“Notas”- 06/01/2017

“Melhor do que nada?”

Assisto discussão no “Estúdio I” do “Globo News” sobre o tal plano do governo Michel Temer para a segurança pública, anunciado após o massacre de Manaus.

Censuram a qualificação de “acidente” ao episódio do presídio, da autoria de Temer. E quem não? Entre chamar aquele espetáculo de decapitações de “acidente” e nada dizer, nada dizer é sempre melhor.

Consideram insuficiente construir presídios, como também anunciado pelo governo. E, repito, quem não?

Poderia argumentar algum defensor do governo:
“Melhor do que nada”.

“Melhor do que nada?”

Pois considero plano de segurança apresentado na fervura do momento, sem discussão com políticos, jornalistas (sobretudo os que cobrem Polícia), associações de policiais, associações de vítimas e familiares de vítimas (caso existam, e deveriam existir) e mesmo presidiários, mais uma perda de tempo, mais um desperdício de uma tragédia.

Opinião sobre segurança pública todo mundo, a exemplo de escalação de seleção de futebol, tem a sua.

Professores universitários (do tipo que o “GloboNews” ama convidar nestas ocasiões) têm e jornalistas que dedicam-lhes devoção também.

Natural que se cobre de um governo após um banho de sangue, e também natural que se critique soluções improvisadas,  tiradas da cartola após eventos de repercussão.

Mas onde estavam críticos tão rigorosos nos treze anos do governo do PT, quando o plano governamental consistia na solução mágica do desarmamento?

As estatísticas de homicídios já impressionavam, e não considero desleal lembrar que alguns dos casos mais revoltantes de violência ocorreram no período: o menino João Hélio arrastado pelo cinto de segurança (o então presidente Lula recomendou não propor mudanças “no calor do momento”, lembram?), a dentista incinerada por não ter se abastecido para assaltos.

Durante este tempo, Michel Temer era político de muita influência no Congresso, e não foi cobrado como agora. Por quê?

A cobrança excessiva a ele agora me parece desonesta, casuísta.

O problema é que toda a imprensa (não apenas o “GloboNews”) tem falhado em estimular esta discussão que não pode ser mais adiada: como tornar a violência ao menos razoável? Como diminuir a sensação de que os bandidos são deuses com Poder sobre vida e morte de milhões de brasileiros? Como enfrentar tabus que garantem a matança de dezenas de milhares de pessoas por ano?

Confessar que não se sabe por onde começar seria primeiro passo. Garantir que ideologias diversas sejam contempladas neste debate também.

Redes sociais se revoltaram com indenizações aos familiares dos presos mortos mais do que se revoltaram com a chamada “Bolsa – Preso”, quando indenizações obedecem à lógica de indenizar familiares de pessoas que morreram sob tutela (ainda que “terceirizada”) do Estado, enquanto a chamada “Bolsa-Preso” é uma aberração (quem deveria receber auxílio seria a família da vítima). Esta indignação com endereço errado tem raiz na cobertura defeituosa da Imprensa, penso. Quando não se enfrenta o que exige enfrentamento, deformações ocorrem.

Estas simplificações da Direita são tão nocivas quanto as tentativas de lavagem cerebral por parte da Esquerda; os delírios de uma sociedade perfeita encontram, nestes momentos de indignação e desespero, ocasiões para se exibir sem retoque ou compostura.

Este problema, o da segurança pública, é o que mais tem castigado a população. Adiam-se confrontos por muitas razões, sentimento de impotência talvez sendo a maior delas, mas um dia teremos todos que prestar contas desta procrastinação.
Arrisco mesmo a escrever que um governo que cumpre mandato –tampão faria bem se assumisse sua precariedade frente a este desafio. Pode-se e deve-se transformar esta fragilidade em força; honestidade e paixão ajudariam este governo que se mostra (não importa se de maneira desastrada) disposto a apresentar algo, a contribuir.

O que não se pode é ensaiar avanços, apenas para recuar diante de qualquer abaixo-assinado, ou ironia de âncora de telejornal de canal por assinatura.

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