor: “Que melhorou, afinal? Não estávamos melhor antes? Qual surpresa desagradável nos espera semana que vem? Qual a graça nestas brincadeiras do Temer?”

O processo de desmoralização de uma facção política, que conseguiu o Poder pela mentira e pelos apelos mais baixos aos recalques da massa foi interrompido, e quem estudou História sabe que nada é mais letal que a desmoralização, nada. Leon Trotsky ensina na sua “História da Revolução Russa” que figuras históricas podem tudo, menos ser ridicularizadas. E petistas andavam, antes do impeachment, de cabeça baixa, removendo plásticos do carro e mesmo alguns negando seu petismo, preferindo antes definirem-se como “anti-PSDB”.

Tudo perdido, tudo desperdiçado. O cadáver foi reavivado, e com muito gosto pela luta pelo Poder. Como excitar de novo as massas que após a “saída mágica” retornaram ao velho desinteresse por Política (massa que discutia votos de Ministros do STF como antes discutia por futebol, algo inédito na História do Brasil)?

Qualquer peso torna-se mais opressivo quando transportado com pressa: um ano tangido pelo ritmo do “Agora! Agora!” é mesmo insuportável, e por isto não se lamenta quando ele parte.

Mas sem refletir sobre o peso –e as dores- de 2016, 2017 será igual, ou pior.

X

Amigos do blog, agradeço aos que fizeram deste espaço passagem obrigatória nos passeios da internet. Que tenham sentido o carinho com que escrevi cada texto.

Abraço e um 2017 produtivo!

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