“Notas”- 28/03/2017

Sobre ruas vazias

E a confirmação das profecias mais amargas vieram num Domingo.

Os observadores do processo de impeachment que recusavam a troca da observação pelo mergulho na fantasia previram que, uma vez o impeachment consumado, as ruas mergulhariam na apatia costumeira. Escrevi diversos textos sobre essa previsão.

Na verdade, nunca fui a qualquer das manifestações; mantinha um blog e nele me manifestava sem camiseta da CBF e sem ter que ouvir clichês berrados por oradores de ocasião. Continuo no blog, mas onde os bravos de camiseta amarela? Onde os oradores de ocasião? Pelo que leio, vinham minguando já no ano passado, o último Domingo atingindo números de desistência.

Sei que alguns “formadores de opinião” já apresentaram as justificativas; aparentadas com as justificativas das marchas do ano passado que registravam queda.

Festival Lollapalooza e clássicos do futebol devem ter sido invocados desta vez….

Explicar a um leitor de “Veja” e telespectador do “GloboNews” que concentração de corpos sem concentração de mentes tende a se esgotar com facilidade é tarefa que não desejo ao inimigo mais cultivado no meu coração; é trabalhoso explicar que marchas da Esquerda são precedidas pelo convívio em assembleias, sindicatos, ambiente estudantil, casas de amigos, etc. As cores na avenida são preparadas com carinho na vida cotidiana.

Há o que escrevi sobre o “pós coito prematuro”, a depressão nervosa coletiva após o impeachment; as decapitações na classe política não vieram, enfim. O que prometia ser o começo de algo depois do qual o Brasil seria outro não passou deste começo. Desta promessa de começo, melhor escrevendo, e assim voltaram todos do sonho propiciado por redatores grandiloquentes da mídia dita adversária do PT.

Foi um desperdício este processo de impeachment; quantos debates empolgantes no Congresso, quanta efervescência nas ruas! Populares dizendo nomes de ministros do Supremo como antes só o faziam com astros do futebol! E hoje…

Não, não era falso o interesse, não era de plástico a curiosidade popular, mas era recente, ainda frágil, necessitada de cuidados. Não se podia confiar neste amanhecer cívico além da realidade; jornalistas não poderiam delegar suas responsabilidades a quem iniciava a caminhada, a quem tinha que tocar a vida.

O impeachment seguido da não cassação dos direitos políticos de Dilma Rousseff foi a demonstração de que não se vigiou a classe política como se deveria ter vigiado. Quem vigia a classe política? O trabalhador que passa cerca de quatro horas do seu dia no transporte coletivo e o resto do tempo no trabalho e na vida familiar difícil? O classe média desabituado aos tratados de ciência política?  Em resumo, o homem comum?.

Não se trabalhou nas massas a certeza de que a luta pelo impeachment era o número de abertura do épico apenas, o grosso das lutas estaria ainda por surgir. Não, frases de efeito e risadas comemorativas ocupavam o dia de quem deveria plantar a semente da luta contra os que desejam (sim, desejam ainda) implantar no País as fantasias de dominação total sobre as pessoas.

“E nos livramos dos bandidos” era a certeza dos que leem a História por aplausos em restaurantes e vaias em aeroportos. Há jornalistas que fazem previsões políticas por estes instrumentos de aferição da realidade. Nunca admitem erros.

Não se percebeu que o processo de impeachment era maior que o fim, que o debate político era mais ameaçador que a destituição de uma Presidente. Não se percebeu a necessidade de se dilatar a crise até a eleição de 2018, para que o PT chegasse lívido após tanto sangrar.

Acredito na boa intenção dos que acreditavam que, com o impeachment, a crise recuaria.

Mas crises voltam, não são pontos fixos que podem ser varridos do Futuro; havendo condições, tornam-se o padrão em um país. Os meios para que o Brasil torne a ser refém de aventureiros estão ao alcance de um esforço mínimo de depuração partidária, depuração que a Esquerda domina. Apresentam-se os “traidores que se desviaram dos bons propósitos” e o Estado pode ser, de novo, anexado a um partido. Nem privatizações dão conta deste fenômeno. Empresas privadas gigantes podem sangrar tanto um país como as estatais, como nos mostraram as empreiteiras.

Há que se vigiar sempre, e o que parece é que o impeachment passou a significar o fim da vigília a quem não via a hora de voltar a escrever sobre novelas de TV e dietas de emagrecimento. Assuntos que podem ser revezados com “métodos revolucionários” de combate à calvície e à impotência sexual. O impeachment enfim livraria a muitos do noticiário político, em suma.

Por tudo isto, compreendo os que faltaram ao chamado dos movimentos compreendidos como de Direita; há uma preguiça justificável após meses de decepção. E o temor de ajudar a Esquerda teve algum peso na decisão de faltar aos protestos do dia 26; Reinaldo Azevedo vinha prometendo a volta do PT caso protestos da “Direita Xucra” tivessem adesões que sinalizassem reprovação ao governo atual. É uma aposta do jornalista, e muitos dos que lotaram as manifestações anteriores têm nele um guia.

Esta Direita não discute cancelamento de assinaturas de órgãos de comunicação, nem deseja rever o status de alguns jornalistas. Acreditam, ou parecem acreditar, mais nos jornalistas famosos que em seus olhos. É um direito, não?

Tudo está perdido? Melhor desistir?

Não, não penso na desistência como opção. Pensasse em desistir, admitisse a hipótese da retirada e não manteria um blog que não recebe qualquer apoio. Sonho com um país de gente com o ânimo de lutar mesmo que a luta pareça ridícula, por inútil. A Esquerda, reconheça-se, tem neste ânimo seu patrimônio. Há gente na Esquerda que não desiste do PT, e não é por vantagens. É algo que guarda parentesco próximo com a paixão por um clube de futebol ou por uma escola de samba.

Quem não consegue ver isto como algo poderoso não entende nada de Política.

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