“Notas” – 16/03/2017

Reforma da Previdência – Um Pretexto

Uma reforma da Previdência proposta à população pouco informada sobre o alegado déficit e sem discussão sobre o quanto poderosos estariam dispostos a ceder não me parece defensável. Não me pareceu defensável quando de autoria de Dilma Rousseff no início de 2016 e não me parece agora com Michel Temer.

O trabalhador brasileiro é confrontado com a conta de um banquete do qual pegou -quando pegou- as migalhas apenas. O que assusta nos números do Governo são gastos e desperdícios estranhos à maioria.

Protestar contra esta faca no pescoço é legítimo.

 

Escrito isto, lembro que Dilma Rousseff quando iniciou seu último ano de governo anunciando necessidade de reforma da Previdência, com aumento da idade para aposentadoria, as centrais sindicais murmuraram desaprovação, enquanto populares nas ruas se queixavam, ainda que sem entender o cálculo.

A discussão não durou muito então, pois começava ali a batalha do impeachment. E aquela efervescência abafou murmúrios das centrais sindicais e as queixas dos populares.

E o novo governo retomou a proposta, agora sob o grito dos movimentos organizados que se levantam contra a “Reforma do golpista Michel Temer”.

A luta política é assim, sempre foi assim e ao que tudo indica, sempre será assim; qualquer pretexto é pretexto aos que estão dispostos – e por que não dizer?- obrigados ao combate.

O Poder não se conquista e se mantém apenas por argumentos lógicos. Os mais dispostos ao combate permanente tendem à vitória, e julgo isto merecido.

Mas, e a Imprensa não- alinhada ao PT? Tem cumprido seu papel de informar e esclarecer as massas? A memória popular tem sido trabalhada?

Política se faz com este cultivo de memória, o imaginário sendo plantado com as recordações da História – remota ou recente – e a elaboração de hipóteses derivadas deste exercício.

Que se vê do lado adversário aos que promovem a volta do PT?

A “narrativa” de que, do nada, Temer quer reformar a Previdência, como um vampiro especializado em atormentar e abreviar a vida de velhinhos.

Não tenho lido paralelos na Imprensa entre o esboço da reforma da Previdência deste governo e o esboço da reforma de Dilma. E sem este paralelo, não há como restabelecer a lucidez neste debate; retoques deformantes não permitem discussão honesta, e as mistificações correm pela inércia de quem está na mira de fogo.

A população é, em sua luta pela sobrevivência, a vítima maior da política de esforço mínimo da Imprensa. Tem sido assim há umas três eleições, pelo menos. Não há tempo para quem acorda ainda com céu escuro e consome horas do dia no transporte coletivo e no trabalho.

Gente apertada entre as diversas necessidades não está apta a pesquisar fatos da História recente; há a classe jornalística que é paga para informar as massas. Informar é, muitas vezes, recuperar fatos que a passagem do tempo obscureceu.

Mais que a “Direita Xucra” que Reinado Azevedo invoca como responsável pela volta do PT ao Poder, a Imprensa preguiçosa colabora para este fim.

E me pergunto se um novo Governo não deveria buscar alternativas aos problemas de um governo anterior no lugar de buscar as mesmas saídas do mesmo labirinto. A prometida redução do Ministério anda em que passo? Não seria mais urgente reduzir alguns gastos governamentais antes de se discutir reformas às pressas?

E sem este senso do óbvio por parte do atual Governo e de seus apoiadores na Imprensa, os dispostos a tudo para retornar ao Poder se fortalecem dia a dia. Há do lado dos petistas a vantagem de não ter que lidar com as cobranças, e livres deste aborrecimento, planejam seus novos passos, agora depurados pela ação da Lava-Jato.

E as ruas estão, como escrevi logo no início deste Governo (consultem o blog), sendo conquistadas por quem nos últimos dias do Poder andavam se esgueirando, cabisbaixos e reticentes.

A reforma da Previdência é um pretexto. Apenas um pretexto.

Pretexto que deixaram de herança a um grupo político que, por falta de projeto, aceitou-a de braços abertos e joelhos flexionados.

 

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