“Notas”-09/02/2017

“E é apenas Fevereiro.”

Um estado da região Sudeste tem, em dois dias de greve da Polícia Militar, mais de sessenta homicídios. Saques são filmados e exibidos (para o Mundo, é bom lembrar) no “YouTube”. Todas as explicações para o pesadelo capixaba também superlotam a internet.

No Brasil as coisas marcham neste ritmo: há presídios servindo de locação para filmes de horror (decapitações, corações expostos como troféus, etc) e convocam – as redes de TV, tanto as abertas como as por assinatura – os explicadores de tragédias. Outros presídios sevem como palco de matanças – estas para vingar as mortes do presídio anterior- e de novo, eles, os explicadores de tragédias.

Não quero assistir ao mais recente tour de professores universitários no “GloboNews”; qualquer piada perde a graça depois de certo número de repetições. E são piadas os argumentos, as explicações para: assaltos seguidos de morte, estupros, arrombamentos de casas e estabelecimento comerciais, assassinato de policias em serviço e todo o repertório apresentado por “jovens em situação de risco social”. Piadas com algo sério: o sentimento de segurança mínimo para se tocar a vida. A maioria das vítimas da violência é composta de gente muito pobre, com vida difícil o bastante mesmo sem a violência. O que se permite cometer contra essa maioria de brasileiros da base da pirâmide é algo que deveria servir de base para o julgamento das autoridades, pelo crime de omissão.

Este pesadelo que vitima a população do Espírito Santo é, como todos os crimes dos anos recentes, sobra de crises anteriores. Que foram empurradas com a barriga, com o auxílio da passagem do tempo. Os salários ofensivos para policiais e discussões realistas sobre possíveis greves destes policiais são ambas questões que, a cada greve da polícia, sofrem novos adiamentos. Não se aproveitam as oportunidades de crises para enfrentar tabus. “Não se discute essas coisas com a cabeça quente, sob emoção”, disse Lula (citação não textual, sim?) quando o menino João Hélio foi arrastado pelo cinto de segurança em um assalto, lembram?

E assim será com esta greve e suas consequências diretas: “resolverão” a greve e tudo voltará ao ponto que, por inércia, gerará novas ondas de insatisfação, novas greves, novos saques, novos homicídios às dezenas, etc.

Quem responderá por estas dezenas de homicídios? Quem compensará os comerciantes e donos de carros roubados?
Quem responderá pelo mal estar que desmoraliza a noção mesma de Estado?

O governador alega – e talvez com razão-  que os cofres do Espírito Santo não permitem pagamentos mais próximos do suficiente aos policiais e o Governo Federal também poderá alegar o mesmo: recebeu o Brasil em condição lastimável.

Mas o Poder tem suas cotas de aborrecimento: quem ocupa cargos de Governador ou de Presidente está obrigado a lidar com situações difíceis que exigem criatividade e paciência para negociar. O Poder é exigente; para cada gozo de suas prerrogativas, mil escolhas a fazer. E a segurança pública é um setor que obriga a enfrentar grupos de pressão mais que qualquer outro; a Direita não admite discutir penas alternativas à prisão, a Esquerda deseja criminalizar qualquer impulso de reprimir criminosos…

A Imprensa ecoa o lado mais organizado: o que fornece profissionais formados, com a ideologia da fábrica: a Esquerda, claro. A Direita em suas vozes na Imprensa, atrapalha com suas simplificações grosseiras, primárias. E os governantes buscam driblar confrontos.

Como não driblariam estes confrontos sendo a classe política o que é? Com classe política formada sob circunstâncias acidentais, os setores organizados da sociedade têm o trabalho de manejar os cordões, apenas. Houvesse nos partidos institutos de formação e discussão dos problemas, governantes estariam habilitados a suportar pressões e cumprir seus programas. As eleições seriam mais que recitais de promessas e os eleitos não se surpreenderiam com explosões em setores vitais. Não haveria improviso e a corrida desesperada por atenuantes.

O efeito labareda ameaça outros estados e não só na Polícia Militar; policiais civis também ameaçam interromper o trabalho cumprido sob condições cada vez mais precárias. Que propõe de concreto o Governo Michel Temer? Esperará um ano da posse para encaminhar conjunto de medidas ao Congresso?

Sei que é injusto cobrar como cobram do Temer neste assunto. O Governo anterior também não propôs nada de concreto, nem o anterior, nem o anterior, nem o anterior…

Mas em todos Michel Temer pôde se fazer ouvir como político influente? Sim, seu emprego há coisa de meses era o de Vice-Presidente. Bom, neste caso, meus caros, culpe-se muito mais gente, não? A classe política inteira, há décadas, faz que não é com ela quando estas explosões de violência lembram que as leis são obsoletas e que o sistema carcerário no Brasil uma tragédia. Isto leva a concluir que o jogo de “Culpa-Culpa” não livra a cara de ninguém nem resolve qualquer problema.

O Brasil sangra, o Brasil arde, e é apenas Fevereiro.

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