“Notas” – 22/04/2017

Sobre mais um “Fim de Lula”

“Agora acabou”, concordam os leitores de “Veja”. “Não tem como este sujeito sair na rua depois dessa. Destruir provas é obstrução de Justiça.”

Encomendam foguetes, redigem textos para postar nas redes sociais.

Mas…defensores de Lula negam. Apoiadores de Lula já trabalham na tese de que Léo Pinheiro atingiu o grau de desespero no qual o sujeito aposta a delação premiada (se mentir, perde-se qualquer benefício).

E o jeito é cruzar os dedos na torcida por algum bilhete de Lula confirmar o empreiteiro.

Escrevo no blogue, há tempo, sobre a quase nenhuma probabilidade de Lula ter deixado algum fio que o comprometa nisto tudo. Qual homem teria alcançado o Poder, como ele o alcançou, cometendo erros primários? Não acredito que qualquer bilhete de Lula venha a ser encontrado. Quando muito, algum cartão de Natal…

Lembro nestas ocasiões um jingle entoado em um programa do PSDB, nos tempos de Fernando Henrique Cardoso presidente; a musiquinha acompanhava o anúncio de melhorias, melhorias estas conseguidas em meio a uma recessão:

“Se fosse fácil, alguém já tinha feito, se fosse fácil alguém já tinha feito.”

Fosse fácil destruir o Lula com base em testemunhos, esta destruição já seria História.

Talvez uma acareação entre os dois trouxesse algum desempate, mas conhecendo o talento cênico de Lula, acho pouquíssimo provável que ele se traia. Chorará, buscará socorro em sua biografia de retirante que fundou um grande partido e que alcançou a Presidência após três tentativas… ele sabe encenar a própria tragédia, como o grande artista que é.

“Mas ninguém acreditará”.

Talvez. Escrevo mesmo que ninguém fora da seita dará crédito ao seu desempenho, mas há na Justiça o benefício da dúvida, e ele sabendo disto não se afobará. Lula deve saber, político (e considero sindicalista um político) há décadas, que sua situação é mais confortável que a dos seus inimigos políticos; lidera pesquisas e inexistem provas contra si. Indícios fortes não são provas, e estes indícios não têm tirado seus votos ou intimidado seus apoiadores, profissionais ou espontâneos.

A Direita (o que se qualifica como Direita, ou é qualificada como Direita pelo PT) jogou, e continua jogando, todas as suas fichas na prisão de Lula. Caso tenha algum outro plano para 2018, não fez com que se conhecesse. Nenhuma autocrítica, nenhum esforço para formar quadros, nenhum gesto de renúncia ou audácia.

“Prendendo este sujeito, todo o resto virá por consequência.”.

Diziam o mesmo sobre o impeachment, e este inspirou novas caminhadas do PT. As reformas impopulares fazem notável trabalho por Lula. A única Reforma que seria popular, a do Código Penal (exigida pelos milhões que vivem amedrontados), é adiada para algum Futuro no qual mais alguns milhões já tenham sido assassinados.

Não há vácuo no Poder; o enfraquecimento de um não providencia o fortalecimento imediato do outro, como parecem acreditar os ingênuos. No caso, é temerário mesmo falar em enfraquecimento do esquema de Poder do PT. Há muito a ser feito, nada é garantido.

Ainda que Lula seja preso, quanto de Poder ou de influência seus apoiadores ainda não dispõem? Quais setores da sociedade estão ainda sob controle da máquina montada pelo PT e associados? A Direita (repito que este termo não possui no Brasil conotação precisa) ao menos está mapeando este bocado de herança política? Há algum projeto de substituição segura do PT junto aos setores que são fiéis à sigla que julgam ter melhorado suas vidas?

Estas perguntas dizem tudo, não eventuais respostas que elas possam ter. Os adversários do PT na Imprensa, os “formadores de opinião” que se mantêm na trincheira devem formulá-las a todo momento, e não considerar esta guerra terminada e vencida.

Sou um ingênuo, pois muitos sequer consideram este momento como uma guerra. Tomam este drama histórico como um contratempo, um descuido, um mal-entendido. Um engano provocado por deuses gozadores que quiseram se divertir com o Brasil, colocando-o sob o domínio dos piores no trato com o idioma.

Não estranho, pois, que decretem o fim de Lula após este depoimento de Léo Pinheiro. Os antigos apoiadores de Lula mudaram de tática (escrevi sobre isto no dia 15/04/2017) por outro motivo, mais realista: defender Lula seria problemático, pois as ligações com os empreiteiros não precisam ser provadas para que seu símbolo seja atingido. O negócio seria, doravante, defender as Esquerdas em geral e combater, com fúria ainda maior, o PSDB.

Este conhecimento de simbologia política parece ser tomado como excentricidade pelos adversários do PT, daí a confiança em algo ainda a ser provado.

Mas é este conhecimento que fornece segurança nas análises e previsões; saber que a Política se faz de símbolos, não de dados jurídicos. Quando se domina a mística do grupo, uma peça pode ser substituída no prazo médio, sem maiores prejuízos a um projeto de Poder.

Acredito que Lula saia bem dessa? Não.

Não que eu preveja sua prisão (ainda que esta seja possível) ou algo do tipo, mas sim sua desmoralização, seu retrato a óleo enfim borrado.

Mas acredito também que muitos dos seus adversários terão o mesmo destino.

Empate, pois, na mais generosa das hipóteses.

Nada a comemorar.

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