“Notas”- 07/04/2017

Sobre momentos de falar e momentos de calar

Um verdadeiro polemista escolhe suas brigas: Carlos Lacerda, no “Depoimento”, confessou não ter se empenhado na campanha anti-Brasília por entendê-la inútil e impopular até mesmo no seu partido, UDN, onde muitos políticos de Goiás e mesmo de outros estados viam a mudança da capital como algo positivo. Lacerda só incluía Brasília em suas críticas ao governo de Juscelino Kubitschek como um assunto misturado a outros.

Norman Mailer expunha suas divergências com diversos ramos da Esquerda de maneira hábil, sabendo situá-las no conjunto do que considerava ridículo e destrutivo na vida norte-americana em geral. Sabia que eram ramos políticos necessários em um momento de afirmação política, e não desejava ajudar seus inimigos de ideologia.

Cito estes dois apenas, poderia citar outros tantos que, em momentos diversos, tiveram que selecionar alvos e assuntos aos quais teriam que adiar. Não é escolha fácil. Para quem sabe bater, e bater forte, continência é exercício exigente.

Falarei de mim: escolho muito meus momentos; momentos de falar, momentos de calar. Como escrevi aqui no blog dia destes, um blogueiro independente é cultor da autocensura.

Quando escrevi sobre a “Comissão da Verdade”, tive que posicionar com cuidado minha artilharia, e escolhi o fogo sobre a seletividade das vítimas da violência do Estado, evitando emitir juízos de valor sobre os lados daquela luta.

Quando escrevi sobre a política de cotas, tomei o cuidado de incluir as cotas no geral e não sublinhar uma em particular. A racial, por exemplo. Cotas raciais deveriam ser deixadas de lado; que se desmoralizassem como injustas até para os negros. Quem atacasse as cotas se arriscaria a fazer o trabalho do inimigo que só teria o trabalho de apontar o dedo e decretar como racista o crítico aos olhos do público iludido. Assuntos que envolvem paixão exigem frieza dos polemistas. Isto se aprende com algum estudo, ou não se aprende nunca.

Há os que decidem não aprender, pensam que escolher o tom para cada momento é “covardia”. São enamorados da própria valentia, ou pelo que entendem ser traço de coragem.

Esta semana, com o episódio da figurinista Su Tonani (que acusou o ator José Mayer de assédio), muitos destes autoproclamados corajosos tiveram vez de expor primarismo. Poucas vezes li tanta besteira nas caixas de comentários das matérias. Alguns são corajosos mesmo, colocam até foto do perfil no Facebook, como se orgulhosos das suas simplificações e distorções.

O fato de que feministas -tanto as militantes como as feministas de ocasião- tiveram no episódio seu grande momento é, para simplistas, o argumento que basta para escolher um lado na questão: o lado do ator, ainda que este tenha admitido as investidas e tentado se desculpar por carta. Parece que não leram esta carta, ou não quiseram ler. O que pensavam de antemão sobre o assunto era todo o conteúdo dos comentários.

Eu escolho o lado da vítima: a figurinista.

Não que não houvesse entre estes comentários simplistas algumas verdades: há silêncio sobre diretores homossexuais assediando jovens rapazes, e sobre assédios de mulheres em atores e atrizes. Quem discorda que há uma seletividade na abordagem deste problema?

Há também um momento de reabertura de covas fechadas há muito; muita atriz resolveu fazer apenas agora suas narrativas de assédio.

Concordo com a primeira queixa: alega-se que atores tiveram suas carreiras prejudicadas por não ceder aos oferecimentos de diretores. Isto parece ser algo do conhecimento geral. Mas estes atores podem também aproveitar o momento. Ou não podem? Não é menosprezando o assédio sofrido por mulheres que se corrigirá alguma injustiça histórica, não é mesmo?

Quanto às queixas fora de época de assédio, muitos não se dão conta da pressão que estas profissionais sofreram no tempo exato das agressões e das circunstâncias de cada uma. Não considero indecente aproveitar este momento no qual o assunto é enfrentado para contar um drama pessoal. É uma questão menor, e que não invalida o que quer que seja.

Muito do que incentiva estes comentaristas e que os leva a considerar estas duas vias de argumento válidas é o sentimento de saturação com o discurso universitário, na sua versão feminista. A arrogância com que um conjunto de pessoas se elege como as vítimas preferenciais da sociedade, em um país com tantas vítimas da violência e de injustiças variadas. Isto irrita, é natural.

Mas agir sob esta irritação é suicídio político. Não me admiraria se houvesse um ou mais cérebros por trás de cada movimento do tipo se empenhando para torná-lo irritante ao máximo. A imobilização pela raiva é algo ainda subestimado na análise dos movimentos políticos.E me parece ser arma muito utilizada. Não por acaso os militantes que mais sabotam tentativas de discussão séria são sempre escalados para debates. Coincidência?

Danilo Gentili acertou o tom: lamentou o assédio do ator mas indagou onde estavam as manifestantes que anunciam sua união (“Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas”) no momento em que um professor universitário postou votos (para o ano seguinte) de estupro para Rachel Sheherazade.

É por aí; reclamar sobre a união delas valer só para mulheres me parece inócuo. O que funciona é mostrar que para muitas destas ativistas, mulher só é digna de defesa se emitir as opiniões aceitas pelo grupo. Mulher direitista pode receber votos de “bons estupros” de homens da Esquerda. Gentili me parece mais afiado.

Enfim, me parece que era este um momento de, ou ficar calado ou bater onde dói, como fez Gentili. Não podendo emitir um golpe mortal, melhor observar, calado e buscar o estudo; assuntos vêm e voltam, com a paixão reduzida, muitas vezes. Mas a Direita de rede social não o percebeu. Quase nunca o percebe.

Foi mais uma vitória de quem sabe se organizar, de quem sabe aproveitar os momentos, pois se prepara para os momentos.

Momentos que sempre vêm. Para os que sabem a hora de falar e hora de calar.

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