“Notas”- 29/03/2017

Engrossando o cordão

Demorou, mas populares começam a aderir às manifestações anti-Michel Temer e pró- PT.
Ontem estive no Centro de Belo Horizonte e quarteirões inteiros da Av.Amazonas estavam ocupados pela passeata.

“Sim, com muitas bandeiras vermelhas e gente de sindicatos.”

Bom, não vejo por quê uma manifestação com as cores de um partido seria menos legítima que manifestação de gente fantasiada com camisetas da Seleção brasileira de futebol. Manifestações se fazem com pessoas e como estas são arregimentadas diz pouco sobre o espírito de adesão. Há quem afirme que se pagam aos manifestantes. Pode ser. Mas não acredito que isto ocorra em manifestações sem ônibus fretados, em uma capital como BH. Uma excursão à Brasília, pode ser.

O Governo deu de presente ao PT uma agenda que arrasta multidões: o medo de perder direitos sociais, trabalhistas. Como o Governo não conta com imprensa disposta a lembrar ao público que Dilma Rousseff preparava uma Reforma da Previdência que só não foi adiante porque o seu mandato foi cassado, Temer e sua Reforma levam milhares às ruas.

“Você aí parado não vai se aposentar.”

Reeditaram assim o “Você também é explorado” que animou tantas outras manifestações do Passado. Para quem não sabe, Belo Horizonte, no final da década de ‘70, sediou manifestações que contaram com cobertura da imprensa de outros estados, no que passou à História como a “Quebra da Construção Civil”. Foi então capa da “Veja”, com a escultura da Pça da Estação como marco de uma passeata célebre. Conheci um professor universitário que à época militava em movimento estudantil e marchou naqueles dias. O refrão “Você também é explorado” empolgou a massa pela insistência e convicção com que era berrado por manifestantes aos PMs nas passeatas.

E populares, mesmo sem sair da calçada e se juntar ao cordão, mostravam simpatia.

E a História se repete…como farsa ou advertência soturna, tanto faz.

Isto enquanto as manifestações da Direita sofrem deserções que seus amigos na Imprensa procuram minimizar. Contra uma agenda concreta (que militantes experientes souberam aproveitar), a Direita busca se lastrear em apelos vagos, aos emocionalismos de ocasião. Adivinhem quem ganhará esta guerra.

Sim, guerra. Não é outra palavra que define este momento de exibição de forças. De demonstração de competência para o embate político.

De um lado, gente que sabe esperar, e aproveitar as oportunidades. De outro, gente desunida e afoita. De um lado, gente que soube aguentar desaforos com a paciência dos que sabem que os fatos têm seu poder de argumento; de outro, gente que supunha a parada ganha em definitivo – sem qualquer evidência concreta desta vitória. Slogans vazios e cantos de guerra compostos por gente desacostumada ao campo de batalha entremeados por memes de internet. Fé nas redes sociais, ainda que estas fossem pontos de encontro de gente que considera Lula um analfabeto enquanto grafa “mais” onde deveria haver um “mas” e “a’ onde deveria haver um “há”…

Como escrevi ontem, há sempre como recomeçar, desde que com realismo, sem fantasias ridículas, desde que se admita que se avançou os ponteiros da História sem força para isto.

Não se compõe uma maioria com a desunião que a Direita tem como um de seus traços de caráter (ao menos no Brasil); os movimentos políticos precisam ter musculatura para exibir em seus desfiles pelas ruas. A musculatura de um movimento político se cultiva com grupos de leitura, de discussão. Convívio e paciência. Quem quer isto na Direita hoje no Brasil?

“Não podemos perder tempo.”

“Quem vive em reunião com cervejada é vagabundo da Esquerda.”

“Não vivo em bandos, não sou comunista.”

Frases do tipo ouvi sempre que tentei lembrar a algum colega direitista a necessidade do convívio pessoal na luta política. Confundem liberdade individual com individualismo. Parecem acreditar que a desunião é a arma mais letal que há contra o Totalitarismo.

A Direita está mais preocupada no momento em trocar acusações pelo fracasso que sabem certo. Atribuem desde já culpas uns aos outros, enquanto a Esquerda se ergue após as depurações providenciadas pela Operação Lava-Jato.

Não pude deixar de me perguntar sobre a necessidade de se discutir a Reforma da Previdência neste momento. Não seria mais prudente terminar este mandato, e se reeleito, retirar da gaveta a pauta que vinha do governo anterior? Não seria aconselhável fazer com amigos da Imprensa um trabalho de mostrar que a reforma vinha sendo preparada pelo PT?

Não se tomou estes cuidados, e as ruas hoje são dos adversários.

A Esquerda parece disposta a ocupar as ruas todos os dias enquanto a Direita (também crítica a Temer, lembre-se) programa manifestações “mega” que se negam na realização.

Ah…esqueci de perguntar: a Direita que se manifesta já fez sessões de autocrítica depois de algum fracasso? Pois a Esquerda sempre o faz.

O fato é que vi as ruas tomadas por gente que não estava toda uniformizada (havia mesmo populares) gritando palavras de ordem contra algo concreto. Com plateia que, se não em franca simpatia, em silêncio respeitoso. Não vi ninguém lembrando, nas conversas de calçada, que a reforma viria com Dilma se não fosse o impeachment.

Manifestação que promete ser uma de muitas.

Manifestantes de semblantes seguros, se não alegres.

Como um personagem de uma crônica do Carlos Drummond de Andrade (que procurava o poeta em busca da mãe desaparecida), eles não pareciam desanimados.

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