“Notas”- 03/02/2017

Ainda sobre D.Marisa

Há leitores que se comunicam com o blogueiro; uns comentam, outros trocam emails. Há os que telefonam e os que nas conversas pessoais avaliam o que leram. Há sempre quem atribua ao texto mensagens que o texto em si não carrega e isto exige muita paciência, pois é cansativo explicar que meu texto não toma partido de qualquer dos lados da questão que ele porventura observa: há minhas reflexões apenas.

O leitor vem sendo deseducado por quem deveria educá-lo: a classe jornalística vem se comportando como redatores de fanzines, e o leitor não se eleva, portanto, acima da condição de torcida organizada ou caravana de programa de auditório.

Por exemplo: certo leitor me cobra sobre o que venho escrevendo sobre a agonia de D.Marisa Letícia. Não entende que minhas censuras aos palhaços de internet derivam de minha convicção de que não há neste evento qualquer fato político que justifique comemoração.

“Mas viu como receberam o Michel Temer no hospital? Eles também não tratam esta doença da mulher do Lula como mera doença.”

Justamente por isto o silêncio de quem não é aliado do casal e de seu partido é tão precioso. Porque eles – os simpatizantes e militantes- não tratam a doença como doença. Que eles tivessem o monopólio da brutalidade neste momento.

Há um circo que se montou em torno do leito de D.Marisa e este deveria ter sido deixado com seu público; que os blogueiros que adotaram o PT como tábua de salvação continuassem seu processo de desmoralização e se consolidassem como atração de um público cada vez mais restrito. Que aproveitassem a agonia de uma ex-primeira-dama para atacar a “Operação Lava-Jato” e o Juiz Sérgio Moro; deles é isto que se espera.

Mas quando este setor –cada vez mais caricatural- do jornalismo encontra companheiros na lama, este tipo de luta política ganha legitimidade. Preparou-se uma armadilha e a Direita de rede social caiu como cai sempre que oportunidades do tipo se apresentam. Nada aprendem, pois não julgam necessário aprender nada. Basta “estar do lado certo”.

O que aborrece não é o efeito prático imediato; não acredito na capitalização eleitoral desta morte pelo PT em 2018. Mas a certeza de que oponentes do PT não aprenderam a evitar escaramuças em terreno hostil.

Não há uma liderança intelectual do lado oposto ao PT que consiga conter acessos de burrice. Não há ainda a noção de que não se pode errar quem não domina qualquer setor da sociedade.

Hoje a mulher de Lula, amanhã talvez o próprio. A morte pode colher qualquer um, sobretudo personagens que já não são tão novos. Que dirão os maníacos das redes sociais? “Ganhamos”? Acreditarão que a cidadela foi enfim tomada? Que o pesadelo acabou?

Imaginem, que no lugar de Lula e/ou sua esposa, fosse algum líder da Direita (centro-direita também serve ao raciocínio), ou algum parente próximo. Esta morte hipotética seria vitória do PT? Haveria uma rendição natural ao oponente por este drama humano?

São exercícios que parece que não ocorrem aos que acompanham Política com o balde de pipoca no colo; os labirintos hipotéticos que mapeiam os labirintos reais. A Esquerda é apreciadora deste tipo de jogo mental; calculam com galáxias de hipóteses.

A imprensa que serve ao PT sabe lidar com oportunidades e ilude quem toma o que se publica ali como o repertório inteiro do que esquerdistas imaginam. Culpar a “Lava-Jato” pelo AVC de D.Marisa foi uma opção entre muitas. Com o auxílio de direitistas debilo-ides, foi a escolha natural. E culpar quem tem senso de oportunidade é loucura.

Agora o jeito é anotar a lição. Quem com ela aprendeu algo, claro. Quem assimilou o tombo como lição, e quem conseguiu perceber que foi um tombo. Não tenho esperança que tenham sido muitos os que perceberam que comemorar um AVC foi uma burrice que serviu ao lado adversário. Muitos ainda bolam memes.

Há 2017 quase inteiro pela frente; paciência e malícia são necessárias para que não o lamentemos como lamentamos 2016 – o ano em que tudo que prometia piorar, piorou. Que a Imprensa eduque o público que combate nas redes sociais. Perdeu-se esta batalha (debochar da dor de uma família é derrota pra quem combate o PT), mas a guerra pelas mentes indecisas ainda continua. Não caindo nas armadilhas da pressa e da emoção fácil, pode-se ainda triunfar.

Caso se consiga isolar os que levam a guerra no amadorismo suicida, é possível fixar nas mentes a distinção entre quem respeitou a dor de uma família (sem deixar que esta dor seja um escudo contra possíveis punições) e quem a desrespeitou utilizando-a como arma política.

Sem pieguice. Sem discurso moralista. Sem afetar solidariedade.

Sabendo esperar, pensando antes de escrever.

Pessoas calmas nos teclados podem ser letais.

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