“Notas”-18/03/2017

Sobre recordações

Quanto ganharia caso conseguisse trocar pedaços de minha memória por outras habilidades mentais; muito (ou tudo) da minha vida estaria solucionado, e ainda sobraria muita memória.

Adolescência me é palpável nestes passeios mentais diários. Cores e odores são alcançáveis ao chamado de algum pormenor que trabalha como o biscoito de Marcel Proust; todos os pequenos pormenores têm este Poder em uma pessoa com memória privilegiada.

A infância também me é generosa nas alamedas da memória, mas não como a adolescência. Esta, passados trinta anos, alcanço sem nem mesmo fechar os olhos.

Meus colegas de classe, por onde andam? Me sinto como o personagem de “O Inimigo” do Rubem Fonseca, os quadros de um convívio de trinta anos atrás ainda frescos. Se muito rancor se alimenta disto, algumas risadas também têm o mesmo berço. A maioria (maioria! quase todos, ou todos) dos meus contemporâneos dos dias escolares desapareceram do meu campo visual. Avistasse algum na rua, e não reconheceria. Também há este dado da realidade. Caso se lembrem de mim, teriam estes colegas ao passar por mim o mesmo alheamento. A vida transfigura os adolescentes que se entregam a ela como a uma amiga.

Lembro dos professores petistas; mesmo em escolas particulares tinham o senso de missão, nem mesmo festas juninas escapavam de suas pregações. Não se deixavam distrair. O catecismo dos livros do Frei Betto (sobretudo os didáticos, como o seu de OSPB) socados nas mentes com todo o entusiasmo produzido pelo fanatismo e desconhecimento de outros autores (para muitos destes a cultura marxista máxima estava contida neste repertório).

Havia, devo admitir, virtudes humanas nestes fanáticos (que faltavam aos não-alinhados com este projeto de paraíso na Terra): ouviam os alunos, eram críticos aos valores do consumismo embrutecedor, recriminavam os exercícios de crueldade diária dos mais fortes sobre os mais fracos.

E mentes mais influenciáveis acabavam pescadas.

Lembro das primeiras colegas convertidas ao petismo; as discussões eram ásperas. Os que se atreviam à crítica ao que já escandalizava no PT (a hipocrisia, o simplismo, a ignorância crua de muitos militantes) experimentavam a fúria do fanático dirigida ao Infiel: olhos flamejantes denunciavam a insensibilidade e alienação de nossas almas, forjadas pela TV e por nossos pais reacionários. Estas colegas, por bonitas, convertiam uns tantos outros colegas.

E assim a Igreja crescia.

Os poucos que encontrei nos anos seguintes estavam ainda firmes no Caminho.

Eu próprio me tornei eleitor do PT, embora sem adorar a sigla; tangido pela falta de opções e por disposição de votar em um projeto que ainda não havia sido experimentado aqui (se arrependimento e vergonha matassem…). O fanatismo destes colegas nunca me contaminou, mesmo porque eu buscava estudar autores marxistas nestes dias, e sabia o quanto o PT era precário do ponto de vista teórico. Estes colegas estacionaram no Frei Betto e nos escritos mais acessíveis do Leonardo Boff e “A Ilha” do Fernando Morais. Está bem: os mais eruditos deles liam “As Veias Abertas da América Latina” também. Eu estava no “Rumo à Estação Finlândia” do Edmund Wilson. O diálogo não prospera nestes abismos, concordam?

Notava já algo que notei depois com maior atenção na faculdade:

Fidelidade aos sonhos e laços de convívio sólidos. Estes militantes não eram (e ainda não são) o tipo de gente que vive como descreveram n”O Despertar dos Mágicos” Louis Pauwels e Jacques Bergier: de manhã, estudantes, de tarde, trabalhadores, de noite, convivas de banquetes. Esta vida fragmentária, na qual pessoas se dividem em gavetas não comunicáveis, não produz lutadores sociais. Estes fanáticos sonham em tempo integral, e procuram viver segundo as fantasias.

E esta continuidade nas suas vidas atrai mentes sensíveis, cansadas do artificialismo e insensibilidade provocadas pela vida fragmentária, pela lógica convencional que envolve a maioria das pessoas. O senso de comunidade, de grande família (não importa que família disfuncional e ruidosa), parece inexistir em outros meios. Desconfio que não exista mesmo.

Que pode a lógica ou mesmo a narrativa de monstruosidades contra este senso de acolhimento grupal? Qual alternativa a “gente normal, reacionária e careta” oferece no curto prazo? Muitos da Esquerda dizem, com razão, que a lógica empresarial é tão irreal quanto qualquer outra. A hipocrisia da sociedade que anuncia oportunidades que nunca chegam, a meritocracia também proclamada e negada pelos episódios recorrentes de sabotagem aos talentosos, de favorecimento de parentes, de amigos, de parentes de amigos, etc.

Exemplos de pessoas que cumpriram o manual de como subir na vida de forma decente à risca e foram esmagadas, suas vidas servindo como crônicas da desgraça, são tantos…

Enquanto há nos grupos de sonhadores alguma solidariedade, ainda que cobrando o preço da submissão total ao grupo, a independência tomada como sinal do traidor.

Assim entendemos as negativas da realidade, os apegos às palavras de ordem, as escolhas favoráveis a tudo que conspira contra liberdade e possibilidade de prosperidade; eficiência e funcionalidade qualificados como “luxo”.

“Faça a Igreja crescer…”

O refrão, cantado por coros de jovens, ganha reforços em todas as gerações desde que composto por sacerdotes da casta acadêmica; a Igreja do saber militante. O compromisso dos missionários como Amanhã que exige o sangue do tempo presente.

Tudo isto já foi dito, escritores denunciaram e denunciam – decerto denunciarão daqui a muito tempo.

A realidade é mesquinha e dura demais. Os sonhos implacáveis (sonhos que exigem que o Presente seja oferecido como pagamento perpétuo) afiguram-se mais gloriosos, e dignos dos que aspiram a alguma forma de grandeza.

E só há um caminho a quem acredita ser um dever dar combate a este quadro:

Trabalhar sem expectativa de retorno no curto prazo, como os sacerdotes da casta acadêmica o fazem. Trabalho diário, atacado como único modo de vida possível.

Talvez sirva como exemplo e forma de utopia que atraia mentes sensíveis, desejosas de algo maior.

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