“Notas”- 07/03/2017

Sobre vítimas “não voltarem”

 

“Prisão perpétua não ia trazer a vítima de volta”.

Mesmo que o goleiro Bruno não seja o responsável pela morte de Eliza Samudio, a frase dita logo após sua libertação soa cruel para com os familiares e amigos da moça cujo corpo até hoje não foi encontrado -e que é mãe de um filho do jogador.

Compreensível a indignação que se seguiu a esta entrevista, e penso que mesmo que o possível assassinato da modelo não tenha sido encomendado por Bruno, o que é de sua responsabilidade no episódio teria peso maior em  outros países; sequestro e cárcere privado da mãe de um filho precedido de outras pressões é algo em si grave.

O que penso sobre o caso do goleiro Bruno está disponível no blog; considerações dos coestaduanos de Bruno (e meus) sobre a vida pregressa da vítima, também. Este assunto enoja mesmo estômagos de aço e é (mais um) exemplo do que precisa ser mudado no Brasil.

Mas esta frase…esta constatação da impossibilidade de uma vítima voltar a despeito das penas….

Quem nunca ouviu esta frase em programas “respeitáveis”, da boca de “especialistas em causas da violência”? Âncoras de canais por assinaturas ouvem e concordam. Não me recordo de ouvir um “ai”!

As famílias e amigos de vítimas são insultados por este padrão de abordagem de suas tragédias sempre que a ocasião o permite e não parece haver a mínima disposição de se apresentar alguma discordância; estes doutores, ao contrário, são tomados como portadores de verdades indiscutíveis, por biológicas.

Lembro que se lançou documentário com depoimentos de familiares de vítimas da violência. Li sobre este filme em algum site ou blog conservador, e nunca mais. Não soube de premiação ou candidatura à premiação desta obra. Se houve alguma, me desculpo já aos leitores. Pelo que me lembro, o documentário tratava da invisibilidade destas pessoas; vozes de familiares de vítimas não são levadas em conta, seus sofrimentos são pormenores indignos de atenção, em suma. Que chorem, que sofram – longe das vistas dos “formadores de opinião”, sim?

Quando se assiste no “YouTube” depoimentos de quem deixou o Brasil rumo aos países do Primeiro Mundo, o que mais se ouve é, empatado com a possibilidade de melhora da situação econômica, a preocupação com a violência como a causa maior da mudança de país. As pessoas passam por tudo que for preciso para não mais ter que lidar com o pavor de algo acontecer a elas e aos familiares; recordações de episódios traumatizantes também são encontradiços nestes testemunhos da diáspora dos brasileiros.

Os números não impressionam mais, esta é a verdade. Repetimos as contagens oficiais de dezenas de milhares de homicídios anuais, sem as sentir. Afirmo sem medo de errar que estamos dessensibilizados, pois é o que a situação mostra. Estivéssemos mesmo chocados com isto, boicotaríamos canais de TV  que convidam professores universitários para repetir suas bobagens em todo episódio de violência, e no Brasil estes são quase diários. Estivessem os brasileiros revoltados, chocados com os números da matança, ligas eleitorais já estariam sendo organizadas por internet, e o boicote às TVs que ouvem “explicadores de tragédias” seria acompanhado por boicotes aos jornais e revistas que repetem os argumentos dos referidos professores doutores especialistas em causas da violência.

Nada se faz de concreto, espera-se que algum governo protagonizado por algum herói mude as leis sem que se precise agir o mínimo por conta própria no sentido de se exteriorizar revolta com este açougue de carne humana que é a vida no Brasil.

A frase “Justiça é uma coisa; vingança, outra”,  irmã gêmea da frase do goleiro Bruno é declamada sem que se proteste, sem que assinantes de TVs a cabo liguem em massa para os programas e berrem um “Basta!” Não se demonstra ofensa com uma frase que declara desprezo pelo sentimento legítimo de retaliação contra bandidos que matam como que cuspindo na rua. O sentimento de revolta é proibido aos que têm todas os motivos para se revoltar; às vítimas se recomenda confiar na evolução histórica.

“Penas duras não resolvem nada, não devolverão as vítimas”.

Quando a frase acima é repetida como mantra por adversários da ideia de se abolir critério etário para punição de crimes hediondos, não há espanto. Quando saída da boca de um acusado célebre, descobre-se o que a frase contém de escárnio.

Que esta percepção do escândalo perdure nas mentes da população quando da escolha de órgãos de comunicação, colunistas e políticos.

Ou que se engula a frase, por merecimento.

 

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