“Notas” – 11/05/2017

Sobre o depoimento de Lula em Curitiba

Ricardo Boechat está certo: foi um “anticlímax”.

Anunciado como o encontro político deste século, no Brasil, foi uma sessão longa e previsível. Previsível demais. Mais um “duelo” do tipo e se desmoraliza, de vez, a palavra “duelo”. Mas o que não se desmoraliza no Brasil?

Carlos Lacerda disse, no “Depoimento” (sessões de entrevistas lançadas logo após sua morte) que no Brasil ninguém se desmoralizava. Concordo em parte. Pessoas não se desmoralizam ante seu público, mas conceitos …

A Direita vinha contando os segundos para o dia em que Lula “sairia algemado” da sala de audiências. Memes comemorativos às dúzias…

Esqueceram estes comemoradores de véspera que uma audiência do tipo não costuma ser jogo decisivo. Depoimentos mais teriam que ser feitos, e outros tantos estágios até o que anunciam como o “Grande Dia” chegar.

Quem acompanha este blog sabe o que penso destas esperanças. Sou um cético quanto à destruição de Lula e do PT por este meio; mesmo “destruído”, que preparam os inimigos do petismo para o momento histórico seguinte?

Lula agiu no depoimento como o general do grupo hegemônico no Brasil, nada menos.

Como observou o advogado Jorge Béja, na “Tribuna da Internet”, em artigo publicado hoje sobre o depoimento, “seu tom de voz foi de extremada arrogância”. Béja observou que Lula serviu-se de água mineral pelo gargalo, ignorando, com altivez, os copos sobre a mesa. E devolvia perguntas com perguntas atrevidas, propondo hipóteses e comparações entre o juiz e ele. (Leiam o artigo do Jorge Béja, recomendo)

Eu, que assisti os cinco primeiros vídeos disponibilizados no site de “Veja” na íntegra e trechos dos seguintes, me incomodei com o tom de Lula, seus sorrisos de deboche, suas respostas ao juiz antes deste terminar as perguntas. Béja observou outro ponto que a mim também pareceu significativo: o modo como Lula arrancava as páginas da mão de Moro e os devolvia, sem o menor temor de parecer agressivo, quase jogando as folhas sobre a mesa. Seu modo de falar não expressava qualquer respeito; seja ao juiz, seja à ocasião.

Penso que o preâmbulo de Moro contribuiu, e muito, para Lula considerar a sala de audiências um chão todo seu. Para que anunciar que Lula não seria preso? Por qual razão se deveria adiantar “respeito” à figura do interrogado? Lula merecia o respeito devido a qualquer depoente, não mais que isto. Tratado como um depoente “especial”, Lula não se fez de rogado. Representou seu papel de “figura histórica em depoimento” com carinho.

Reinaldo Azevedo se impressionou com o Procurador que dirigiu-se a Lula como “Sr.Luiz Inácio” no lugar de “Sr.Ex-Presidente” (tratamento dado por Sérgio Moro). O advogado de defesa, que interrompeu, sem o menor respeito à figura do Juiz, a palavra de Moro diversas vezes, ponderou ao Procurador que este (invocar o depoente pelo nome e não pelo cargo) não seria o tratamento mais adequado. Tudo bem. Mas Lula também não se portou como o protocolo exige. Respondia ao “Sr.Ex-Presidente” com “você”, “lhe responder” (no lugar de “responder ao Sr.”) e outras informalidades sem sofrer qualquer advertência.

Foi, enfim, mais um show de Lula, como foi o depoimento de Brasília.

Me pergunto pela necessidade de propiciar este palco ao líder máximo do petismo; uma teleconferência seria mais proveitosa e menos desgastante, penso. Uma acareação com os depoentes que o acusam seria também melhor. Mas entendo as etapas do processo, e não me imagino ensinando Sérgio Moro como agir.

Tenho lido sobre possíveis consequências das acusações de Lula à Polícia Federal e ao Ministério Público (ao qual não teve também cuidados de parecer respeitoso no depoimento), e me pergunto se agirão de maneira a fazer com que Lula seja mais cuidadoso; blogueiros do petismo referem-se de maneira desrespeitosa à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal sem sofrer maiores sustos, logo…

A Direita (isto inclui quem é apenas adversário do esquema de Poder do PT) teve mais uma lição sobre expectativas; espera-se demais do que não depende da sua vontade enquanto negligencia-se o que de si apenas depende. O que falta de organização e união sobra de crença em momentos que se acreditam decisivos. E o resultado é este: de um depoimento de horas pouco se andou; contradições de Lula colhidas por Moro ainda não determinam o futuro deste processo. E menos ainda o futuro do Brasil; Lula ainda é uma possibilidade para 2018, esta é a verdade amarga.

Os petistas comemoram o que consideram uma vitória (mais uma), e simpatizantes da Lava-Jato pinçam trechos do debate para declarar vitória de Moro. A interrupção do discurso de Lula, com a lembrança de que TVs seriam palcos mais adequados, é forte quando lida; assistida, parece fraca frente ao desrespeito de Lula; falando alto e apontando os procuradores.

Como escrevo desde há meses, pouco espero disto tudo; não vejo ação concreta do lado adversário do PT que justifique qualquer comemoração. Penso que o impeachment esfriou ânimos, o que explica a obediência ao apelo de Moro para que simpatizantes da Lava- Jato não fossem a Curitiba. Claro que considero que, se este depoimento tivesse como palco o pré -impeachment, a militância do PT seria ainda menor e mais tímida. Como ela estava por aqueles dias que parecem longínquos.

Uma tarde que não me convenceu de que eu estou errado há meses sobre estas explosões, ou promessas de explosões…

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