“Notas” – 31/01/2017

“A Verdade Na Boca Errada”

No livro de entrevistas de Fernando Henrique Cardoso ao Roberto Pompeu de Toledo, ”O Sociólogo e o Presidente”, FHC narra suas viagens pelo interior de São Paulo com Ulysses Guimarães; o deputado repetia em uma cidade o discurso (as analogias, as parábolas, os exemplos) feito na cidade anterior. Justificava-se ao professor universitário debutando na Política: “Quem ouviu este discurso hoje em Ribeirão Preto não estava ontem em Fernandópolis (claro que cito de memória e as duas cidades podem não ser as citadas no livro, sim?).”  A lição fixou-se na mente do político FHC.

Como Ulysses, repito muito meus assuntos, certo de que nem todo aquele que me lê hoje, leu ontem, e não sairá procurando no arquivo ou por tags, tudo o que eu tenha escrito sobre um tema e outro. Explicação sobre “repetições” dada (e posso muito bem repetir esta explicação, estejam avisados), vamos ao texto:

Que o sistema prisional brasileiro é um fracasso, estas rebeliões recentes nos lembram com todo seu repertório de atrocidades. Que não oferece segurança para a sociedade ou educação para seus pacientes, também não é preciso lembrar.

Apenas mentes muito primárias acreditam que discutir mudanças no sistema é “esquerdismo” ou tentativa de institucionalizar impunidade.

“E por que você critica tanto o ‘GloboNews’ e outros defensores da necessidade de se debater o problema das prisões?”

Porque há pouca coisa tão nociva quanto a verdade na boca errada.

Porque acho que estes jornalistas não possuem visão independente (e, portanto, produtiva para o debate), apenas ecoam os porta-vozes da casta acadêmica. Quando não convidam a casta acadêmica, ela própria, a se manifestar, sempre que alguma sucessão de horrores faça seu desfile anual.

Os “doutores em causas da violência” não negam a oferta de microfones e poltronas almofadadas, claro. Cada tragédia é pretexto para que reiterem seus juízos sobre as motivações de criminosos, as implicações sociológicas dos crimes e a culpa da sociedade nos episódios. Quando alguém (e isto é cada vez mais raro) lembra aos explicadores de tragédias que as vítimas em geral são tão pobres quanto os criminosos e que “a sociedade” é um conceito muito vago nestes casos, reagem com riso de mofa, no que são seguidos por apresentadores destes “debates”.

Quem levará em conta opiniões sobre sistema prisional de quem se mostra disposto a culpar sempre o Estado, sempre a “sociedade” e nunca o criminoso? Quem está com as respostas já preparadas é, em geral, pouco respeitado em discussões sérias. Em discussões sérias, há dúvidas, há nuances; teorias prontas são surradas sem contemplação, pois teorias prontas de outros tempos trouxeram-nos todos ao pesadelo. Há que questionar as “verdades” que não apresentam resultados, não?

Mas como questionar “verdades” e teorias prontas e embaladas quando só se convidam professores universitários e jornalistas papagaios de professores universitários? Como discutir com honestidade procurando sempre os defensores de teorias irrealistas? Como apresentar ao público debate sobre segurança que nega de antemão qualquer julgamento moral, mesmo em crimes monstruosos? Como se mostrar confiável à opinião pública quando se exibe completa falta de empatia com o sofrimento das vítimas?

Por isto sou contra os programas da “GloboNews” sobre sistema prisional; eles defendem mudanças sem apresentar contrapropostas realistas e justas ao método de punição que de fato está em decomposição avançada. Sem dizer o que se deve fazer com autores de crimes revoltantes, propor penas alternativas pra crimes “leves” é desconversa.

E desconversa é tudo o que as pessoas dispensam em momentos de crise.
Sem convidar repórteres policiais, policiais, vítimas, familiares de vítimas, carcereiros e mesmo movimentos sociais (todas as vozes devem ser respeitadas), discutir mudanças na Lei é discutir remendos. Mencionei outro dia aqui no blog o sistema das APACs (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado) e o que elas podem oferecer de saídas concretas.

Esta discussão envolvendo a sociedade, e não apenas auto – escolhidos representantes da casta acadêmica, já está demorando muito para ser enfrentada. Cada rebelião com suas ilustrações macabras é um aviso de que esta omissão, esta procrastinação é, em si, um crime. Quantas centenas de cabeças jogadas nos pátios serão necessárias para sensibilizar quem se declara “solidário” e nada faz de concreto?

E repetirei estas queixas e estes questionamentos tanto quanto se repetem entrevistas dos explicadores de tragédias, de “doutores em causas da violência” declamando números e derivações teóricas destes números para reiterar suas “verdades”. Se estes senhores podem repetir seus mantras, por que os críticos devem temer a repetição?

Como Ulysses Guimarães, conto com quem não foi atingido pela “Mensagem”, que deve ser gritada e repetida até se fixar nas mentes.

Até que se torne fato.

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