“Notas”-18/01/2017

Marco Antonio Villa no “Roda Viva”

“Não dá para dizer o que vai acontecer na próxima semana quanto mais para prever o futuro”.

Cito de memória uma resposta do historiador Marco Antonio Villa no último “Roda Viva”.
Embora se negando a arriscar profecias em resposta a uma certa pergunta, Villa previu que a prisão de Lula será um marco depois do qual o Brasil será “uma República”.

O Brasil tem este culto aos “homens que sabem das coisas” que Carlos Lacerda identificou no respeito excessivo aos economistas e suas previsões. O sujeito domina determinado ramo do conhecimento e acredita-se, incentivado por plateia de simplistas, habilitado a pontificar sobre muitos outros ramos de conhecimento. Não sei se Villa é apenas historiador, ou também sociólogo, antropólogo ou cientista político. Sei que sua leitura do ciclo de Poder da Esquerda no Brasil é superficial; a economia obedecendo aos mandamentos do Mercado e o regime só poderá ser de Direita. O mesmo se diz de governo no qual seus membros, sobretudo o mandatário nominal, enriquecem. Esquerda, para gente como Villa, é um regime de renunciantes que estatiza até biroscas de favela. O modelo chinês para analistas deste corte é regime de Direita.

E seus pronunciamentos na “Veja”, nos vídeos da revista, sempre obedeceram a esta lógica, idem suas participações na “Jovem Pan”. O que li dele nos artigos, idem. Não conheço seus livros, e não duvido que sejam obras de valor historiográfico; fique neles, Professor.

Não se meta a analisar lutas de Poder que exigem conhecimento profundo de conceitos apenas pelo fato do Brasil endeusar autoridade acadêmica. O próprio entrevistado ao comentar o juízo que Fernando Henrique Cardoso fez da “Era Vargas” observou que o sociólogo FHC fora além de seus conhecimentos ao avaliar personagem histórico complexo e multiforme.

Villa acerta nas identificações de mazelas; traça, em diversos momentos de sua entrevista, retrato nítido dos males que atam o País ao atraso, e estas são as passagens do programa que valem o tempo que se gasta assistindo-o.

Acontece que suas leituras precisas de males atuais são negadas no segundo seguinte, nas suas previsões simplistas, que sugerem que o Brasil livre de “uma organização criminosa”encontrará seu futuro glorioso por mera consequência. Não se pergunta se o Brasil chegou a refém de “uma organização criminosa” por esta ser mais competente em fazer política e se muitos brasileiros são relativistas; “eu me dando bem que roubem o Brasil várias vezes”ou “não sei de nada, minha vida melhorou com este governo”.

Villa criticou o PSDB (e o que este partido, sobretudo FHC, tem de culpa em ter calculado mal o “Mensalão” e o que este causaria de desgaste eleitoral ao PT), anunciando o amanhã que surgirá do processo da “Lava-Jato” e que não será nem do PT nem do PSDB, mas “verde e amarelo”. Que tal?

O programa foi um recital de frases de efeito; entrevistado e bancada parecendo competir pelo prêmio da “Mais Bela Sentença Vazia” da noite. Os professores universitários defendendo o “legado social” do PT e o entrevistado anunciando “o Brasil republicano que virá disso tudo”. Um professor reprimiu a palavra “Golpe” na saída da boca ao analisar o impeachment de Dilma Rousseff, não lembro se o mesmo que teve que ser admoestado por Augusto Nunes ao tentar discutir com o entrevistado.

Falar em discussões entre entrevistado e entrevistadores…

Lembro de programas “Roda Viva” com bancadas de entrevistadores mais categorizados e com alguma notoriedade; professores universitários conhecidos apenas por colegas de departamento ou jornalistas ainda fazendo nome tendem a discutir com o entrevistado, proporcionando ao telespectador espetáculos grotescos. Caso não seja Augusto Nunes o autor dos convites aos participantes, ele faria bem em filtrar nomes menos experimentados.

O que me incomoda no Professor Villa, além do seu simplismo na análise do que foi (ou ainda é) o esquema de Poder do PT é sua crença no Poder mágico da diminuição da figura de Lula como arma eficaz contra o líder petista e seu círculo; fosse Lula um sujeito “que só lê rótulo de cachaça” como insiste Villa, teria construído o que construiu na Política?

Este comportamento não é o de um estudioso, mas o de um torcedor que acredita que seu time só deve contar com os defeitos do adversário para jogar; o feitio mental do analista político improvisado que não se ocupa de particularidades que determinam os eventos.

Marco Antônio Villa coloca todo o destino do Brasil na prisão de Lula, ao que parece esquecido da inutilidade desta punição, ou mesmo sem se perguntar se o Brasil está mesmo preparado para outros estágios da Política; emocionalismo como substituto de coleta e análise de dados – tudo sendo banalizado no referido espírito de torcida, de festival.

O convidado mencionou algo que observei algumas vezes aqui no blog: a popularização do Supremo Tribunal Federal, juízes sendo comentados por populares como “nunca antes na história deste país”. Também fico otimista, mas sei que este é um início que deve ser cultivado, regado por imprensa cuidadosa e constante. Ora, depois do impeachment, este interesse vem decaindo pela desilusão das massas com a solução – o impeachment –  que nada solucionou.

Há que entender este interesse popular pelas coisas do Poder como um elemento de civilização, mas não como ponto final de uma caminhada – que está no começo com muito chão por cumprir. E este interesse variará de acordo com a percepção de que algo está sendo levado com seriedade; gente que trabalha o dia inteiro não quer se sentir como boba ao acompanhar noticiário político.

E chego ao que considero um dos pontos altos do programa, senão o mais revelador da percepção do Professor Villa desta realidade:

O entrevistado lamentou os palpiteiros de internet, repetindo como tolos expressões como “Fulano é socialista fabiano” , “Isto que beltrano defende é marxismo cultural”, ou ainda “Sicrano é comunista, quem não percebe isso?” sem noção aproximada do que vem a ser “comunista”, “socialista fabiano”, ou “marxismo cultural”.

Quem não dá razão ao Professor? Quem não se irrita com estes papagaios da Direita que recitam fórmulas que lhes parecem belas e com Poder – de explicar, de simplificar e combater problemas complexos?

Acontece que esta gente que segue correntes de pensamento que exigem leitura para serem entendidas está saturada de professores universitários que vendem ideias que também são simplificações grosseiras e de jornalistas que as replicam, indiferentes ao desespero de quem não percebe nas classes instruídas qualquer solidariedade ou compaixão pelo seu sofrimento.

Intelectuais que não falam de forma eficaz ao homem da rua são também responsáveis por esta explosão de ignorância satisfeita das redes sociais.

Não adianta rir destes intelectuais improvisados das caixas de comentários ou lamentar suas tolices quando se evita a responsabilidade de educar pelo exemplo.

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