“Notas”-19/01/2017

Sobre prisão de Lula

“O Brasil será uma República quando prenderem o Lula.”

Esta frase foi dita e reiterada pelo Professor Marco Antonio Villa no último “Roda Viva”, como escrevi no texto anterior deste blog.

Muita gente acredita que uma possível punição ao ex-Presidente seria, não uma medida legal, mas um acerto de contas com a História. Um marco histórico, não um desfecho de um processo após análises de provas.

Eu não acredito na eficácia desta possível prisão como arma política. Vejo Política como ciência exata, o quanto uma ciência é possível ser exata. Quais fatores são analisados por quem decreta esta punição hipotética como a sepultura final de um processo político? Os que acreditam na mágica destas algemas imaginárias já fizeram o retrospecto da tomada do Poder por este partido através da eleição de sua figura – símbolo?

A casta acadêmica que se declara hoje adversária do projeto de Poder do PT tem sua parcela de culpa na construção deste inferno, ainda que tenha abandonado a obra há algum tempo; parte da imprensa adversária também. Onde a confissão de culpa? Onde o reconhecimento de uma parcela da culpa, ainda que por omissão?

Muito do que responde por Oposição tem as mãos meladas da lisonja ao “líder de um novo sindicalismo, “a voz de uma Esquerda moderna”. Há também quem, em postos de comando, tenha trabalhado com energia reduzida no combate, ainda que fazendo críticas pontuais. Batia-se, mas com luvas. Pisava-se no pé, mas apenas em resposta, e pedindo desculpas.

Agora, corre-se atrás dos fatos.
Quem deveria ser a vanguarda da sociedade, do alto de suas posições, desfrutando do status de “formador de opinião” esperou pelos acontecimentos, e agora lamenta o fato consumado.

E clama por soluções “café instantâneo” para o problema chamado 2018: tirar Lula de combate para que o PSDB enfraquecido e com rachaduras visíveis à distância não tenha com o que se preocupar doravante. Ainda que o Brasil pague o preço do PT ganhar um mártir.

Por que estes senhores não bolam outras estratégias para liquidar de vez este esquema de Poder? Por que não tramam outras maneiras de debilitar o PT sem presenteá-lo com o papel de vítima?

Porque acham este mais fácil e direto.

Foi assim quando do “Mensalão”, também assim quando decidiram não atacar campanhas tucanas desastrosas; por que mudariam a direção da campanha do PSDB se a oponente parecia ler apenas embalagens de chimarrão (há quem sustente ser esta a leitura única de Dilma Rousseff ainda hoje, mesmo depois dela ter enviado sinais de vida quando da detenção de Guilherme Boulos)?

O menor esforço como princípio maior na luta política, enfim.

Dizer aos que sonham com o grande momento de Lula embarcando na viatura que o mais letal seria apenas, além da cassação dos direitos políticos, o confisco do que se encontrasse de ilícito entre seus bens e não cansar de fazer reportagens a respeito é aconselhar um tanque de lavar roupa. Ninguém deseja ouvir, seria como interromper um orgasmo mental.

Alguns jornalistas justificam a não-repetição de temas alegando que esta repetição cansaria o leitor; blogs ditos “sujos” não pensam assim. Repetem a mensagem até que esta crie raízes na mente do leitor e que a repetição se mostre como fé que acabará contagiando quem ainda duvida. Estão certos, sabem trabalhar.

O que mais temo na prisão de Lula é que ela, além de, repito, presentear o PT com um mártir, seja como um aviso aos profissionais da imprensa anti – PT de que não precisam mais se preocupar com o esquema de Poder do PT (e ainda mais do Pós-PT) e que podem voltar à amenidades; a volta alegre à pauta da imprensa mainstream: disfunção erétil e regimes para emagrecer, com pequenas variações sobre vida sexual de famosos.

Lula cassado e com fortuna reduzida seria algo a se contemplar com prazer não fossem as mentes tão primitivas: o deserto em torno de si (os bajuladores do partido e do meio sindical e /ou acadêmico não o aliviariam do desconforto), os luxos sendo cortados sem preocupações em disfarçar queda de status, as vaias e insultos nos lugares públicos  (forçando-o a andar com seguranças e círculo de adoradores até a esquina); a mesquinharia da vida em um país destruído sendo experimentada após décadas de prestígio e Poder.

Isto deveria excitar imaginação, não um prosaico possível desfecho judicial.

A desmoralização e o ostracismo são, para uma figura pública, a mais amarga prisão.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s