“Notas”- 10/03/2017

Sobre Guilherme Boulos e a “Folha de S.Paulo”

Hoje pela manhã, lendo a “Folha de S.Paulo” online, li a chamada: “Guilherme Boulos:Última Coluna”. Fui ver do que se tratava.

Serei honesto: nunca li um único texto de sua coluna. Talvez por prevenção contra sua figura, talvez por conhecer o seu discurso e não acreditar que a coluna me trouxesse novidades.

Mas li esta sua colaboração derradeira, e não me surpreendi um nada que fosse: alusões a supostas pressões de anunciantes, as críticas aos leitores conservadores, aos intolerantes com movimentos sociais, etc, etc,etc.

Está no seu direito de esbravejar. Mas pergunto: foram as pressões de anunciantes e leitores conservadores que determinaram a saída de Eliane Cantanhêde do jornal?

Como disse no início do texto, nunca li um só de seus textos, e não posso, portanto, dizer se eram colaborações que acrescentavam componentes ao debate político no Brasil. A “Folha” desde fins dos anos ’70 e início dos anos ’80, tem procurado atrair para suas fileiras autores de perfis os mais díspares para fermentar a massa de polêmica no jornalismo brasileiro.

Foi assim que o jornal contratou nomes mal vistos pela Ditadura e jornalistas tidos como de Direita. E também foi assim que o jornal assumiu a liderança e se tornou leitura obrigatória para quem quisesse se manter informado sobre as batalhas conceituais no País.

O leitor típico da “Folha” sempre entendeu isso, e não desertou ao longo dos anos em função da contratação de X ou Y. Desde que ele acrescentasse dados, desde que sua coluna fosse interessante, desde que não se menosprezasse inteligências na prática de proselitismo baixo.

É um leitor exigente, e que deveria servir de estímulo aos que colaboram no jornal. Ser aceito por um leitor acostumado a leque de polemistas é, no meu entendimento, uma medalha de ouro, um reconhecimento superior ao reconhecimento obtido de leitores simplistas e acostumados ao nivelamento por baixo.

Mas há os que escreveram no jornal como certos atores trabalham na TV Globo: como uma concessão nojenta na luta pela sobrevivência, maldizendo cada instante passado na empresa, sem recusar o salário e a visibilidade, claro.

Guilherme Boulos parecia fazer parte deste grupo de colaboradores envergonhados da “Folha”.

Como sei, se não o lia?
Não me lembro de vê-lo protestar contra a simplificação que categoriza empresas jornalísticas como “Mídia Golpista”. Ele era, para muitos de seus simpatizantes, um momento de limpeza na imundície do jornalismo corporativo. Um inimigo tolerado “pelos poderosos’’.

O líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) tem o direito (e o dever moral) de exercitar sua militância, mas considero postiço ele ser retratado como o rebelde que combate no jornalismo corporativo. Por que não renunciou à coluna no jornal golpista? Por que esperou ser demitido? Qual era o retorno dos leitores à sua coluna?

Não tenho resposta para qualquer das três perguntas.

Lembro que Paulo Francis foi acusado, pouco antes de trocar a “Folha” por “O Estado de S.Paulo”, pelo então ombudsman Caio Túlio Costa, de criticar o jornal nos escritos para o jornal. Lembro do que li no “Notícias do Planalto” que a demissão do veterano colunista político Newton Rodrigues deu-se pelo fato do jornalista ter almoçado com o então Presidente Fernando Collor quando este processava o jornal.

Uma coisa é tolerar críticas e divergências com a linha editorial, outra tolerar inimigos dentro da empresa. Francis criticava o que lhe parecia excessivo ou tolo, Newton Rodrigues foi visto como um traidor. Talvez por isto, Francis tenha tomado a iniciativa de deixar o jornal, não tendo sido demitido. Este é um direito que penso ser legítimo de uma empresa.

Não sou contrário a toda invasão, há invasões defensáveis, e concordo com a crítica dos movimentos por moradia às políticas habitacionais que determinam que certos lugares não são para pessoas de baixa renda. E considero mesmo algumas ocupações menos daninhas aos centros das cidades que prédios abandonados, ou em nível de degradação extrema, como os antigos S.Vito e Mercúrio, em São Paulo. A “Ocupação Prestes Maia” me parecia mais digna que a vida nestes dois edifícios, hoje demolidos.

Caso Boulos defendesse políticas habitacionais em seus artigos para “Folha”, o jornal perdeu (e muito) com a decisão de demitir o colunista. Se o espaço era utilizado para militância pró-PT apenas, o jornal demorou em demiti-lo. Ou errou em contratá-lo.

Volto a repetir: não sei, não lia a coluna.

A imprensa “progressista” não demorará a receber o herói de braços abertos. Há uma multidão de revistas e jornais prontos a receber o militante escorraçado pelos reacionários da “Folha”. Depoimentos caudalosos sobre os dias em que militou no meio dos “coxinhas” serão saudados como obras-primas do memorialismo.

Como escrevi no blog, Boulos é a grande aposta no futuro da Esquerda, ou o que chamo de “Pós-PT”; é o que Lula foi para o PT, um símbolo, uma síntese.

Lula, o operário do Nordeste, Boulos, o bem nascido que nega sua classe e toma  por sua classe a classe política, agindo por mudanças. Mudanças que, repito, não são ilegítimas por si.

A “Folha”, dando-lhe uma coluna, e depois tirando-a, contribuiu, e muito, para sua lenda.

O Futuro que me confirme, ou quebro a bola de cristal.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s