“Notas” – 05/05/2017

Sobre a semana cruel de João Dória

Lua de mel acaba. A lua de mel da grande imprensa com João Dória parece estar chegando ao fim; não apenas os blogs alinhados ao PT estão críticos em relação ao Prefeito de São Paulo.

A semana começou com protesto de uma ciclista que entregou ao prefeito flores, flores que Dória jogou pela janela do carro no segundo seguinte, queixando-se do que considerava “invasivo”. Não deixa de ser uma agressão o contato pessoal entre um manifestante e uma autoridade, agressão que os movimentos políticos vêm tomando como forma usual de agir. Não basta mais esticar faixas, ou vaiar. Há que encurralar a autoridade e confrontá-la, olho no olho. Há quem tire de letra este tipo de provocação, há quem não tolere. E quem não tolera não pode ser político, penso.

As Esquerdas estão no jogo para valer, e não perdoarão o Prefeito que consideram um “coxinha” ter sido eleito no chão que consideram seu território, a periferia. Ele deveria saber disto. Basta ler o que se publica contra ele nos blogs do petismo (ou do parapetismo, o que não muda nada) para perceber que não imaginam qualquer convívio.

A Direita (ou o Centro-Direita, ou Centro-Esquerda, o que para o PT e associados dá no mesmo) parece não ter percebido ainda que vencer eleições é, cada vez mais, um estágio irrelevante para a conquista e preservação do Poder; ter militantes e/ou apoiadores vigilantes e operantes é o que importa de fato.

E acontece isto: uma manifestante conseguindo tirar o Prefeito do sério e fazendo (quando digo que ela fez, refiro-me à situação e não à manifestante, sim?) com que ele dê aos adversários a imagem-símbolo que eles tanto esperavam. Nem Dória fantasiado de gari foi tão emblemático, tão ao gosto dos que esperam o “grande escorregão”.

Tenho que lembrar aos leitores que Dória tem contra si não só petistas e parapetistas, mas a “turma descolada” que julga ser obrigação descer o malho na Direita (ou o que é identificado por) para ter o direito de criticar e satirizar o PT e os petistas. O twitter está repleto de gente do tipo. O Facebook também abriga os que acreditam salvar seus pescoços pelo expediente da “imparcialidade na crítica”.

Que Dória deveria ter feito? Talvez receber as flores e nada dizer. Exteriorizar seu desagrado com o tipo de abordagem com a cabeça mais fria. Escrever textos antes de qualquer entrevista também ajuda.

Ulysses Guimarães lembrou ao Fernando Morais, em entrevista para “Status”, que teve um professor de francês que ensinava que “o segredo de improvisar é não improvisar jamais.”

Um político deve sempre ter na ponta da língua a resposta que, ao ser emitida, dê a impressão de ter surgido ali, no exato instante em que escapuliu da boca. Como? Lendo sempre e escrevendo sempre. Aposto que este era um hábito de políticos como Carlos Lacerda, por exemplo. Ou de Antônio Carlos Magalhães.

Preparar o espírito para os embates que se sabe fatais.

Mas isto é algo fora de moda, parece.

Políticos se cercam de marqueteiros, e de jornalistas que recomendam “não perder tempo” com discussões. Não admira que em momentos em que sejam alvos de provocações fiquem sem palavras e reajam com impulsividade prejudicial.

A agressão sofrida pelo morador de rua pela Guarda Civil Metropolitana também foi desgaste aproveitado pela Imprensa. Registrada desde o início por um cinegrafista que me pareceu (posso estar enganado) ser um militante de Esquerda.
Ora, por que um militante filmaria isto, um acontecimento fortuito? Porque deve estar sendo um padrão de conduta da referida Guarda, oras. Simples.

O vídeo explodiu na internet, e mesmo ontem, após Dória ter se encontrado com a vítima e se desculpado, o estrago estava rendendo.

Precisava disto? Não haveria já uma queixa contra excesso desta sua polícia municipal? Um militante filmaria isto do nada, por estar sem o que fazer no momento?

O episódio me lembrou de reportagem que li na “Afinal”, nos anos’80: a Guarda Civil do prefeito Jânio Quadros fora batizada, pela sua truculência, como a “Guarda Pretoriana de Jânio”. Foi um dos desgastes que abateram aquela administração.

A Imprensa parece estar muito atenta ao atual Prefeito, pois ele vem surgindo como um provável candidato a presidente. A lua de mel acaba rápido em situações onde o ocupante do cargo parece talhado para candidaturas para cargos mais altos que eles ocupam. Não há espaço então para qualquer condescendência.

E João Dória já deveria saber disto.

Foi uma semana cruel, dois borrões em sua imagem em poucos dias. Ou ele se prepara mais ou será incinerado pelos que se preparam; preparação significando aí vigilância e estudo de maneiras eficazes de responder aos ataques. Sem respostas certeiras nos momentos nos quais elas se fazem necessárias, qualquer politico é pasto dos que se exercitam sem descanso para estas batalhas. A opinião pública quer sangue.

Também escrevi no blogue sobre institutos de formação de quadros nos partidos. É uma providência que vem sendo negligenciada; mesmo partidos que contam com institutos parecem não colher frutos, o que me parece indicar desleixo ao que se passa neles.

Mais uma temporada de destruição de lideranças pelo despreparo talvez lembre aos partidos de necessidades que não podem mais ser adiadas.

A Esquerda não tira estes cochilos.

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