“Notas”-12/01/2017

Piada Velha, Público Novo

“Haverá quem caia no conto do ‘Pós-PT’ depois do que o Brasil enfrentou nos últimos anos? Haveria brasileiro tão otário assim?”

Amigos que leem o blog me questionam sobre o que consideram ser pessimismo excessivo; o pior teria passado, e não há tanto otário assim no mundo. O que artistas e “formadores de opinião “ dizem não negará o que milhões sofrem todos os dias.

Há sempre gente nova sendo apresentada ao circo, não? Crianças sempre haverá e para elas todo espetáculo é novidade. Não se tem notícia de criança que tenha se levantado da cadeira após ouvir piada que se repete nos circos desde que o primeiro gênio armou uma lona ao redor de bancos de madeira com algo que veio a se chamar picadeiro no meio.

Há gente chegada ao circo da política nacional agora; geração crescida no período PT votará pela primeira vez em 2018. Entendem agora o drama?

Não faltarão vozes a advertir eleitores sobre o “perigo do retrocesso”e lembrar o difícil período Michel Temer. Saberão estas vozes omitir o que Temer recebeu como herança e o quanto teve que enfrentar de sabotagens; suas falhas – hesitação doentia, nenhuma disposição de enfrentar tabus, escolhas desastrosas no Ministério– serão repetidas como mantra. E o resultado…preciso escrever?

O que os partidos adversários do PT e do Pós-PT têm feito até agora para neutralizar este movimento político que dará frutos por sua constância? Que organização têm demonstrado? Criaram alguma militância virtual? Os internautas simpáticos a estas agremiações seguraram o fôlego após o impeachment? Houve alguma cobrança dos órgãos de imprensa pela incompetência, cobrança na forma de cancelamento de assinaturas e cartas cobrando articulistas que erraram – e continuam errando- todas as previsões desde…2006?

Não preciso enumerar as falhas da Oposição ao PT; além do que escrevi (consultem o arquivo do blog) há outros que escreveram e escrevem ainda. Há ainda o quadro de um deserto jamais visto que fala por si: o Brasil está vazio de lideranças e alternativas no curto prazo. Deixaram a coisa ir longe demais, no mecanismo mental de negar ameaças reais na esperança de que estas se mostrassem ilusão de um dia de cansaço.

Mencionei os que escreveram, como eu. Que repercussão tivemos? Que crédito nos foi dado? Blogueiros e/ ou comentaristas de blogs fomos todos ignorados, tratados como profetas de pátio de hospício. Não víamos que um governo tão ruim estaria por um sopro? Não percebíamos que este clube de oradores sem brilho, cujo integrante mais em evidência naquele momento era uma senhora incapaz de elaborar uma oração simples?

Houve enfim o impeachment que estes “formadores de opinião” venderam como o início de um novo ciclo histórico, e gente como nós continuou murmurando “alarmismos”, talvez movidos por inveja, rancor por não termos sido acolhidos:

“Dilma Rousseff caiu, mas não o esquema de Poder, o PT pode sofrer golpes severos, mas não se abaterá com eles, e saberá colher os frutos que semeou em outros campos. O Pós-PT recuperará com vantagens tudo o que for perdido agora.”

E como ignoraram avisos então, ignorarão avisos no futuro próximo. E contarão com público que não deseja ser atormentado por previsões sinistras. Bom acreditar que “os bons tempos voltaram, vamos nos alienar outra vez”.
E celebram possíveis prisões de lideranças do PT, lançam nas redes sociais candidaturas que imaginam invencíveis, riem de “memes”de internet…

Enquanto isso…
Intelectuais se reúnem, avaliam o que deu errado na incursão da Esquerda pela via institucional, aferem dados dos movimentos sociais, reforçam os laços pessoais entre os membros, valorizam – citando e replicando – o que membros e simpatizantes produzem na internet; ocupam espaços e planejam os avanços possíveis.

“Não há piada velha, há público novo”, quem o disse?

O Pós-PT decerto utilizará o que deu certo no surgimento do PT no início dos anos’80: arregimentação de gente jovem, bonita, “descolada” e com visão e discurso críticos à geração anterior da Esquerda – louvarão as boas intenções enquanto apontam os erros que causaram “retrocesso”.

Gente da minha idade ou pouco mais velha lembra do discurso dos petistas a respeito do MDB e do Partidão. E lembra que elogios mais apaixonados a Cuba demoraram uns dois ou três anos para virem à tona; os jovens já estavam fisgados e comprometidos então.

Quero ser desmentido por alguém também de minha geração ou mais velho: muitos dos estudantes que frequentavam as reuniões da abertura política vestiam camisetas do sindicato “Solidarnosc”, louvavam o sindicato polonês liderado por Lech Walesa.

Lech Walesa que depois seria criticado por Lula e por muitos petistas por seu “direitismo”.

Há no “YouTube” trecho do documentário “Entreatos” do João Moreira Salles, no qual Lula diz que Walesa “quando chegou ao Governo viu que não tinha porra nenhuma”.

Não tenho visto entre os que comentam este flagrante a lembrança dos jovens de 1980 vestindo a camiseta do sindicato que depois atacariam. Esqueceram ou não dão importância.

E é destes esquecimentos, deste desprezo por símbolos, que repetições amargas da História se nutrem.

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