“Notas” – 24/03/2017

Sobre suicídios de órgãos de Imprensa

Quando preciso escrever e noto um deserto em minha mente, busco a fonte dos mestres; artigos, livros, entrevistas. Pode ser que encontre mesmo em vídeos o estímulo que procuro para tomar da caneta e redigir minhas notas nos cadernos. O nome deste blog vem deste hábito de gastar canetas nestas reflexões.

Um dos mestres que me socorrem quando quero pensar e escrever sobre Jornalismo é Alberto Dines. Não se precisa concordar em tudo que um mestre diz, mas ouvi-lo é obrigação de quem preza seu tempo; há medíocres que ainda que pensem parecido conosco, nos são prejudiciais pela perda de tempo que representam. Nada ensinam, nada criam.

Nestas buscas pelos ensinamentos de Dines, dou com uma entrevista sua, e me envergonho de escrever que não anotei o veículo nem a data. Há nela uma frase que vale por vários ensaios e tratados sobre Jornalismo dos nossos dias. Nela Dines conta sobre diversos suicídios de empresas jornalísticas frente aos desafios tecnológicos que tiveram que enfrentar.

Dines se referiu aos que sucumbiram às mudanças provocadas pelo temor da televisão; adaptações motivadas pela percepção de que a TV engolira o público de jornais mataram diversos órgãos, segundo Dines.

A Internet faz vítimas do mesmo tipo hoje, segundo o jornalista veterano de tantas guerras; donos de jornais tentam combater a internet desfigurando os jornais, tornando-os mais “visuais” e “modernos”. Com os resultados conhecidos; a Internet avança impiedosa.

Penso que o temor que é a matriz dos temores diante de novas tecnologias é o temor da diminuição, ainda que relativa e temporária, dos lucros. À mínima oscilação das vendagens avulsas e de assinaturas, tentam-se reviravoltas e “desenhos” que afugentam o leitor. Não atinam que o problema pode ser algum desgaste com fórmulas tidas como sagradas, ou cansaço do leitor após “reformas” que tornaram o jornal mais difícil de ler. Ou mesmo uma crise financeira que se deve atravessar com estoicismo.

O que vejo na Imprensa brasileira é desolador, parece haver um esforço em acompanhar a linguagem das redes sociais. Redatores, ainda que nas versões eletrônicas, utilizando jargão de rede social; termos estúpidos como “mimimi” como substitutos de palavras como lamúria, queixa, reclamação. O formador de opinião deformado pelo público que deveria formar. Com a bênção desleixada dos proprietários.

Benção desleixada porque parece que editores e redatores chefes, ou diretores de redação são, em muitas empresas, o “olho do dono”. Não parece haver mais o proprietário obcecado pelo seu produto. Ora, nenhum diretor de redação, ou editor, ou redator-chefe se matará pela empresa, vigiando sem descanso os cochilos de linguagem, e mesmo de trato com o idioma, de redatores. Escrevi nesta semana mesmo sobre o “a” de tempo futuro numa frase onde deveria haver um “há” de passado, em matéria na versão eletrônica d “O Estado de S.Paulo”.

Não era uma falha de digitação, era demonstração de conhecimento básico do idioma. E passou por revisores e editores. Ou não passou?

Noto em muitos órgãos, e isto não é de hoje, a opção por textos curtos e fotos tomando metade da espaço das matérias. “O leitor quer ver e desiste de textos longos”. Quem estabeleceu este dogma? Qual pesquisa forneceu esta verdade às empresas? Que público se deseja formar? Não há pudor em se deformar assim um meio de comunicação?

Não, não há.

Fotos e mais fotos enormes e textos cada vez menores e esquemáticos atendem a um público que se deseja atingir: preguiçoso e nada exigente. Em duas gerações, qualquer coisa serve ao otário que assina o produto, compreendem? Textos inspiradores e ilustração dosada criam público “mal-acostumado”, exigente.

Não digo que este cálculo se desenhe assim tão nítido na mente dos publishers, é um hábito que se impôs na sociedade de massas que favorece o nivelamento por baixo. Há a perda do padrão de qualidade, em todos os setores da vida contemporânea. E poucos se animam ,ou se interessam, em confrontar este amesquinhamento das expectativas. Quando morreu o Chico Anysio, escrevi que o público de hoje e o vindouro não teriam seus programas como paradigmas, e portanto, aceitariam o humor de nível mais baixo. Isto é quase uma fatalidade.

Que intelectuais não percebam o jogo que se joga, assusta. Que não adivinhem uma sociedade de animais capazes de se expressar apenas por onomatopeias e se informe apenas por imagens nesta formação de público que a Imprensa atual forma, desanima. Intelectuais não compreendendo o Mundo, em resumo.

Um jornalista veterano me dizia do que assistiu algumas vezes: a destruição de empresas jornalísticas por herdeiros. A coisa caminhava até a segunda geração, no máximo. Com sorte, uma terceira geração ainda lutava. Da quarta em diante, a revista ou o jornal era visto como um bem a ser passado nos cobres, ou fechado de modo a minimizar prejuízos. Este jornalista assistiu isso bem de perto em duas empresas, e me divertia com a descrição dos herdeiros. Um dia fizemos, este jornalista e eu, uma lista de grandes jornais brasileiros enterrados por herdeiros.

Jornais e revistas enterrados antes do estouro da Internet, sim?

Planos mirabolantes, reformas mal planejadas, talentos destratados por filhos de donos de empresas, ou demitidos por motivos ridículos; a lista das causa mortis era enorme. Em comum, a ignorância e a cupidez dos herdeiros. Talvez se vingassem do que julgassem uma injustiça: a falta de talento, um defeito da arca da sorte com a qual foram presenteados na vinda ao Mundo. Não sei se em outros países isto acontece com esta frequência.

Vacas sagradas criando capitanias hereditárias são outro veneno, mas mesmo este é culpa dos herdeiros; que vigiassem jornalistas que sabotam outros para beneficiar amigos, filhos de amigos, amigos dos filhos.

Este assunto é apaixonante, em certa medida. Imagino o que jornalistas como Dines guardam de histórias do tipo nas suas andanças pelas empresas. Quantos suicídios de jornais e revistas presenciou. Sem nada poder fazer. Sem possuir uma ação, uma açãozinha da empresa, para poder mandar debiloides calar a boca e estudar.

E isto me leva a uma dívida que estes mestres possuem com seus admiradores e estudiosos do Jornalismo: autobiografias ou biografias dos jornais e revistas nos quais brilharam.

O Brasil precisa disto, para tudo.

Uma autobiografia do Alberto Dines; não é proibido sonhar!

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