“Notas”- 07/02/2017

Sobre “intervenções gráficas”

Lembro de texto que li em um mural da Faculdade de Letras da UFMG, louvando “Os Piores de Belô” – pichadores, “autores de intervenção no espaço público”. Minha memória aponta autoria de um Professor, mas pode ser que ela esteja sob o efeito da passagem do tempo.

Lembro também de editorial no “Jornal do Brasil” do começo da década de 1990 no qual pichadores eram qualificados como “débeis mentais” que se satisfaziam depredando bens públicos e propriedades privadas.

O texto do “JB” era muito mais bem escrito que o texto do (repito: se minha memória não me estiver tapeando) professor universitário.

Questões de estética apenas? Ou defesa apaixonada da cidade e do direito alheio de um lado e besteirol pseudo de outro?

As cidades tornaram-se horrorosas também por obra das tais “intervenções gráficas” e não vejo onde a população foi contemplada nisso. A poluição visual é uma agressão a mais ao trabalhador entregue aos ônibus lotados e caros, e perceber esta agressão não é, em absoluto, um elitismo. Elitista é quem acredita ter o direito de moldar as cidades às suas concepções estéticas e políticas.

Mas os conceitos estão esvaziados de seu significado no Brasil. Como temos imprensa dominada pela casta acadêmica (domínio estabelecido já na formação destes profissionais), a comunicação no Brasil é, desde cima, defeituosa. As palavras são o que seu emissor deseja que elas sejam, e azar dos não-iniciados. Os donos de jornais, revistas e TVs são cúmplices.

O que tem acontecido nas últimas décadas nas cidades é uma depredação, pois, consentida. E não exagera quem acrescenta: incentivada pelo Poder público e pela omissão da Imprensa formada por imbecis da Universidade.

Todo aplauso ao João Dória Jr, portanto.

Prefeito de uma das cidades mais vítimas desta destruição, resolveu enfrentar o problema -contra “intelectuais”, jornalistas, formadores da opinião pública da classe artística. Todos bem nascidos, falando nisso.

Dória é bem nascido, mas é o que americanos chamam de “fazedor”; o homem que trabalha com dados concretos e não com abstrações e conceitos mal construídos. Portanto se escandalizou com a feiura da cidade que coube a ele, pelo voto, administrar. E tem trabalhado para obstar este processo de depredação contínua.

Claro que ouve risos de superioridade intelectual dos que, também odiando pichações, não têm a coragem de chamar as coisas pelo nome. Este tipo de covarde, já escrevi no blog, é mais nocivo que os defensores abertos de monstruosidades; monstruosidades seriam abortadas sem a omissão dos que podem se fazer ouvir, penso.

Também é claro que Dória conta com oposição aberta dos que sempre defenderam essas pichações, e mesmo oferecem glamour aos pichadores. Lembro de documentário do “GloboNews” dedicado a estes “artistas”. Os leitores devem estar lembrados também.

Esta imprensa deslumbrada, que confunde grafiteiros talentosos com autores de garranchos, parece acreditar que nossas cidades serão tanto mais cosmopolitas e modernas quanto mais forem pichadas. Assim Av.Brasil, no Rio de Janeiro, parte do “Centrão” de São Paulo, e muitas ruas e avenidas de Belo Horizonte (para ficar só nestes três exemplos) seriam extensões de Nova Iorque e Berlim. E deste equívoco das mentes preguiçosas veio muito da tolerância, ou do elogio apaixonado, desta atividade criminosa.

Proponho aos advogados dessas pichações o seguinte: Entreguem seus carros, suas roupas e as paredes internas de suas casas aos autores das “intervenções” que tanto vos apaixonam. Podem também entregar seus corpos para tatuagens ao sabor dos “artistas”. Aliás, todas estas “intervenções” nos espaços privados destes apaixonados por pichações deveriam ter o mesmo tratamento que prédios públicos e privados das cidades: o “ativista gráfico” faria seu trabalho sem dar satisfação ou aceitar qualquer tentativa de tolher sua criatividade. Pois as paredes internas das casas, os carros, as roupas e os corpos seriam “espaço para intervenção”.

Aceitando esta proposta, os defensores das pichações e de seus autores dariam tocante demonstração de sinceridade na defesa do que consideram “um direito” e de quebra protestariam da forma mais efetiva possível – pois se oferecendo como exemplos vivos de “tolerância”e compromisso com “os que não se submetem aos coxinhas”.

Não aceitando, admitiriam que as coisas passaram dos limites, e que algo precisa ser feito.

Não se trata de elogiar Dória. Ou de “aderir”.

Quem ama suas cidades sabe que a defesa do espaço público e privado está acima de questões partidárias. É questão de defesa, apenas.

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