“Notas”- 22/03/2017

Sobre Eduardo Guimarães e Sérgio Moro

Não sei se Sérgio Moro está errado do ponto de vista legal em intimar o blogueiro Eduardo Guimarães para depor sobre vazamento da operação de condução de Lula. Não conheço o suficiente de leis para pontificar sobre a elasticidade do conceito de jornalista sob a Lei. Pode ser que qualquer um que exerça atividade jornalística (e ele produz análise em blog, o que não deixa de ser atividade jornalistica) tenha o direito de invocar as prerrogativas legais do ofício.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) e a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) emitiram nota repudiando o ato de Moro. Será que estas entidades renunciaram à exigência do diploma de Jornalismo para exercício da profissão, ou só abriram exceção a um blogueiro de Esquerda, promovido, pela ideologia, a colega de categoria?

É uma discussão para juristas ou estudiosos do Direito, e não sou uma coisa nem outra.

Sei que tomo meus cuidados ao escrever; não tenho empresas para pagar possíveis processos. Daí eu usar com frequência o verbo “parecer”. Impressão posso exteriorizar, deixando claro que é impressão. Ser um blogueiro sem proteções é ser um cultor da autocensura.

Não aprecio o trabalho do Eduardo Guimarães- do pouco que conheço. E este pouco conheço das republicações no 247 do conteúdo de seu blog. Não lembro se o 247 já o republicava no tempo em que eu enviava ao site as atualizações do meu blog. É da safra de blogueiros que o site acolheu, junto com políticos do PT. Quando vi que eu estava na lista vertical de indicações de leituras abaixo e acima de militantes do PT me convenci que meu tempo de colaborador ali acabara.

Cada um escreve o que quer e responde por isto. Há leitores para textos que não são mais que panfletos e coletâneas de clichês de Esquerda de país de capitalismo atrasado. Guimarães sempre me pareceu isto, e duas doses do seu produto me foram o suficiente. Mais que o suficiente, para ser mais honesto. Como todo o resto que publica ali.

O que li sobre sua mensagem sobre a possibilidade do Moro “perder a vida”me parece grave, mas não sei se configura crime. Talvez merecesse um pedido de explicações. E penso que este pedido formal de explicações é um direito e um dever de quem ocupa um cargo público e sofre este tipo de pressão. Considerar a mensagem uma idiotice que não merece atenção é um erro grave, pois incentiva desrespeitos e pressões sobre autoridades que investigam outras autoridades.

Lembro de um regulamento do Ed.Roma (localizado à Av.Paraná, em Belo Horizonte) afixado em moldura, na portaria. O regulamento era, se não estou enganado pela memória (vi este quadro pela última vez em 2000), do fim da década de 1960 ou do início da década seguinte. E nele havia uma cláusula interessante:

“Proibido desrespeitar o síndico, dirigindo-lhe ameaças, ou indiretas.”

O fato de um blogueiro ter as costas quentes (pois lido e replicado por militância de partidos como PT e PC do B) não o desobriga a responder pelo que escreve; a liberdade de expressão é um conceito elástico e seletivo no Brasil, parece. Aposto que se um blogueiro direitista escrevesse que determinado político ou juiz de Esquerda pode “perder a vida” ninguém tomaria a mensagem como exercício da liberdade de expressão.

Não se tomou medida alguma, e toma-se agora sobre algo que parece a muitos controverso; a notícia da condução de Lula à Polícia Federal.

São coisas assim que deixam o cidadão comum inseguro; aonde a Lei pode ir não é algo nítido a muitos e o que parece grave a muitos, a certas autoridades não o é.

Voltando aos blogueiros ditos de Esquerda; muitos escrevem sobre Moro o que muitos temeriam dizer em uma cervejada. Muitos homens comuns, digo. E não são incomodados os blogueiros e os sites que os hospedam. Isto cria um clima de insegurança para muitos.

A escolha por tomar gente como Guimarães como excentricidade é convenção que se estabeleceu por esnobismo social puro. O discurso do “Deixa o cara, o pátio do hospício fica mais divertido com gente como ele” é comum aos jornalistas da grande imprensa que nunca levaram a imprensa digital de Esquerda a sério como formadora de opinião. Até que a dita imprensa de Esquerda tomou parte volumosa do público da outrora grande imprensa.

E muitos ainda não se deram conta das consequências deste cochilo.

O fato é que não se avança na ideia de se criar uma CPI da imprensa digital governista sob o PT; quanto de publicidade oficial foi colocada a serviço de sites e blogs que atacavam políticos e jornalistas não-alinhados ao Poder e que abrigavam comentários com linguagem de porta de mictório público sobre os alvos dos textos.

Lembro de Augusto Nunes reclamar em um de seus textos sobre a impunidade destes sites e blogs; quanto adverti este jornalista, tendo como resposta lições sobre como ignorar “pobres diabos sem leitores”? Pena que estes comentários meus e as respostas do grande jornalista estejam hoje indisponíveis. Ele sabe, e eu sei, sobre estas tentativas de diálogo de minha parte.

O que quero dizer é que Sérgio Moro talvez tenha intimado o personagem certo na parte errada do enredo. Guimarães e outros blogueiros seriam intimados por mim pelo que escrevem, antes de qualquer outro motivo; liberdade de expressão está se deformando no Brasil.

Por uma nota em seu blog…para saber qual a fonte…que sei de leis?

Reinaldo Azevedo viu no episódio oportunidade -mais uma- para criticar o que considera ser excessos de Moro e se antecipou aos protestos da “Direita Xucra” ao que escreve. Mostrou solidariedade ao blogueiro conduzido ao depoimento, advertindo leitores sobre sua diferença moral dos esquerdistas que, segundo Reinaldo, saudariam hipotética condução sua. Recebeu críticas de blogueiros que se divertem com sua fase de atritos com antigos admiradores, admiradores que o admiravam por equívoco (escrevi sobre isto no blog – a tolice de cobrar fidelidades de um autor às ideias que se imaginava associadas a ele). Considero um direito seu se declarar solidário e coerente consigo, e é direito da Esquerda menosprezar sua solidariedade – e sua coerência. Reinaldo tem o mérito de, nos dias em que o monstro se formava no 247, combatê-lo sem afetar superioridade. Esta sua participação na história do jornalismo brasileiro recente empresta ao seu artigo alguma importância.

Repito: não sou estudioso do Direito e não me considero habilitado a escrever sobre o aspecto legal da operação. Mas considero que Sérgio Moro deu a Eduardo Guimarães o palanque, os holofotes e o jingle para sua próxima candidatura política.

Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s