“Notas” – 24/01/2017

Gerald Thomas no “Roda Viva”

Uma entrevista com Gerald Thomas na TV brasileira na qual episódios como o traseiro para a platéia do Municipal ou o “Caso Nicole Bahls” não sejam assuntos preferenciais, ou sequer mencionados, não é um presente de início de ano? Um programa com Gerald Thomas sem o qualificativo “Polêmico” surja a cada três frases então…

No Brasil quem quer que se expresse com o mínimo permitido de coragem é “Polêmico”; ex-BBBs ou ex-jogadores de futebol convertidos em técnicos ou comentaristas de mesa-redonda, ou animadores de auditório de programas “com os dramas da vida real”, ou atores e atrizes de “filmes adultos”- todos, se não mencionarem algum colega sem garantir que se trata de “pessoa maravilhosa”, é polêmico. Ter alguma personalidade no Brasil é ser “polêmico”.

Dirão os leitores que este espanto com pessoas que não se deixaram mutilar não é exclusividade brasileira, mas é aqui que vivo, e aqui noto que as palavras que antes significavam algo se inutilizaram pelo uso. Até o dicionário corrompeu-se aqui.

Gerald Thomas não é “polêmico” neste sentido gasto. Trata-se de um artista internacional nascido (?) no Brasil, criado aqui e que cumpre sua trajetória em alguns países e palcos com nível de exigência que não se permite relaxar. Como não precisa de aplausos de grupinhos, pois competente, tem fixado em si o selo “Polêmico!” desde os anos 1980. Data desta época, se não me engano, seu esforço em tornar o Brasil menos provinciano e obscurantista.

Foi um programa que quem que tenha bom gosto e interesse por conversações inteligentes se deve, simples. Disponível no “YouTube”, há que ser revisto, anotado…entrevistadores de nível, como Wagner Carelli, por exemplo, e um Augusto Nunes com olhos brilhando de interesse (sob declarado impacto da leitura da recém–lançada autobiografia do convidado); Gerald Thomas numa de suas melhores entrevistas (quando entrevistado por pessoas inteligentes, ele corresponde e rende).

Indagado sobre o local de seu nascimento, Gerald preferiu não responder, parece considerar este dado biográfico secundário em relação a onde conseguiu chegar; segundo Gerald, diversos países reivindicam sua nacionalidade; para os alemães, é um encenador alemão; para os ingleses, inglês; para os americanos, americano ( e de fato é radicado nos Estados Unidos, filiado e militante do Partido Democrata, trabalha há décadas em Nova Iorque)…

O que levou à pergunta que considero uma das mais inspiradas do programa: a jornalista Maria Eugênia de Menezes perguntou se a recusa de se localizar como cidadão deste ou daquele país devia-se ao fato de Gerald se filiar não a um país, mas a uma geração (no caso, a “Geração Woodstock”),filiação reiterada pelo autor de “Entre Duas Fileiras”.

E pergunta deste nível mereceu resposta equivalente: sim, ele se sentia privilegiado por ter vivido uma década (a de 1960) depois da qual as coisas não seriam mais as mesmas (cito de memória, vejam o programa) e sim, tinha “pena” de quem não sujou os pés em Woodstock, “pena” de quem não viu perto de si Jimi Hendrix tocar o hino americano na guitarra.

Entendo, e assino embaixo; também tenho “pena” de mim por não ter vivido estes dias inflamados, que foram sucedidos por esta mediocridade sob a qual nos arrastamos. Difícil não ser “nostálgico” comparando o Mundo que existiu até o início da década de ’80 com o que veio depois. Há que fazer esforço para não se desistir de vez de uma época que não produz homens duradouros que deixem obras também duradouras a quem vier depois.

