“Notas”-27/01/2017

“GloboNews enfim apresentada à realidade”

O comentário em uma rede social de uma professora de História chocou o Rio de Janeiro:

“Justiça divina”, escreveu a professora sobre morte de uma menina de dois anos; a criança era filha de um policial militar.

Soube do caso assistindo o “Estúdio I” do “GloboNews”. Um dos comentaristas do programa parecia chocado com a mentalidade de “uma formadora de pessoas” (ou algo do tipo).

Sim, a “GloboNews”enfim apresentada á realidade; como a professora que não apenas qualificou a fatalidade como “Justiça divina”, mas zombou dos que se enfureceram, há vários.

Escrevi no blog sobre comentários que ouvi de colegas de faculdade (Letras,UFMG) a respeito de mortes de algumas crianças divulgadas na Imprensa:

“Estão fazendo esse chororô porque o (a) menino (a)é branquinho(a).”

Logo, não partilho do mesmo espanto do comentarista do “Estúdio I”. Sei como a mentalidade acadêmica é deformada e sei o que estes personagens nutrem em suas mentes para depois vomitar sobre alunos e parentes orgulhosos dos estudantes universitários da família.

Os leitores dirão que isto não deveria ser novidade para comentaristas de um canal a cabo de cidade que possui universidades onde gente como a tal professora é elemento dominante.

Dever saber é diferente de ser apresentado de forma brutal à realidade. Romantismos terminam nestas monstruosidades e há ocasiões nas quais o óbvio se dá a perceber aplicando cotoveladas nos olhos dos sonhadores. Este comentário monstruoso de uma professora sobre a morte de uma menina de dois anos, vitimada por uma bala enquanto brincava no playground de uma lanchonete (foi o que o programa contou do episódio), foi este “alô” da realidade sobre teóricos de estúdio de TV.

Verdade que o tal comentarista é autor dos comentários mais lúcidos do programa, mas os demais participantes pareceram transportados para uma exposição de horrores em 3-D.

Nem tudo que este pessoal diz é desprezível; penso parecido com eles na questão carcerária, por exemplo. Penso que certos detentos poderiam muito bem cumprir penas alternativas. Mas discordo quando se defende no programa o tabu etário nas punições, e lamento que eles não apresentem alternativas concretas às penas de reclusão. Sem advogar penas severas para criminosos, defender penas alternativas a presos não perigosos torna-se defesa pura da impunidade. E ninguém quererá discutir com mente aberta mudanças na Lei.

Também lamento que não haja nunca um reconhecimento da classe jornalística na cultura da impunidade. A classe jornalística adota (mesmo porque formada por ela) sem qualquer filtro a mentalidade da casta acadêmica, indiferente ao descompasso entre os interesses da maioria e as abstrações de professores universitários. Lamento porque se a classe jornalística não for reputada como confiável, como a massa se guiará? Contará com uma classe política mal formada como a nossa? Errará no empirismo mais irresponsável?

Este episódio da professora louvando a morte de uma criança deve ser aproveitado como fato que provoca discussões com bases na realidade. Não se deve desperdiçá-lo como se desperdiçaram outras tragédias (considero a morte desta criança sublinhada por um comentário repulsivo como tragédia), esperando que o tempo se encarregue de amortecer este golpe na sensibilidade. Que sirva como exemplo da doença moral de um país, como um sintoma de algo muito grave.

Não preciso escrever de quem é a obrigação de não permitir que as discussões no Brasil sejam adiadas, preciso? Não preciso escrever sobre o que penso ser função natural de uma classe que reivindica o Poder de formar opiniões.

Escrevi no post anterior sobre os boatos de internet, espalhados por uma Direita ridícula. Estes boatos, estas besteiras, são mais graves porque não faltam realidades que exigem combate. Ao escolherem simplificações e idiotices de redes sociais como armas, esta Direita de peça de teatro infantil é cúmplice dos atos mais nocivos e de efeito mais duradouro da Esquerda.

Há uma mentalidade que é mais daninha que mil roubos de dinheiro público; esta mentalidade relativista e niveladora por baixo é o que nos sangra até a Morte.
Dinheiro, economia- tudo isto um país como o Brasil recupera. Sua vida moral, não.

Este comentário de uma professora louvando a “justiça divina” aplicada sobre uma menina de dois anos foi um aviso disto aos jornalistas.

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