“Notas” – 06/05/2017

Sobre a “soltura” de José Dirceu

“E soltaram o homem”, a indignação sintetizada nesta frase corre nas bocas dos que comentam notícias na Pça.Sete. As bancas de revistas daquele espaço do centro de Belo Horizonte sempre foram assembleias de populares. Meu pai me contou que soube do suicídio de Getúlio Vargas em um mural onde eram escritas as notícias do dia, perto das bancas, perto do Cine Brasil. Em minutos, udenistas e petebistas estavam discutindo, nas rodas que se formavam ali. Pelo que meu pai me dizia, todos os partidos tinham suas rodinhas entre o Cine Brasil e o Café Nice. Hoje…o PT anexou a Pça, mas não por culpa sua…

E a libertação, ainda que temporária, de José Dirceu, funcionou como estimulante intelectual onde a apatia pesa cada vez mais. As ruas do Centro estão sonolentas desde o impeachment. Desfiles do petismo (e dos seus associados) animam apenas quando tratam das Reformas do Governo Michel Temer.

Por que José Dirceu desperta esta paixão? Por que concentram-se na sua figura todos os símbolos do que se odeia no petismo? Não há gente no PT tão (ou mais, muito mais) arrogante como ele? E talvez não seja ele o líder máximo do partido.

Penso que a Imprensa ajudou a adornar Dirceu com os sinais mais compreensíveis às massas do que é o Poder: o burocrata maquiavélico, o cérebro por trás do líder carismático. Como Dirceu não é simpático, a “narrativa” assentou-lhe bem. O fato de um partido como o PT ter uma estrutura capaz de permitir que ele sobreviva mesmo a uma possível prisão de Lula deveria negar estas fantasias, não? O super burocrata é substituível, o cérebro por trás do “peão com carisma” (como a Direita se recusa a abandonar este consolo!) não dispõe de todas as respostas. E o partido não depende dele preso, ou solto.

Ocorre que fantasmas foram cultivados por Imprensa que não quer trabalho maior que este: criar fantasmas e combater fantasmas. E assim, decisões sobre habeas corpus são alçadas ao nível das decisões jurídicas determinantes, e estas ao nível dos fatos políticos. Perdeu-se o sentido das coisas, em suma.

Esta gritaria que se seguiu ao voto de desempate do Ministro Gilmar Mendes me parece um efeito colateral de algo positivo: o interesse da população pelos votos dos ministros do STF. Mas efeito colateral ainda assim; a discussão escapou do mérito legal para hipóteses de motivações políticas. A Direita e a Esquerda concordaram como nunca.

Não tenho reparo a fazer, neste particular, ao que Reinaldo Azevedo escreveu e disse no seu programa de rádio. Não há como não ver que a discussão política sofreu um rebaixamento quando um voto de habeas corpus causou a mistura de fúria e pânico que se seguiu.

Não parece haver outros meios de se combater o PT e os petistas. Confiou-se demais na saída jurídica, ainda que esta seja incerta; pode haver absolvições ou penas que não signifiquem derrotas definitivas para o PT e seus líderes.

Não parece haver plano B, pois não parece haver plano, simples.

Tomaram a “Lava-Jato” como um remédio para tudo que foi negligenciado na luta política. Ou como substituto para a luta política. Os tribunais fariam o que a Imprensa não fez. O que institutos de formação de quadros (existem?) não fizeram. As leis (ainda que incompletas) cuidariam do que intelectuais e políticos não fizeram: o combate político.

Muitos insistem neste delírio, ainda que universidades e movimentos ditos sociais não tenham a preocupação de esconder que não estão dispostos a aceitar punição para o partido que apoiam. Resistirão com violência, se ela se fizer necessária. Faz sentido; se não há leis eficazes para intimidar setores organizados, não agir é até um crime.

Não se pensou nisso. Não se viu necessidade de refazer algumas leis nestes anos todos, compreendem? Não se imagina que o Estado possa ceder aos que se organizam.

“Com o impeachment e a prisão de Lula, eles verão que perderam a parada”.

Este tipo de raciocínio é encontradiço em artigos dos que preveem há anos a morte do PT. Previsões que a História, esta caprichosa, teimou em não confirmar desde a reeleição de Lula após o “Mensalão”. Ele se reelegeu, fez a sucessora e agora ameaça voltar.

Estas mistificações vendidas por quem deveria esclarecer as massas ajudaram a formar um símbolo – José Dirceu, livre da prisão preventiva- que abate os que confiam na “Lava-Jato”, pois veem sua libertação como o final de um ciclo de recuperação da confiabilidade do País.

“Se soltaram José Dirceu, o que mais não farão?”

Não deposito minhas esperanças nas decisões que seguirão tecnicidades que me escapam, e escapam aos que acompanham estas decisões como aos campeonatos de futebol.

Acredito em combater os pilares que sustentam o partido, suas ramificações e correias de transmissão. Acredito em fortalecimento de jornais e blogs inimigos do partido, e não em punições que atingirão, se muito, peças da estrutura, e não a estrutura que as substitui sem dificuldades. Pois jornais e blogs adversários do PT fortes poderão formar uma opinião pública que será inimiga mais temível que mil decisões judiciais. Pois fazer com que lideranças petistas caminhem pelas ruas temendo o povo me parece algo mais desejável que transformá-las em mártires presos.

Mas esclarecer os “formadores de opinião” sobre a lógica do Poder é missão acima do que posso. O que posso é escrever, e escrevo.

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