“Notas”- 15/03/2017

“Mais um show de Lula”

Lula não perderia oportunidade de, contando com tolerância das autoridades, fazer de seu depoimento um comício. Não faltou nem mesmo menção à falecida esposa, invocada em tom de quem invoca uma mártir- da “Lava-Jato”.

Em cada resposta, um recital de elogios ao seu governo, ao país enfim conduzido à boca de cena do palco do Mundo. Os “milhões tirados da pobreza”, enfrentando o “ódio dos que não se conformam com os pobres colocando dentadura.” As multidões comprando, lotando shoppings, viajando de avião. O repertório básico de Lula, enfim.

Pois este depoimento, neste processo em Brasília, foi isto: mais um show de Lula.

Ele encena o elogio a si com a entrega filha da convicção; a máquina de propaganda mantida por seu governo tem nele próprio, um crente, um fiel.

Ele acredita na potência mundial que sua imprensa eletrônica criou para consumo de milhões de leitores nada críticos.

Quem não acredita, falando nisso?

Vá a um posto de saúde sem médicos, a uma prisão superlotada e palco de decapitações, a uma fila de desempregados e encontrará ali multidões que acreditam que seus males nada têm de resultado de demagogias; a crise mundial, alguns erros de Dilma Rousseff e “os coxinhas que não gostam de pobre”são os culpados.

“Até na época do Lula tudo ia bem prá gente”.

A imprensa tem sua responsabilidade nesta impressão que muitos brasileiros têm da história recente. Mensalões e Petrolões dizem pouco aos que assistem a História de baixo.

Críticos do período petista preferiram concentrar o fogo nas denúncias de corrupção, e os colunistas que ironizavam a “nova classe média” morrendo em macas nos corredores de hospitais e em celas lotadas (Augusto Nunes tem o mérito de ter atacado o que havia de verdadeiro sob a propaganda do “Brasil- Um País de Todos”) não tiveram colaboração de capas de revistas. Afinal, por que perder tempo mostrando à massa o estelionato se os estelionatários estavam para cair na semana seguinte, com o estouro do próximo escândalo?

A “narrativa” da elevação de “uma Colômbia e uma Argentina somadas tiradas da miséria” cristalizou-se nas mentes, e Lula não ficou imune. Ele parece ser o mais apaixonado admirador de seu período presidencial. Não acredito que ele se sinta um espertalhão em exercício quando chora. Lula se compenetrou de que é um homem que paga o preço por ter feito governo para a maioria. E assim se portará sempre, diante de qualquer juiz.

Lula joga também com seu carisma, com sua agilidade mental, mãe de frases espirituosas. Sabe que muito do que ameaça sua liberdade e futuro político é fruto de delações,e para um homem experiente, jogar o “minha palavra contra a dele” é algo nem de longe atemorizador.

Lula sabe, ou parece saber, que se o pior acontecer, este pior não será o fim do Mundo. Seu partido tem militância, os de seus adversários, não. Ele próprio tem apoiadores entre gente que é levada em conta, seus adversários, não. O que, por inércia, faz tudo refluir para si, de forma ou outra. Sabe, ou parece saber, que seu retrato como mártir, pintado a óleo, já está pronto para a História. Seus adversários, não possuem simbolismo para um pôster de pop art.

O que me leva a perguntar:

Por que propiciar palco a um ator convincente e calejado? Por que não esperar que algo, de fato, capaz de abalar o chão do teatro esteja preparado antes de convocá-lo aos holofotes?

Lula, não se enganem, saiu mais forte que entrou daquela sala.

Pode ser que eu esteja errado, pode ser que saia alguma condenação, mas a um político, sobretudo ex-Presidente, uma condenação sob acusação que parece vaga acaba virando medalha. Tem-se a impressão que utilizaram um míssil para caçar passarinho.

E aposto que poucos da Imprensa tiveram deste episódio lição sobre o perigo de se jogar todas as esperanças políticas nesta via judicial. É a mais frágil do ponto de vista histórico – político.

Lula mostrou que conta com todas as possibilidades, inclusive a de ser preso.

Parece imaginar-se imortal, e a um imortal, que diferença faz um período de cadeia, se este for intervalo depois do qual o Poder voltará muito maior que antes?

Afinal, o palco sempre estará destinado a um grande ator.

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