“Notas” – 12/04/2017

João Dória no “Roda Viva”

“O sr. não foi muito duro com o PT?”

“O sr. não usou termos pesados como ‘bandido’ sobre o ex-presidente Lula?”

Sim, qualquer líder de oposição ao PT deve ser interpelado nestes termos quando criticar com dureza o partido. É uma espécie de obrigação da classe jornalística colocar críticos do PT nas cordas. O sujeito ao entrar em um estúdio deve, pois, estar preparado para este interrogatório.

Não espero outra coisa como telespectador do “Roda Viva”, e estranho um político esperar.
Dória foi correto, até quando admitiu que o termo empregado para designar quem é acusado de ganhar presentes de empreiteiras foi inapropriado.

Mas deveria ter devolvido a pergunta:

“Quando o PT, por meio de sua militância virtual tratou com respeito adversários? Quando a imprensa eletrônica patrocinada pelo seu governo obedeceu a qualquer regra de civilidade política?”

Decerto ouviria que o entrevistado ali era Dória, mas seria uma atitude que demonstraria disposição para o enfrentamento. Esta demonstração de ânimo para a briga é vital para qualquer político. Caso não esteja no temperamento este desejo de se fazer temido, melhor lutar em outras frentes, penso.

Dória saiu-se bem quando indagado sobre questões do cargo que ocupa: Ricardo Setti (a melhor presença entre os jornalistas, diga-se) formulou a maioria destas questões sobre a situação do Centro, sobre o horizonte de fios elétricos, sobre o asfalto da cidade, entre outras questões de quem está disposto a ouvir um Prefeito que recebeu a cidade em situação difícil, e não montar armadilhas para o entrevistado.

Embora reiterando a descrição do que encontrou, Dória manteve-se na linha de respeito para com seu antecessor, de quem disse “gostar”. Todas as dificuldades enumeradas por ele substituem, com vantagem, discursos de ataque, e nisto a entrevista foi exemplar.

Agradou-me a franqueza com que respondeu sobre o programa (apresentado na gestão de José Serra, se não me engano) que tornaria a fiação subterrânea; inviável pelo custo em uma cidade gigantesca, sendo possível apenas cem quilômetros. Um começo. Fazer o que pode ser feito, este o tom que falta em muitos políticos.

Mesmo tom que Dória utilizou quando respondeu sobre o pagamento de precatórios neste momento. Reconheceu a dívida, mas foi conclusivo sobre a impossibilidade de honrar estes precatórios no momento. Não atribuiu culpas a terceiros, apenas esclareceu uma realidade de gosto amargo. Por que não é este o tom de quem tem que enfrentar populistas que anunciam o futuro com cachoeira de leite achocolatado?

Isto vem animando muitos admiradores de Dória; seria ele um homem que poderia ser a candidatura da Direita contra uma Esquerda ainda competitiva.

Mas ele parece recusar tanto o rótulo de direitista quanto uma candidatura no horizonte próximo. Ainda há muito a acontecer, e ele está certo em tomar resultados de poucos meses na Prefeitura (ainda que de uma megalópole como São Paulo) como dados a ser confirmados.

Os jornalistas bem que tentaram arrancar dele alguma indicação de desejo de tentar saltos. Ele sorriu, e o sorriso dos que sabem que só ingênuos planejam sem algo mais que entusiasmos de ocasião pode ter alimentado outras especulações.

Volto a dizer: foi um desempenho televisivo bom que poderia ser melhor.

Eu teria perguntado ao inquisidor Eugênio Bucci sobre sua avaliação do tom da imprensa simpática ao PT quando interpelado. Não é possível receber aquele tom de autoridade ética – quando se sabe que a imprensa foi sempre leniente com a conduta do petismo nas discussões nas redes sociais- sem contra-atacar com alguma indignação. A firmeza com que Dória reafirmou desgostar de Lula e do PT é elogiável, mas não suficiente.

Os outros jornalistas fizeram questionamentos que também mereciam algum sarcasmo na resposta, ou alguma demonstração de que eles estavam agindo ali como militantes, e não como jornalistas. Não guardei seus nomes, e quem quiser que procure no “YouTube” o vídeo. Irrita o tom de quem está ali apenas para defender a população de algum possível farsante. Este tom é recorrente ali sempre que um adversário do PT é o entrevistado.

Falando em entrevistadores, parece que os organizadores do programa (ou o apresentador, Augusto Nunes) escolhem sempre os mesmos, ou do mesmo perfil. Mais os mesmos nomes que o mesmo perfil, acredito. Isto causa um efeito de nostalgia quando lembramos do “Roda Viva” de outros tempos, com elenco de entrevistadores mais variado, mais rico. Ou quando assistimos no “YouTube” programas antigos do “Roda Viva”.

A impressão que algum telespectador pode ter é que São Paulo é cidade do interior, na qual se encontra nos mesmos lugares as mesmas pessoas, sempre.

Voltando ao João Dória, acredito que sua atitude é a do sujeito que quer avançar sem se envolver em brigas desnecessárias. O sujeito que acredita que, falando com firmeza na voz e com franqueza sobre suas intenções, desarma interlocutores mal-intencionados.

Bom, política não é assim.

Além da sinceridade e da atitude de homem honrado, o sujeito deve se preparar para a possibilidade de se atirar em disputas judiciais. Processar, e processar de novo, os que se mostram dispostos a destruí-lo com iniciativas de “desconstrução” de imagem. O Brasil virou isso. Ele deverá se acostumar com a cultura política em vigor caso pretenda continuar neste ramo. Esclarecer fatos nem sempre basta. Triste, mas é assim.

Roberto Campos atribuía ao Antônio Carlos Magalhães “o senso da jugular”. Este senso é vital para qualquer político. Sem ele, qualquer político vira pasto de quem o possui. O senso da jugular inclui o “timing”. Sem o “timing”, o político guarda irritações e as vomita na hora errada, da maneira que vitima apenas a ele próprio.

Esta entrevista me mostrou um João Dória com o senso da jugular ainda a se desenvolver.

Há tempo ainda. Mas não todo o tempo.

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