Ou produz e não sabemos, nunca saberemos. Os meios de comunicação estão impedidos aos “criadores de caso” e negam na prática o juízo de Belchior segundo o qual, “o novo sempre vem”. “O Novo” surge sempre, mas exige esforço cada vez maior para conseguir alguma visibilidade; elementos isolados aliviam o vazio deste nosso tempo: Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson no cinema, por exemplo. Mas em outras áreas parece haver um deserto assustador do fim dos anos ’80, início dos ’90 para cá; “The Smiths“e “Pixies”, por exemplo, são destes dias; que veio depois que se possa comparar? Talvez haja algum artista ou grupo que tenha o que oferecer, mas de conhecimento restrito, existindo quase na clandestinidade sob a ditadura do lixo da pior música da história da humanidade. E muito da Literatura e do Teatro (sem falar das artes plásticas) deve sobreviver nas mesmas condições de ostracismo nestes dias do “politicamente correto” e da negação da hierarquia mental.

Gerald Thomas se definiu, com toda a Justiça e sem a mácula moral da modéstia, como “pensador da arte”; segundo ele, basta que proponham a ele um nome e ele discorre sobre este nome com propriedade. Desafiou entrevistadores e propuseram-lhe “Radiohead”. Rebateu: grupo medíocre, um fruto de Kraftwerk com não me lembro o quê, e pensei: “Que desperdício! Eu perguntaria por Tarantino, pelo Nobel ao Bob Dylan…”

Pois Gerald Thomas tem sobre qualquer destes nomes juízos que fogem aos clichês, sempre com alguma recordação, uma nota pessoal que ilustra o rigor na análise de um artista. Lembro que escreveu no seu blog (que leio sempre e recomendo) por ocasião da morte de Norman Mailer, que sua associação mental ao nome do escritor falecido era (além deste ser um dos ícones de sua geração) que este ajudara a libertar Jack Abbott que viria a matar um ator de teatro do “La MaMa”, companhia na qual Gerald trabalhava (ainda trabalho, acho). Sobre qualquer outro nome da cultura, Gerald Thomas escreve assim, não procurem em seus textos facilidades e chavões. É mesmo um “pensador da arte”, um do últimos.

Quando soube de sua existência? Na minha adolescência, lia muito uma revista, já desaparecida, “Afinal”. E em dado número veio reportagem sobre uma montagem d”O Navio Fantasma” do Richard Wagner e uma entrevista com o encenador. Quantas vezes li e reli esta entrevista, gargalhando sobre o juízo deste diretor sobre jornalistas, classe teatral, público de ópera, convívio na companhia teatral…pouca coisa saiu na Imprensa desde então sobre este encenador e autor teatral que eu não tenha lido.

Querem saber? Tenho a “pena” que ele mencionou sobre quem não foi contemporâneo deste momento dos anos’80 quando me lembro desta entrevista; as coisas ainda aconteciam.

Confesso que conheço pouco seu trabalho de palco; poucos vídeos com montagens –completas ou trechos- em seu site. Este pouco confirma o lugar-comum sobre seu trabalho: cinema encenado; inventividade e rigor, cenários, iluminação, música (parcerias com Philip Glass e John Paul Jones, por exemplo),  timing. Tudo é acima da média, tudo – sobretudo seus textos- parece feito para capturar mentes, desintoxicá-las da mediocridade. Vejam os trechos de “Mattogrosso”, “The Flash and Crash Days”, “O Processo”, etc, etc, etc.

Vejo sempre estes vídeos, mais suas entrevistas, mais seus textos no seu blog –a autobiografia lerei ainda – e sei que ainda há razão para não desistir neste tempo.

Esta entrevista do “Roda Viva” (houve outra, nos anos’80, também obrigatória, e disponível no site do Gerald Thomas) é mais um reforço, mais um incentivo, mais um alívio, neste momento onde os sentimentos de inferioridade nacional se justificam.

Um grande entrevistado, convidados interessados em ouvir e não em emparedar o personagem “no centro da Roda”, um apresentador encantado; um “Roda Viva” já clássico.

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