“Notas”-11/01/2017

Sobre feriados

Feriados… quem se ateve a cutucar esta instituição?

Não vou me sobrecarregar com pesquisas sobre feriados em outros países; há países que podem se dar ao luxo de colecionar feriados.

Escrevi no blog sobre os feriados católicos no Brasil em geral e em Belo Horizonte, minha cidade, em particular: “Catolicismo de Feriados”. Foi por ocasião do feriado de Assunção de Nossa Senhora; feriados deste tipo (que a maioria não consegue identificar a origem) há mais uns dois ou três por aqui.

Feriados não se limitam à data homenageativa; se na Quinta-Feira, a semana encerra-se na Quarta-Feira. Delfim Netto em uma entrevista à saudosa revista “Afinal” citou o excesso de feriados como um dos fatores da lentidão no crescimento da economia brasileira, lembrando que há recursos em potencial sabotados por estas interrupções no ciclo produtivo: “Os dólares estão aqui, não lá fora”.

Vi, há alguns dias, no “Estúdio I” do “GloboNews” (e leitores amigos zombam de minha “cisma” com o canal a cabo) estudo sobre o efeito negativo dos feriados na economia. Podem dizer que há prevenção anti- religiosa nos críticos dos feriados, negar o que eles trazem de prejuízos, não.

“Mas os feriados são um alívio aos trabalhadores que suportam carga desumana de sacrifícios”.
Quem nega isso?

Mas quem acredita que feriados emendados sejam solução para o problema do esgotamento dos trabalhadores? Não se estaria adiando discussão séria deste problema? Não se estaria deixando para “momento propício” (que nunca surge) debates e acordos nacionais para redução da carga horária? O elemento massacrante do deslocamento em condução cara e ruim nunca será enfrentado pelas autoridades e intelectuais que se dedicam aos assuntos trabalhistas?

Não imagino como um feriado sem dinheiro para passeios ou viagens possa ser restaurador de forças. A depressão causada pela escassez de recursos não concede pausas nos feriados.

E há setores, como supermercados, que não param em determinados feriados.

O trabalhador no feriado sofre em dobro; à exclusão de um suposto descanso, soma-se a dificuldade de tocar a vida com muitos setores paralisados ou funcionando de forma precária.

Autônomos também padecem nestes recessos forçados; lojas de materiais fechadas e transporte público no “horário de feriado”.

Quem decreta estes feriados sequer imagina os transtornos que causa? Os defensores do feriado imaginam quantos negócios deixam de ser fechados, matando no berço possibilidades de circulação de dinheiro?

 

Lembro de ter visto certo político católico defendendo na TV local o fechamento do comércio aos domingos: “Domingo é o dia da família, do futebol com os amigos.”

Era um senhor com notória ligação com o clero e que talvez nunca tenha imaginado que algumas pessoas não sejam católicas, não apreciem futebol, e sobretudo, dependam das comissões de venda (estes católicos defendiam shoppings fechados nos domingos) para ajudar um dos pilares de seu pronunciamento – a família.

E isto em cidade com igrejas evangélicas em expansão há décadas, e com também crescente número de indiferentes (nem falo dos ateus militantes) à religião que se consideram violentados nos feriados ditados por políticos ligados ao clero.

A defesa dos pobres por almas piedosas que se dispensam de estudar maneiras de tirar trabalhadores da pobreza, ou melhorar condições de trabalho, só me causa desânimo de militar em discussões públicas. Há sentimentalismo e demagogia demais nas discussões sobre assuntos que exigem seriedade e preocupação verdadeira com as pessoas.

O rótulo de reacionário é o prêmio a quem diz o que pensa sobre compensações que compensam apenas os politiqueiros e manipuladores da massa. O drama do transporte coletivo, a degradação dos espaços públicos, a transformação das cidades em desertos com oásis pagos, são temas que quando abordados por intelectuais, apodrecem nas teorias elaboradas por quem não utiliza transporte coletivo e não tem interesse genuíno nos espaços públicos, por não os frequentar, por fazerem parte da minoria que pode frequentar os oásis pagos (bons bares e restaurantes, shoppings e clubes).

Quando não se tem interesse em apresentar algo de concreto ao trabalhador que deixa a cama com o céu escuro para a violência do transporte coletivo caro – e ruim-  e as jornadas de trabalho que, a despeito de extensas, pouco o remuneram, há o consolo de uma demagogia.

Discussão sobre esta demagogia – o festival de feriados e suas emendas- nem em dias de crise.

Sob crises, discute- se mais cortes na carne o trabalhador, ainda que aposentado; cortes que são realizados com anestesias que cada vez anestesiam menos.

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