“Notas”-04/01/2017

“Por quantos centavos a mais?”

Instituição de começo de ano, o aumento da passagem dos ônibus não falha ao encontro dos brasileiros nem em período de crise. O aumento anunciado para Belo Horizonte, onde moro, é dos maiores entre as capitais: trinta e cinco centavos, levando a passagem para Quatro Reais e Cinco centavos, aumento que parece igual ou maior que o de capitais maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro. E apontado como superior à inflação do período.

4,05 impostos em dias de espera prolongada nos pontos, pois estamos em pleno “Horário de Férias”, outra instituição.

O belorizontino aprendeu a tolerar aumentos anuais de passagens como tolera ônibus com barras soltas, ônibus lotados, trocadores hostis, motoristas que praticam “janelismo” (o ato de desviar do ponto para não pegar passageiros) ou que “emendam” horários.

Cada cidadão tem o serviço que merece, também. Tive o desprazer de discutir com defensores das empresas de ônibus nas filas de espera, gente que banca o advogado da empresa e da BHTRANS sem receber um centavo de desconto nas passagens. Boicote é algo impensável em BH; gente disposta a pagar para viajar por dois quarteirões (só por estes serem em subidas) não boicotaria nem que a passagem custasse Dez Reais.

Chegaremos a Dez Reais um dia, isto que é o assustador.

Houve manifestação no Centro contra a passagem, com os manifestantes usuais: “Coletivos”, militantes de partidos políticos (PT e Pós-PT), e simpatizantes.

Gritavam seus slogans sem atrair atenção das vítimas dos aumentos; a impressão é que vivemos numa cidade de milionários que consideram indignação contra aumento de passagem em dias de crise como uma mesquinharia:

“Por quantos centavos a mais?”

A imprensa tem sua responsabilidade nesta alienação das massas; quantos colunistas de “Veja” criticam e criticaram manifestações contra aumento de passagem de ônibus por estas terem servido aos interesses do PT?

Não acompanho a imprensa de Belo Horizonte como deveria (não consigo ler jornais que ostentam nomes errados na primeira página e que insistem em se referir a Belo Horizonte como “Capital” por mera imitação da imprensa de São Paulo e Rio de Janeiro que usam a fórmula por necessária), mas tenho dúvidas, pelo que observo do comportamento da massa, do cumprimento do dever de alertar os belorizontinos do absurdo destes aumentos anuais.

Os partidos e militantes de Esquerda cumprem, pois, sua função de ocupar espaços, de se fazer presente nos momentos difíceis da população. Demandas não deixarão de existir por omissão de alguma facção política, não é mesmo?

Há um descrédito nestes apoiadores do PT que talvez explique a pouca adesão desta marcha, mas acredito que o Brasil sofre uma depressão coletiva após o impeachment. Esperou-se muito de algo que, em si, nada trazia de concreto, depositou-se esperança no símbolo que se mostra a cada dia como um oco que não será preenchido até a próxima eleição, no mínimo.

E assim habitantes sofridos dos grandes centros sofrerão esta paulada no bolso sem emitir um “Ai!” Há que se envergonhar por não ter carro, sermos pobres que dependemos do transporte coletivo, defeituoso e escasso.

O efeito colateral é o desinteresse por política, uma apatia logo no início de mandato municipal:

“Por que me interessarei por eleições para Prefeito e Vereador se não há político capaz de brigar por mim contra empresas de transporte, que zele para que meu direito de ir e vir não se converta num luxo?”

Talvez com o tempo, quando o preço se confirmar pesado no orçamento as manifestações ganhem volume, mas não acredito na reedição das Jornadas de Junho, não depois de tudo que aconteceu e desmentiu esperanças, no Brasil.

Pensando bem: para que serviria outra onda de manifestações se os elementos provocadores que turvaram aqueles dias jamais foram investigados e punidos? Não seria outro sonho com prazo de validade estampado em si?

Como ninguém fora dos círculos da Esquerda parece interessado nesta luta não parece difícil imaginar quem um dia poderá colher algo, não?

“Eu, lutar? Por quantos centavos a mais?”

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