“Notas” – 26/04/2017

Sobre Eduardo Giannetti da Fonseca no “Roda Viva”

“O Brasil precisa de menos Brasília e mais Brasil.”

Bela frase de efeito; o País seria vítima de centralização política e econômica. Descentralizado, o Brasil seria mais funcional.

Quem o garante?
Um economista com currículo internacional, respeitado, autor de livros elogiados. Logo, considerar esta frase uma tolice pomposa criada por algum marqueteiro seria uma temeridade.

Mas quem garante também que a politicagem provinciana não é um dos males que atam o Brasil à tragédia do subdesenvolvimento?

“As reformas são inadiáveis, embora este governo talvez não tenha a legitimidade necessária.” esta frase cito de memória, e foi reiterada ao longo do programa, o “Roda Viva” desta segunda-feira.

Bom, penso que reformas que se pretendam duradouras devam partir de governos fortes, com legitimidade. Uma base aliada composta como sabemos ser as composições partidárias no Congresso não fortalece qualquer governo; estas reformas não poderiam, portanto, vir em hora menos apropriada.

Como um intelectual que se expressa de maneira fluente (nunca li nada de Giannetti, exceto artigos, escrevo sobre seu desempenho em entrevistas) e que se propõe a explicar os fenômenos politico – econômicos não consegue conectar estes dados? Como não consegue extrair dos números que recita com tanta graça a lógica do conjunto?

Liberais sofrem desta deficiência: visão fragmentada. A fluência com que fornecem diagnósticos é ofuscada pelas conclusões simplistas. O plano da realidade escapa dos cálculos da aritmética pura, ao que parece.

“Temos pressa então”, advertiu Augusto Nunes quando Giannetti lembrou dos estragos que as delações futuras na Lava-Jato deixarão na realidade política atual. As reformas dependeriam, pois, de bases precárias de sustentação.

Sim, votar a toque de caixa e depois ter que refazer um por um dos pontos que se mostrarem problemáticos, pois não discutidos e negociados como deveriam ter sido.

Como discutir política com esta superficialidade, com esta ausência de senso histórico?

As discussões no Brasil viraram isso: ou se faz determinada coisa ditada por algum cálculo elaborado por um tecnocrata, ou “o País quebra.” Ou se aplaude determinada plataforma de governo, em bloco, ou se é um sabotador, um obscurantista.

Giannetti, repito, se expressa com fluidez. Enumera as mazelas nacionais com alguma graça. Mas parece não conseguir notar que as lutas políticas são determinantes, e perto destas os primados econômicos são impotentes. Um governo desastroso, composto por uma reunião de carreiristas consegue estragar qualquer base econômica saudável. O que Dilma Rousseff fez com a herança de dois governos que seguiram (até certo ponto) os primados econômicos deveria servir como lição de que a política é o mais importante. Giannetti, como estudioso de pensadores do Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda, consegue identificar algum de nosso traços políticos, mas falha ao aplicá-los nas suas interpretações; parece ainda não ter percebido que no Brasil qualquer plano de racionalidade desmancha na demagogia trabalhada sobre a precariedade.

João Gabriel de Lima perguntou sobre as ameaças concretas às reformas do Governo  Michel Temer; alguns setores teriam como se colocar como exceções, no cálculo (apontado pelo jornalista) do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Giannetti admitiu então que modificações surgiriam destes embates, mas estas seriam melhores que nada. Bom, o problema é convencer os que não podem falar grosso e portanto salvar seus bocados, que o sacrifício cabe a estes setores pouco organizados e com pouquíssimo poder de negociação. Giannetti não consegue ver o desastre que resultará disto no médio prazo, parece.

Estas reformas serão os cabos eleitorais do PT, pois confirmam seus sindicalistas e professores. Não ver isto é cegueira política.

Há o perigo, avisa Giannetti, do Brasil virar, sem as reformas, um imenso estado do Rio de Janeiro; quebrado e sem condições de pagar pensionistas e servidores. Ninguém no estúdio teve a bondade de lembrar ao economista que o que quebrou o Rio de Janeiro foi uma mistura de irresponsabilidade e corrupção, corporificada na “farra das isenções fiscais”.

Todo defensor das reformas, trabalhista e previdenciária, usa o terror do futuro como arma de convencimento, não? O papel da política é ignorado, esquecido. Não parece haver espaço para soluções intermediárias.

Um outro ponto da entrevista que julgo merecedor de menção foi o momento em que Augusto Nunes questionou os traços do caráter brasileiro que Giannetti identificou como simpáticos à corrupção; quem rouba é a elite no Congresso, segundo Nunes.

Giannetti lembrou então de alunos seus que, criticando a corrupção da política institucional, procuravam “colar” nas provas. Concordo com Giannetti nesta abordagem negadora do romantismo, mas estranho que alguém lúcido neste ponto não desconfie da política que advenha desta coletividade de gente que nega a ética na prática cotidiana. Tudo demandaria mais que fórmulas recomendadas pelo economista, tais como “Menos Brasília, mais Brasil”. Há uma luta cultural profunda a se travar, uma guerra de mentalidades na qual os liberais não têm a menor chance de sobrevivência.

João Gabriel de Lima indagou sobre a depressão apresentada por Marina Silva (então assessorada por Giannetti) no último debate presidencial do qual participou. Giannetti admitiu que, sim, Marina estava deprimida. O massacre das redes sociais e da imprensa petista e parapetista (se não me engano, o entrevistado não identificou estas fontes da agressão sofrida pela candidata, tratando-a como algo vindo não se sabe de onde) teria atingido o ânimo, a energia vital de Marina Silva.

Estes agressores agiram como agiram porque encontraram alvos fáceis. A imprensa adversária do PT tratou de minimizar, e mesmo negar, seu poder de destruição. Eu próprio adverti o apresentador do “Roda Viva”, Augusto Nunes, sobre estes demolidores de reputações e recebi sempre conselhos sobre não perder tempo “com pobres diabos”. Escrevi sobre esta ameaça no meu blogue sem qualquer repercussão ou colaboração. Hoje, com o dragão robusto (qual dos blogues petistas fechou com o fim do Governo PT, como previram os arrogantes, falando nisso?) e expirando fogo, trabalhando pela volta do PT, estes senhores preferem fingir que a destruição veio de alguma nuvem escura, extraviada.

Liberais não identificam ameaças; simples. E esta deficiência deveria servir como impeditivo para a função de conselheiros políticos; que tratem de primados econômicos e frases de efeito apenas. Reconheçam, pois, a incapacidade de lidar com o Poder.

O azar do Brasil é que o Poder se disputa entre gente realista na Política e delirante no Governo e gente sensata no Governo e delirante na Política.

Alguém tem dúvida de quem leva a melhor nesta disputa?

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