“Notas”-26/01/2017

“O Povo da Internet” e Chico Buarque

Há  “O Povo da Internet”, e sobre ele escrevi no blog; pessoas sem preparo intelectual consumindo e divulgando boatos, memes, teorias conspiratórias, simplificações, etc, etc, etc.

Não há remédio para este mal da sociedade de massas, e cada um que vá filtrando o que aparece pela internet; amizades se formam e se desmancham ao sabor destas afinidades de caixas de comentários. Certa vez, nos meus tempos de Facebook, comentei numa postagem sobre o carnaval de um escritor e este me adicionou. Trocamos emails e parecia ter surgido amizade verdadeira, que duraria anos. Durou menos de duas semanas; ironia que fiz sobre o PT foi interpretada por esta amizade nascente como elogio ao partido que ele odiava, e me vi expulso de sua lista de amigos. Escrevi email explicando ironia, me desculpando pela ironia (O Brasil virou país onde além de ser necessário explicar a piada, convém apresentar desculpas logo em seguida) e nenhuma resposta.

É “O Povo da Internet”, espécie que me foi apresentada pelo seriado “Monk” na figura de uma comitiva de turistas que corre a um hotel após boatos de que haveria alienígenas hospedados nele. Como blogueiro, exponho-me a esta coletividade de opinionistas apressados, e dou sorte de não ser muito acessado e ter que explicar cada linha do que escrevo.

Vejam agora a mais nova “descoberta” do “Povo da Internet”: vídeo onde Chico Buarque “confessa” comprar composições de autores desconhecidos e necessitados de recursos; haveria um time de pobres fornecedores de canções vendendo suas obras ao intérprete famoso.

Chico Buarque, que seus circunstantes descrevem como gozador talentoso, mostra semblante grave ao esclarecer como consegue as canções que assina como autor. E esta expressão nada risonha basta para que “O Povo da Internet” tome esta gozação como confissão verdadeira, indiferente ao fato do personagem do vídeo (que é um trecho de um documentário lançado em DVD) “confessar” na presença de uma câmera e diante de um microfone.

Há no “YouTube” diversos canais que replicam a “denúncia” com comentaristas tentando esclarecer do que se trata o vídeo e antagonistas de Chico Buarque concluindo que ele é coerente em apoiar o PT e “roubar” músicas. Um comentarista disse com acerto que com Direita burra ao ponto de não entender piadas, a Esquerda ficará anos no Poder.

É muita estupidez partindo de gente que se acredita alfabetizada e apta a ler e interpretar textos. Chego a imaginar que esta onda foi causada por perfis de Direita fakes, com contas fake de supostos direitistas, da autoria de esquerdistas maliciosos; ninguém merece ser tão tacanha ao ponto de acreditar em uma piada tão evidente.

Mas lembro que a Direita de internet é assim em sua quase totalidade: o que se lê nos espaços direitistas explica a tranquilidade da Esquerda, ferida apenas na epiderme; lacunas preocupantes no domínio mais elementar do idioma (há muito antipetista categorizando Lula e Dilma Rousseff de “analfabetos” grafando o há de haver sem o h) e na capacidade de raciocinar além de simplificações e clichês colhidos destes mesmos ambientes.

Marco Antonio Villa mencionou no “Roda Viva” os internautas que catalogam pessoas como “comunista”, “socialista fabiano” e “gransciano” sem saber o que dizem. A Direita de internet é assim: ignorante que se acredita culta por ter aprendido, só de nome, dois ou três conceitos.

Escaparam da ignorância, imaginam, pelo método café instantâneo de aquisição de cultura. Lê-se aqui um comentário, ali um resumo deformante de algum fato histórico, e pronto! O anticomunismo ganhou mais um combatente.

A Esquerda tem uma vantagem sobre a Direita: há um filtro que faz com que apenas os que de fato leem sejam alçados ao posto de “formadores de opinião”. O que ficar no filtro – adolescentes empolgados, semiletrados iludidos por slogans, leitores devotos de blogs “progressistas”-  permanece na condição de MAV (“Militante de Ambiente Virtual”) dando expediente nas caixas de comentários com o que sabe fazer:”KKKKK”,  “Retardado leitor da ‘Veja””, “E o seu PSDBosta, não vai ser investigado?” e outras variedades deste repertório. Não se permite na Esquerda ignorantes absolutos tomando centro do palco; na Direita, ignorantes ocupam o centro do palco, a coxia, a bilheteria…

O viral da “confissão” do Chico Buarque segue este padrão, ainda que eu acredite que foi uma manobra bem sucedida da Esquerda para exibir direitistas em sua mentalidade sob holofotes mais potentes. Quem colheu este trecho – o da “confissão“ da compra de canções – teve que assistir o documentário, e não imagino direitistas assistindo com atenção documentários sobre Chico Buarque. Portanto, acredito que foi uma armadilha na qual tolos caíram: os que acreditaram que este viral é sério.

Fica assim: foi tudo uma piada da Esquerda sobre uma piada do Chico Buarque na qual uns poucos direitistas ou apenas – repito, poucos- críticos do PT e do apoio do Chico Buarque ao PT caíram. Prefiro acreditar nisso. Me é mais confortável acreditar.

Acreditar que muitos não conseguiram identificar uma ironia me faria mal; a vontade de abandonar o blog e desistir do contato com meus semelhantes me subjugaria de forma total e definitiva. Ninguém merece escrever para possível público de idiotas.

A internet seria mortal se muitos de fato acreditassem neste “viral do Chico”.

“Foi tudo uma brincadeira de internautas. Gente brincalhona…”

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