“Notas”- 04/03/2017

“Os incomodados que procurem outro lugar…”

O bebedor solitário descobre (ou foi a ele recomendado) bar de freguesia larga e ruidosa. Hesita em aderir ao status de frequentador assíduo, mas “todos vão lá, todos estão lá”.

Acaba cedendo e se habituando a passar suas noites (e tardes de folga) no estabelecimento de cerveja gelada e onde a música embala devaneios e recordações do que poderia ter se tornado na vida fosse mais disciplinado, esperto, acordado…

Um destes períodos de perambulação mental foi certa vez interrompido por um membro de uma mesa formada por outras mesas (não raro mesa que abrigava jovens com instrumentos musicais) que se dirigiu à mesa onde estava e puxou dela uma cadeira sem dizer um “oi”, demonstrando que formular a pergunta “Posso?” não era hipótese que lhe ocorrera.

Depois deste lembrete de que aquele ali não era seu lugar (o jovem que puxara cadeira de sua mesa era frequentador mais antigo que ele (descobrira, ou notara), outros tantos vieram: o anúncio ríspido da antecipação do fechamento do bar; mesas empilhadas junto a si com estrondo; o copo trincado sendo substituído com indisfarçada má vontade; encontrões desrespeitosos à porta do sanitário…

Mas ele se apegara ao boteco, embora se queixasse com amigos do tratamento dispensado; ponderações sobre a antiguidade da freguesia melhor recepcionada e o fato dele ser de outra parte da cidade não pareciam convencê-lo de que a ele restavam, com respeito ao bar de adoção, apenas duas possibilidades:

1- Desertar de sua freguesia e explicar aos amigos o motivo da renúncia ao refúgio boêmio (contribuindo para que outras vítimas não fossem seduzidas pelo ambiente para depois serem desrespeitadas )

2- Passar a comparecer ao botequim apenas com comitiva, tornando-se assim freguês de outra categoria; mercadoria valiosa ao dono do comércio de bebidas e comidinhas.

O personagem de nossa história não fez uma coisa nem outra, sem deixar de se queixar aos amigos dos esbarrões, da garrafa não de todo gelada, do cumprimento não respondido, das cadeiras puxadas de sua mesa sem cerimônia…

Assim agem os conservadores no Facebook:

Sofrem suspensões periódicas, notam que seus “likes” para autores tidos como reacionários (queixa frequente de seguidores de Olavo de Carvalho) são subtraídos, têm que tolerar comentários agressivos de toda sorte de adversários políticos;  caso respondam com alguma veemência, têm a página denunciada, etc. Queixam-se, esbravejam, e protestam contra a política da rede social. Mas não eliminam suas contas.

Esquecem ou ignoram que o Facebook não é instituição pública e sua democracia é a democracia de uma instituição privada; quem não se adapta à “cultura” da Casa …

Citei Olavo de Carvalho. Ele já sofreu diversas suspensões, enquanto páginas com linguagem ofensiva aos adversários seguem incólumes. Parece que Olavo fundaria outra rede social, não sei se a iniciativa prosperou. Ele não precisa do Facebook . Numa de suas suspensões (por volta do anúncio da criação de um espaço seu), escrevi no blog sobre o que considerava o indicado para perseguidos como Olavo. Desertar com seguidores de forma a emitir recado impossível de se ignorar. Foi o texto postado no dia 11/07/2015. Olavo sofrera ali duas suspensões próximas uma da outra. O texto diz:

“Mas por quê se sujeitar a isto quem conta com mais de cem mil seguidores, dezenas de milhares de leitores e, portanto, público cativo que o acompanharia em um blog?”

O que muitos direitistas não entendem é que o Facebook é absorvente, mas com regras definidas de acordo com o gosto de seus fundadores e controladores. Os incomodados que procurem outro lugar; o universo de regras da rede social não mudará para atender novos membros. Mark Zuckerberg tem sua maneira de ver o Mundo e toca sua rede de acordo com ela. Zuckerberg já tinha milhões em sua conta bancária antes do primeiro conservador aderir à sua comunidade virtual. Não mudaria para atender aos que decerto considera como intrusos.

Por que estes conservadores não criam blogs onde possam criar fóruns de discussão, abandonando de forma ordenada (ou seja, em massa) o Facebook e só retornado à rede quando forem considerados público a se respeitar (e temer) por organizados e decididos a renunciar ao que o “Face” oferece? Havendo regras e organização mínima, estes espaços sobreviverão aos intrusos. E que o Facebook seja então devolvido aos seus donos, livres enfim de freguesia incômoda.

A dignidade e a respeitabilidade vivem destes embates; tem que se ter a coragem de admitir que se é minoria mal vista em determinado meio, e que não adianta estrelar números de sapateado; o negócio é sair sem olhar para trás.

Há vida fora do Facebook; saí da rede e não morri por isto.

Mas como explicar que sem organização coletiva mínima estas deserções não terão sentido maior? Como ensinar aos individualistas que, sem engrossar certas fileiras, serão esmagados pelo coletivo adversário sem contemplações de ordem metafísica?

Que leitores pensem nisso e abandonem ambientes que desejam vê-los de saída.

Não sejam como personagem do início deste texto, prisioneiro do hábito mais que do boteco.

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