“Notas”-01/02/2017

Anestesiados pelas prisões da “Lava-Jato”

Escrevi diversas vezes no blog sobre minha fé no Brasil quando vejo populares discutindo Ministros do Supremo Tribunal Federal e seus votos como “nunca antes na História deste país”. Discutem nomes que antes só eram encontradiços nas bocas de advogados e jornalistas como há menos de quinze anos só se discutiam nomes de jogadores de futebol.

Isto é bom, faz acreditar em uma nascente opinião pública.

Mas há um efeito perverso neste processo histórico que amadurece o Brasil: os mesmos populares que discutem com paixão personalidades e votos de figuras de tribunais superiores estão anestesiados pelas prisões da “Lava-Jato”. Sim, há um efeito de anestesia nas mentes antes excitadas pelo processo de impeachment.

Não é raro um leitor de jornal pendurado em banca de revista perguntar ao outro:

“Mas este Fulano já não estava preso?”
“Não. Beltrano, ligado a Fulano, é que foi preso semana passada.”

Sou contra prisões da “Lava-Jato”? Sou favorável à liberdade de larápios de dinheiro publico?

Não, apenas assisto com tédio este festival de prisões que sei que não farão, por si, mudanças substanciais na Política. Haverá sempre alguma forma de desonestos fazerem das suas, e a Política servir aos interesses de uma minoria que sabe se movimentar nos corredores do Poder. Sem mudanças nas leis eleitorais e partidárias, e sem imprensa mais interessada, pouco se mudará após estas prisões satisfazerem apetites imediatos.

Muitos riem da prisão do Eike Batista, mas poucos sabem dizer com exatidão o que ele cometeu para ser preso; há nuances técnicas que escapam ao telespectador comum destas prisões. Sabe-se que ele tem muito para contar, mas há os que se perguntam sobre o resultado prático de possíveis delações:

“Caso ele delate figuras centrais do Poder nos dias em que ele era apresentado como aposta irresistível, quais punições seriam acrescentadas aos personagens que já são investigados em outros setores da ‘Lava-Jato’ ”? Há limite a se cumprir de penas no Brasil.

O que me incomoda é que setores da Imprensa que venderam Eike como “o Futuro” pouco são cobradas pela opinião pública que agora vibra com sua calva e sua rotina em Bangu. O mesmo digo dos que se alegram com Sérgio Cabral e sua mulher vivendo rotina estranha ao fausto de outros tempos, mas não se lembram de cobrar com rigor a Imprensa que se omitiu enquanto Cabral liquidava as finanças do estado do Rio de Janeiro.

As prisões estão amortecendo sentimentos de indignação, entorpecendo as massas que acabam esquecidas de que estes personagens foram muito pouco criticados e vigiados pela Imprensa que agora os exibe em roupas e cortes de cabelo do cárcere.

Há como reagir a este processo de “dessensibilização política”? Há.

A Imprensa deve fazer um reconhecimento de suas responsabilidades. É duro fazê-lo? Sem dúvida, mas a Imprensa um dia terá que prestar contas de suas falhas, não? Talvez seja processo traumático esta auto – avaliação da classe jornalística, mas como reconquistar a credibilidade do público sem se reconhecer que alguns destes personagens foram vendidos com ajuda decisiva da categoria? Como escrever esta História no futuro sem este exercício  -sem dúvida doloroso-  de honestidade?

O circo das prisões de homens retirados do Poder um dia cansará o respeitável público, e neste momento o que apresentarão? Que número está sendo preparado quando este não mais impressionar a gente sob a lona?

O que se precisa discutir para que aventureiros não mais tenham oportunidade de agir no Brasil está sendo adiado – até quando? Espera-se o momento mágico da prisão de Lula?

Que se calcula para data que chegará mais rápido que se espera – 2022? Calcula-se para 2018 apenas; em mais quatro anos, muita gente que agora se imagina morta poderá estar em 2022 viva e “com saúde de vaca premiada”, como dizia Nelson Rodrigues. Dos jornalistas que leio, Helio Fernandes é o único que calcula com esta data em mente. Os demais percebem o horizonte até 2018, e percebem-no mal, contando com o imponderável.

Não só as massas que estão anestesiadas com as prisões, mas jornalistas também.
E quando jornalistas se embriagam com o material que produzem, tudo corre perigo.

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