“Notas”-08/02/2017

Vinte anos sem Paulo Francis

“Fernando, o Paulo Francis morreu.”

Quem me deu a notícia foi amiga que me presenteara há algum tempo (talvez há um ano antes) com o livro “Trinta Anos Esta Noite”, seu segundo livro de memórias. Foi como me transmitisse a notícia da morte de um amigo, e reagi como tal, no instante mesmo da comunicação fiquei em choque, não triste. Lia-o então há mais de dez anos.

Navegando na internet, fui jogado a esta cena de vinte anos passados; não senti este intervalo em duas décadas, e digo que me surpreendi.

“Parece que foi ontem”. Parece mesmo.

Que diria Francis do Brasil de hoje? Que escreveria sobre a desmoralização do PT, seu personagem Lula discursando no velório da esposa?

A morte de seu interrogador Paulo Malhães (personagem nos dois livros de memórias, identificado como “Pablo Malhães”) que artigo memorialístico inspiraria? O depoimento de Malhães na “Comissão da Verdade” imagino que já inspiraria texto seu.

A vitória de Donald Trump despertaria quais fúrias (contra o que ele na certa consideraria “jequice”) e quais euforias (a derrota do “politicamente correto”, o Mal que ele combateu nos seus últimos anos) em Paulo Francis? Aposto que ele batucaria nas duas batidas, como sempre. E sempre coerente, ao contrário do que possa imaginar quem não o acompanhou.

Os oito anos de Barack Obama e os oito anteriores de George W.Bush não contaram com sua análise na imprensa brasileira, e foram duas presidências, portanto, que tiveram cobertura banal, com as simplificações que ajudaram a deformar, ainda mais, a opinião pública brasileira relativa aos assuntos internacionais. Foi um desperdício, em suma.

Como foram também outros tantos assuntos que desfilaram sem o analista mais afiado da Imprensa: comportamento, a explosão da internet, a degradação que parece sem limites do Ocidente. Imagino o que escreveria sobre as dezenas de milhares de homicídios e as explicações fornecidas sobre o fenômeno pela casta acadêmica, a qual desprezava.

Bob Dylan Nobel de Literatura? Jornalistas que o conheceram bem, como Sérgio Augusto, garantiram que Francis admirava – e muito – Bob Dylan. Seus textos sobre o escritor e compositor confirmam isto, e sei que perdemos grandes textos sobre este acontecimento. Textos que seriam uma humilhação aos que fizeram piada com a premiação. Francis decerto lembraria a enorme relevância de Dylan e o quanto alguns ganhadores são mediocridades laureadas por razões menores.

Os filmes de Martin Scorsese (outra de suas admirações) que ele não teve oportunidade de analisar também dão água na boca. Que escreveria sobre “Os Infiltrados”, por exemplo? Que texto clássico desses de recortar e guardar nos daria quando da homenagem a Scorsese na premiação do Oscar? “O Lobo de Wall Street”, hum?

Imagino o que diria do que acabou rendendo a carreira de romancista de Tom Wolfe, quais paralelos traçaria com a obra que prefaciou na edição brasileira (e que inspirou um de seus comentários clássicos no “Jornal da Globo”), “A Fogueira das Vaidades”.

Figuras como Beyoncé e Lady Gaga; já imaginaram o que renderiam de textos deliciosos de quem fez alguns dos melhores comentários sobre Madonna e Michael Jackson?

Os filmes de Quentin Tarantino, diretor que analisava com fúria e alguns elogios pontuais, feitos de 1997 para cá, sobretudo os dois “Kill Bill”.

E a eleição de Lula, a personagem Dilma Rousseff que teve a sorte de não ter Francis como sua testemunha jornalística…

Tudo mais pobre sem ele, esta é a verdade.

A capa da “Veja” quando de sua morte,  “Ele Vai fazer falta”, profética de doer; Mario Sergio Conti quando acerta…

Comecei a lê-lo aos quatorze, quinze anos; sua coletânea de textos para “O Pasquim” desfolhei (e colei, e tornei a colar) de tanto ler e carregar na mochila, “Paulo Francis Nu e Cru”. Deste volume da Ed.Codecri, devo muito do que me levou a Norman Mailer (apresentado ao autor de “Os Nus e Os Mortos” pelo texto dedicado ao seu livro sobre Marilyn Monroe) ao Edmund Wilson, ao Herbert Marcuse, ao espírito de Nova Iorque,etc, etc,etc.

Deste primeiro contacto (não conto suas aparições no “Jornal da Globo”, divertidas, mas que não transmitiam porção mínima de seu talento), passei a ler sua coluna na “Folha de S.Paulo” e depois n”O Estado de S.Paulo”, seus romances, “Cabeça de Papel”e “Cabeça de Negro” e as memórias “O Afeto que se Encerra” e “Trinta anos esta Noite”. As coletâneas de ensaios, “Opinião Pessoal” e “Certezas da Dúvida” li após sua morte.

Li e reli todos os livros citados. Muitas vezes. Tenho dos que citei, todos, com exceção de “Opinião Pessoal”. Outra coletânea de escritos seus, “Waal – Dicionário da Corte” também li, sem reler (só por não a ter em casa, claro).

Por que enumero estes volumes, declarando até os que não reli? Para que leitores saibam o que este marco de vinte anos significa para mim; evitei e tenho evitado me demorar nas leituras dos textos da efeméride. Para não me aborrecer com imprecisões, para não me lamentar. Francis é insubstituível, como Nelson Rodrigues, como alguns outros gigantes.

Na noite de sua morte, lendo os depoimentos de amigos do jornalista, na biblioteca de uma escola particular onde então trabalhava, levantei e fui ao banheiro chorar.

Perdi naquele dia um Mestre, um amigo. Que nunca ouviu – e nem ouviria – falar de mim.

Esta noite fez, neste Fevereiro quente, vinte anos.

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