“Notas”- 14/02/2017

Sobre o “Caso Marcela Temer”

Quem não está cansado de ler palavras como “Censura”, “Fascismo”e frases pomposas sobre o “Caso Marcela Temer”? Eu estou.

O episódio confirma o julgamento severo sobre os dias que atravessamos: banalidades convertidas em “fatos políticos” pelos dedos incansáveis da internet.

Não considero o ato em si uma ameaça à liberdade de expressão e sim uma demonstração do despreparo de Michel Temer e seu grupo para a função que exerce. Os jornais conquistam na Justiça suas reparações pelo que consideram cerceamento de suas liberdades, mas um político não se recupera de uma gafe.

Temer parece ignorar a máxima sobre a necessidade imperiosa da aparência de honorabilidade da mulher de César; políticos em posição de destaque perdem o direito à inviolabilidade de suas intimidades. Eu por dinheiro algum aceitaria cargo na Política por isto. Continuasse como Vice-Presidente, sobretudo um “vice ornamental” como se queixou na carta célebre, a tentativa de extorsão sofrida pro sua esposa seria assunto privado; como Presidente já não tem o mesmo direito. Tudo tem seu preço e o Poder apresenta este.

Foi um caso de mau assessoramento, em suma.

O que não me surpreendeu foi o espetáculo de hipocrisia das redes sociais.

O que li de twitteiro se queixando da “Censura” com todos os pontos de exclamação me fez lembrar do recital de queixas das mesmas redes sociais quando televisões exibiram os áudios de Dilma Rousseff e Lula tratando de assuntos, estes sim, públicos. Não li muitos defensores apaixonados da liberdade de imprensa naqueles dias.

A Política exige de seus profissionais e de seus circunstantes muita discrição, total se possível.

Lembro da entrevista do Ulysses Guimarães ao Fernando Morais (“Status”, do ano de 1978) recomendando aos políticos comedimento nas palavras. Desabafos de ordem pessoal poderiam se converter em armas quando amizade que se imaginava sólida se mostrava convivência passageira apenas e os interlocutores estivessem adversários.

Ulysses era da “velha escola”; políticos de outros tempos eram austeros e procuravam manter suas famílias na esfera privada o mais possível. Hoje muita coisa mudou, mas como compensação apareceram problemas como hackers e paparazzi. E a necessidade de defender as famílias exige também toda uma série de providências efetivas. O recurso à censura me parece desastrado, pois uma conversa com os donos dos órgãos de comunicação sempre teve muito resultado com políticos de outros tempos.

Fosse eu diretor de redação de algum jornal ou revista só daria matéria sobre o hacker com tudo esclarecido, e com muito cuidado com possíveis distorções do material. Sempre é possível editar de maneira não-sensacionalista um assunto de natureza privada de algum político ou artista.

Quem com alguma idade nunca leu sobre os cuidados que foram tomados quando do suicídio do Pedro Nava? Ali foi um caso em que a sordidez das circunstâncias não foram divulgadas; quem ganharia com aquilo? Qual a utilidade de amplificar dramas pessoais? O episódio da fartura do cartão de crédito do porta-voz do Presidente Fernando Collor, Cláudio Humberto, foi outro caso em que um diretor de redação habilidoso trocou a publicação da matéria por uma possibilidade de convívio com uma provável fonte jornalística. O que se provou afinal com a divulgação dos gastos com cartão do porta-voz? Por outro lado, o que perdeu “Veja” com a escolha do Mario Sergio Conti? São maneiras de lidar com assuntos problemáticos.

Todo o problema teria sido melhor cuidado se Temer houvesse tomado a atitude de tratar com a Imprensa como uma vítima de uma chantagem, não como um Presidente desrespeitado; a responsabilidade deste gesto em diante seria da Imprensa. Aconselharam mal, e a Imprensa que acha que deve calar patrulhas perturbando Temer mesmo por motivos menores teve seu banquete.

Não há mais que isto, ao meu ver. Um episódio policial convertido em questão política por incompetência e oportunismo. Quando o Governo Temer for capítulo de livro didático de História, o “Caso Marcela Temer” não entrará nem como nota de rodapé (uma expressão batida, em homenagem aos clichês destes dias).

A tentativa de extorsão a uma Primeira-Dama é assunto grave, e é sem dúvida um erro fingir que é assunto de natureza privada em termos absolutos, mas não é o mais grave problema do Brasil. Foi mal enfrentado por lado e outro, apenas.

Há um País para tirar dos escombros, caso muitos senhores -do Poder institucional e da formação de opiniões- não se lembrem.

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