“Notas” – 21/04/2017

Sobre um Dia de Tiradentes

Não lembro de um 21 de Abril com tanto desânimo cívico; como celebrar um mártir da História do Brasil em momento que parece gritar ao Herói da Inconfidência que todo esforço político no Brasil foi, e é, em vão?

Não sei o que movimentos ligados ao esquema do Poder do PT planejaram para a data, mas não acredito que eles perderão a oportunidade de mostrar suas bandeiras e berrar suas palavras de ordem. Mas sei que os adversários deste esquema decerto buscarão a praia, o descanso, o esquecimento.

Como não buscar esquecer que as manifestações de rua propiciaram talvez o maior anticlímax de nossa História? Como não buscar no descanso força para continuar lutando após a traição da classe política? Como não se refugiar na estrada quando se sobrevive sob o peso do sentimento de corpo atado a um destino medíocre?

Tudo foi uma piada: as manifestações, as marchas com camisa da seleção, a torcida pelo impeachment, as vigílias  das sessões das duas casas que entravam pela madrugada. O fatiamento da sentença no impeachment foi a gargalhada. A classe política (não vou culpar o Sr. Renan Calheiros, se não fosse ele, outro o faria) salvou seu pescoço oferecendo como pagamento a abreviação de um mandato presidencial destinado à desmoralização da ocupante nominal e de seu partido (e apoiadores nas siglas associadas e a Imprensa), nada mais. Pechincha com a História, grande negócio.

Houve quem avisasse do que estava sendo encenado, mas eram vozes isoladas, tomadas como vozes que partiam do pátio do hospício. Os que riam, que apontavam o dedo aos “lunáticos” que percebiam a trapaça nunca apresentaram (e pelo visto nunca o farão) qualquer admissão de responsabilidade. Tudo parece ter sido uma fatalidade, uma maldade da “banda podre do PMDB” (como se o PSDB não tivesse sua parcela de culpa).

E prepara-se novo bote sobre o País: uma lei anti-abuso de autoridade que iniba procuradores do Ministério Público Federal e juízes.

“Ah! Mas esta proposta não é de hoje; é de X anos, não de agora.”

Sim, e tirada da gaveta em momento oportuno, não? Esta gente não se importa em parecer casuísta, e por que se importaria?

O PT e seus apoiadores nas siglas associadas e na Imprensa não clamam por uma mudança nos meios de comunicação, invocando a democracia? Tomam o exemplo norte-americano e outras legislações relativas às comunicações, de outros países. Quem não se anima a discutir mudanças neste modelo de comunicação de massas? Quem ignora que há de fato concentração de Poder em poucas famílias no Brasil?

Mas propor esta discussão quando se está no Poder e se é alvo de críticas e vigilância é um insulto. Os petistas e associados estão ainda no Poder, pois além de dominar o setor educacional e parcela considerável da Imprensa (sem mencionar o funcionalismo público), não têm contra si oposição que se possa considerar como tal.

E não esqueço de escrever que a palavra “Democracia” na boca desta gente é piada, é deboche, é insulto. Estas bocas acostumadas a ofender e intimidar apodrecem este vocábulo quando o hospedam.

Assim é o tal projeto anti-abuso de autoridade neste momento, levantado por quem o levanta; um insulto, uma corrupção de uma ideia digna.

Tudo no Brasil vira isto: um deboche de tudo que tente escapar do esgoto.

Houve dias menos miseráveis no Brasil; estudava-se o nosso subdesenvolvimento, buscando nos documentos alguma resposta. Intelectuais de Esquerda e de Direita se ocupavam do nosso Passado e de suas pistas sobre nosso destino. Hoje importam-se conceitos e vocabulários, e quem deveria ridicularizar este colonialismo ou é conivente, por covardia ou adepto, por esterilidade mental.

Não há nada a celebrar,enfim. Imagino se Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, não se arrependeria da obstinação contemplando o que se fez da Independência obtida anos depois de seu martírio.

Neste 2017, muitos Joaquim Silvério dos Reis salvam seus pescoços e suas bolsas, sem temor da História; vale tudo para defender o indefensável: invocar a “Democracia”, a sobrevivência das instituições, a vida econômica do País, as leis, o “Estado de Direito” (mesmo quando este é invocado para quem o despreza e trabalha para sua destruição), etc, etc.

Não censuro quem esquece o homenageado do feriado e se preocupa apenas com o trânsito até o destino; com o peso da certeza de que tudo acaba em nada, e de que se está só com seus problemas, a História é um luxo para intelectuais.

Esta maioria que busca fugir do inferno das cidades na véspera do feriado não é culpada, senão do pecado de não vigiar seus políticos.

Mas vigiar…para quê? Protestar… para quê?

Na estrada, se tem o trânsito enervante e a espera, mas não se é obrigado a usar nariz de palhaço. Na praia ou no sítio dos amigos, ou mesmo no descanso prolongado em casa, se tem a certeza de que o importante, o inadiável, é a vida com amigos e família.

O mais é ilusão.

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