“Notas”-08/03/2017

Fernando Gabeira no “Roda Viva”

“Andarilhos estão pelas estradas…é preciso ter olhos para os ver”.

A frase, dita por Fernando Gabeira, no último “Roda Viva”, sobre seu programa no “GloboNews” (escrevi no blog sobre o programa) pode ser dita sobre Gabeira no seu trabalho jornalístico e nesta entrevista. “Olhos para ver” e não óculos de ver o Mundo, eis o que se precisa. Os óculos da ideologia aceita como a única possível cobrem os olhos da maioria.

Como observou um comentarista no “YouTube”, não se sente o tempo passar nesta entrevista; Gabeira responde sem titubeios e sem medo de afrontar convenções ditadas pela casta acadêmica e pela classe jornalística, ambas colonizadas, sobre violência urbana (e os direitos humanos), racismo, política brasileira e internacional.

Afirmou estar mais interessado na observação (e na busca realista de caminhos) que em sonhos que se revelam, muitas vezes, negações dos ideais de justiça social e progresso.

Talvez seja a volta (de maneira mais orgânica) ao ofício de jornalista; os “olhos para ver” tendo a primazia na mente do intelectual. Seu programa no “GloboNews” é exercício de verificação do que avançou, do que regrediu e do que está como sempre esteve na realidade brasileira. E este ato de investigação parece ter ensinado ao Gabeira que a verdadeira Política está neste olhar com olhos nus o Mundo à volta.

E o desinteresse pela política institucional talvez seja resultado deste exercício de tomar as coisas pelo que elas são: conviveu com políticos, participou de campanhas, experimentou o gosto da derrota nas eleições majoritárias das quais participou. Perdeu para Sérgio Cabral, este apoiado na ocasião por intelectuais e contando com a boa fé da população iludida por melhoras aparentes no estado.

Claro que entrevista tão proveitosa tenha tido seus momentos de jornalismo menor; alguns jornalistas parecem mais interessados em beliscar pedaços de contradições e emparedar o entrevistado que perguntar com o interesse de um recém-apresentado ao tema.

Mencionou-se documentário no qual participantes do sequestro de Charles Elbrick minimizaram a participação de Fernando Gabeira no acontecimento. Gabeira negou discutir sobre documentário que não assistira e respondeu perguntas pontuais sobre o episódio; o livro “O Que É Isso, Companheiro?” se encarrega de esclarecer o que o entrevistador perguntara-lhe. Lembro que este documentário foi lançado quando do rompimento de Gabeira com o PT. O que mais se precisa dizer sobre a obra?

E algumas outras perguntas vieram no mesmo tom de quem percebe um mentiroso se esquivando. Gabeira foi firme, firmeza que prescinde de alterações na voz, firmeza que se mostra nas respostas objetivas, sem subterfúgios e tentativas de justificação.

Deve ser duro para um jornalista experimentado ter que explicar a um jovem colega de ofício a diferença do episódio de Moreira Franco ministeriável em fase inicial de investigação na Lava-Jato com o Lula ministeriável cercado de cuidados para não ser preso antes de ser investido no cargo de Ministro. Gabeira lembrou o “Bessias” com o termo de posse. Não é possível que um profissional pago para relatar fatos não saiba dimensionar os fatos, nivelando-os na lógica fácil do “Por que com Lula se foi mais rigoroso?”

Isto –esta dolorosa aula a um profissional- sem perder o sorriso, a lucidez, o fio do raciocínio.

Gabeira explicou sua opinião sobre policiais mortos em combate com bandidos; a sociedade é devedora dos homens que tombaram em sua defesa. Os direitos humanos sofrem a distorção da seletividade, e policiais honestos e moradores de áreas controladas por traficantes ou milicianos são pouco contemplados por política de direitos humanos que é talhada para atender apenas aos que são ofendidos pelo Estado. “É preciso discutir, não fingir que este problema não existe”. Cito de memória, mas o espírito da fala de Gabeira é este: há um problema que exige exame sem discursos pré-fabricados e que também exige a participação de todos, não de “donos” do tema.

Esta mesma visão lúcida abrange a política internacional: o globalismo não entregou o que prometeu e as pessoas buscam ter de volta o sentido nacional e a vida que, idealizadas ou não, causam saudades. Este o espírito do “Brexit” na Inglaterra, este o espírito da vitória de Donald Trump. Não se trata de julgar estes eleitores “caretas” ou direitistas, mas o de entender suas motivações, respeitar sentimentos e não reduzi-los com categorizações ligeiras.

Mais uma vez Gabeira explicita sua postura diante das coisas: entender, não julgar. Ver com “olhos de ver”, os óculos da ideologia postos, ainda que por um tempo, de lado.

Não sei se todos entenderam o que era aquela entrevista. Eu a tomei por aula dada por um jornalista (da “Velha Escola” do “Jornal do Brasil”) e personagem histórico. Augusto Nunes, com olhos brilhando por este primeiro encontro dos dois no “Roda Viva”, deve ter pensado o mesmo que eu. Recomendo com entusiasmo esta entrevista, talvez sua melhor participação no programa, digna das outras duas (clássicas, disponíveis no “YouTube”) que assisti.

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