“Notas” – 08/04/2017

Sobre Donald Trump e a Síria

Do que venho lendo sobre o ataque de Donald Trump aos alvos na Síria, o artigo recente de Pepe Escobar me parece o mais preciso e informativo. Há anos ele acerta quando o assunto é Oriente Médio, parece mais bem informado sobre as diversas facções em luta e as potências por detrás destes teatros de fogo e sangue.

Há quem escolha não dar muita importância aos seus escritos: Pepe seria muito simpático aos russos e ao regime de Bashar al-Assad. Pode ser, mas não vejo leitores descartando leitura de outros analistas por suas simpatias aos Estados Unidos e Israel. Quando muitos vendiam o “Estado Islâmico” como malucos que tiravam de poços de petróleo que sobraram dos conflitos da região seus veículos e armamentos (sem falar do treinamento), Pepe informava sobre as origens do grupo e à qual estratégia para região eles trabalhavam.

Portanto, confio nele quando o assunto é Síria.

Síria tem uma importância que a condena: foi durante décadas um dos sustentáculos da resistência palentina, através do Líbano. Há diálogo descrito no livro “VEIL” do Bob Woodward (o livro trata da atuação da CIA no governo de Ronald Reagan), no qual Ariel Sharon (então Ministro da Defesa) confrontado sobre a situação do Líbano teria dito em tom de desprezo: “Líbano…” O inimigo era a Síria.

Apoiado pela Rússia e pelo Irã, o regime de Assad segue sendo o caroço de abacate na garganta dos aliados de Israel na região.

Os refugiados, as crianças atingidas, a destruição de cidades inteiras…pouco disto importa aos que desejam remover um regime que, tenha os defeitos que tiver, é tolerante com minorias religiosas. São pretextos, e guerras se iniciam com pretextos.

Trump terá de lidar com as exigências do Poder, de uma maneira ou de outra.

Os seus apoiadores que combateram os neocons por políticas do tipo terão trabalho para explicar este mergulho no desconhecido. Ou invocarão as imagens da tragédia. Imagens convencem e dispensam explicações no manejo das massas.

Neocons, pelo que li dos artigos da versão eletrônica do “Weekly Standard” (a publicação de William Kristol), saudaram a investida. Elliott Abrams escreveu que “ele finalmente aceitou o papel de Líder do Mundo Livre”. Os artigos que li no “Weekly” vão todos por este tom, e a publicação, não é demais lembrar, foi crítica da candidatura Donald Trump.

Ninguém é tão livre assim, e como previram alguns, a cadeira presidencial se encarregaria de negar muito da retórica de campanha.

O que o Poder preserva em sua passagem por biografias? Pouco, muito pouco. Vultos se moldam ao Poder, ou se eternizam na História como combatentes – vitoriosos ou derrotados.

O que virá destes ataques mesmo analistas experimentados consideram temerário arriscar previsões. Talvez o pesadelo na região atinja seu ponto máximo de tensão, o que há de inflamável ali queimará por anos, penso. Talvez mais uma desmoralização dos conselheiros militares esteja sendo gerada, apostariam os que consideram esta possibilidade apenas mais uma desagradável parte do jogo.

Pepe Escobar enumera em seu artigo as vítimas que ficaram pelo caminho destes planejamentos para a região. Muitas delas crianças, como as crianças atingidas por armas químicas de procedência discutível e utilizadas como pretexto “humanitário”.

A História no Oriente Médio é sempre épica e dolorosa. Como tudo ali, nada corre o risco de ser banal. Mas que é bom observar este épico à distância…

Sobre Renan Calheiros e seu afastamento de Michel Temer

Renan Calheiros sabe se movimentar. Sabe ler os sinais de fumaças ainda pouco perceptíveis a muitos. Onde muitos desistem por não conseguir caminhar na fumaça espessa, Renan avança. Assim mantém-se desde o governo de Fernando Collor. Desde aquele início de década de ‘90 até hoje, qual governo teve Renan como opositor?

Posso estar engando; nenhum. Não por muito tempo.

Por que ele criticaria em público um governo de seu partido, diagnosticando neste falta de orientação? Apenas por um julgamento no TSE que acabou adiado (como acreditavam alguns que notaram a coincidência cronológica entre o julgamento da chapa Dilma Rousseff- Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral)?

Ou Renan já adivinha retorno do PT em 2018 (ou associado ao PT, não importa) e trata de se movimentar como porção do PMDB disposta a compor este sistema de Poder?

Renan Calheiros, como o político astuto e competente na observação que é, deve perceber que este governo é errado desde o princípio, fruto de uma afobação histórica que custará muito caro ao Brasil. Deve notar, com sua experiência, que Michel Temer e seu grupo contaram com apoio popular que não veio e auxílio de uma imprensa despreparada para aconselhar políticos, pois má observadora (age como torcedora, o que nega espírito de observação). E que se agarram (Temer e seu grupo) aos prazos apenas para não reconhecer a derrota que virá em 2018. Não adianta fingir que não vê, e ele não perde tempo fingindo. É o que imagino, pois não o conheço, nem conheço quem o conhece.

É o que penso, e não tenho milésimo da experiência política e da astúcia do político alagoano. Ele deve adivinhar o desastre com cores ainda mais nítidas.

E resolveu agir.

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