“Notas”-21/03/2017

“E chegou-se a isto…”

Leio na matéria (publicada em 18 último) sobre entrevista de Ciro Gomes a declaração sobre os políticos que apoiam o governo de Michel Temer :

“…marginais que conheço a mil anos.”

Sim, leitores do blog: a frase está transcrita como os srs. leem agora: “a mil anos” no lugar de “há mil anos”. Ciro, pelo texto está perdido no tempo.

Como a entrevista foi dada na forma oral, e não por escrito, não foi Ciro Gomes que se perdeu no tempo. Ele talvez tenha se assutado ao ler a transcrição do que disse.

Talvez tenha sido o redator, quem sabe o revisor.

Isto na edição eletrônica de “O Estado de S.Paulo”, o “Estadão” que sempre tive como modelo de rigor no trato do idioma. Tenho mesmo em casa um “Manual de Redação e Estilo” do jornal, excelente. Leitura que considero obrigatória.

Como deve ter havido um tempo em que este livro foi obrigatório aos profissionais do “Estadão”. Outros dias. Hoje não se exige mais que o diploma de jornalista na maioria das empresas.

Não direi o nome do repórter, pois penso que ele foi o menos culpado nisso; eu cometo meus erros de grafia e encontro almas generosas que me corrigem sem cobrar centavo, e sei como é escrever.

Mas acredito que haja revisores no jornal. Ou estariam economizando estes serviços nas edições eletrônicas? “Público de internet…sabem como é… eles nem prestam atenção.”

E não prestam mesmo, dos comentários que li até ontem, e que já eram mais de cem, nenhum mencionava o erro. Comentavam sobre o assunto (política brasileira atual) e sobre o personagem (Ciro Gomes). Um ou outro mencionava um acento ou um ponto que são falhas de digitação compreensíveis. “A” no sentido de haver revela falta de conhecimento básico do idioma.

E chegou-se a isto: leitores de um jornal antes tido como exigente no trato do idioma mal percebem erros grotescos. Preocupados com política e esquecidos que país de ignorantes não pode ter futuro.

Considero a falha do redator a menos grave; o sujeito na pressa, erra. Mas a revisão é paga para limpar os efeitos de um fechamento apressado. E acima da revisão, edição. Não há editores que percebem falhas que sejam mais graves que falhas de digitação?

Como escrevi acima, poucos perceberam. Ou perceberam errado, culpando o político pelas falhas, como se fosse ele, Ciro Gomes, o autor do texto.

Jornalismo de iletrados para iletrados. Chegamos a isto.

Sabe como se chega a isto?

Política de tolerância máxima.

Editores aceitam expressões ridículas como “Mimimi” substituindo palavras como “queixa”, “lamento”, “lamúria”, nos textos. Não se animam a recomendar que redatores deixem “Mimimi” para postagens em redes sociais apenas. Não cobram leituras de subordinados (bom, há editores que não podem cobrar hábitos que não possuem) e não vetam textos escritos com desleixo.

E uma folga de estilo leva a outra folga de estilo até que se chega no ponto de se publicar um “a mil anos”. Mais um pouco e publicarão “Mais” onde deveria estar um “Mas”, como lemos todos os dias nas caixas de comentários.

Há um box logo abaixo da matéria, destinado aos leitores que por acaso tenham correções a fazer. Quase comentei ali. Mas lembrei que não sou pago pelos donos do “Estadão”.

Como não era pago pelos donos da “Veja” quando corrigia alguns erros que encontrava. Um “Obrigado” do colunista e estamos conversados.

Certa vez, li um comentário no espaço dos comentaristas de um colunista do site da “Veja” que poderia render um belo processo de um certo político, caso este quisesse. Tentei avisar o colunista durante um final de semana inteiro, apenas no Domingo consegui.

Qual o pagamento? Um “Valeu” e nenhuma menção ao meu blog em qualquer um de seus textos. Menção, ainda que ligeira, ou mesmo crítica, faz mais que links que nenhum leitor presta atenção.

E não foi este o único serviço de correção que fiz de graça em comentários (os quais pedia para não publicar) para aquela publicação em sua face eletrônica.

Mas aprendi a lição. Erros que vejo, e que considero dignos de nota (não vale falha de digitação compreensível) comento no meu espaço; trabalho de graça para mim apenas.

Estes jornalistas tendem a considerar blogueiros uns amadores, uns desesperados pela notoriedade. Nós, não-formados, não somos considerados dignos de trabalhar em jornal e revista mesmo por quem não possui diploma (jornalistas que exerciam o ofício antes da obrigatoriedade do diploma).

Colaboradores remunerados só com diploma, ou com muito público.

O que se lê e a competência para transformar esta leitura em textos são fatores que não são levados em conta. Estamos aí para corrigir (de graça, claro) erros dos profissionais, e não encher.

Eu, não mais.

Hoje assisto de camarote órgãos outrora respeitáveis caírem apodrecidos pelos incompetentes que sabem subir na vida. Proprietários de jornais e revistas que são contrários à obrigatoriedade de diploma, mas que não se mexem para contratar pessoas competentes, merecem ver suas empresas transformadas em palco de linchamento do idioma. Não querem brigar com sindicatos, ou não querem gente culta que crie dores de cabeça, não importa a razão.

Culpa-se a internet pelo fim de revistas e jornais. Ora, Paulo Francis culpava a TV (ela fornecia noticiário veloz e bem feito), ou melhor dizendo, Francis culpava editores que não conseguiam ver que o jornalismo teria que se aprimorar na análise e nos textos para fazer frente ao desafio da TV. Isto no início da década de ‘90 (entrevista para a revista “Imprensa”). Ele nem falava da internet.

Quem assinará portais de notícias mal escritas e ligeiras? O sujeito pescará aqui e ali na parte gratuita dos sites e colherá o resto em canais de TV a cabo (hoje quase todo mundo assina).

E assim proprietários que apostam no lucro fácil terão o lucro nenhum, e um ou dois continuará no ramo. Ou volta-se a produzir conteúdo, e isto implica em contratação de pessoal competente, ou sai-se do ramo, simples.

Muitos empresários viram na internet um futuro de ficção científica, onde escolhas teriam custo reduzido. Menos papel, menos tinta, menos gente escrevendo. Lucros além de qualquer imaginação.

Esqueceram de incluir a abundância da internet no cálculo, e a vida não suporta estes erros de cálculo.

A vida não é um roteiro de ficção científica.

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