“Notas”- 12/05/2017

Sobre o boicote a “O Jardim das Aflições”

Amigo e leitor me telefona querendo saber o que penso sobre o boicote dos cineastas ao filme de Josias Teófilo sobre Olavo de Carvalho, “O Jardim das Aflições”. Pergunta se escreverei a respeito, e respondo aqui ao amigo:

Bom, o que há de novo?

Quando os círculos literários não agiram como tribos com bençãos e maldições? O sonho de algum aspirante a astro pisoteado por conta de algum pormenor que tenha desagradado aos caciques é parte da estrutura destes edifícios, não?

Lembro do personagem de  Eça de Queiroz em “Os Maias” recusando um colaborador para sua revista literária por reprovar o corte de sua roupa…

Vi professores na Universidade catalogarem alunos em ideologias por seus cortes de cabelo…

Assim é o chamado “meio cultural”, as exceções sendo exceções; em séculos quantos círculos de gente talentosa de fato surgiram? Quantas revistas literárias e/ou de ensaios político-culturais vingaram e tiveram vida prolongada? Fossem muitas, e muitos estes círculos, não conseguiríamos nomeá-los com a facilidade com que os nomeamos, os identificamos e os citamos nas nossas projeções de rodas culturais às quais gostaríamos de ter feito parte, não?

A regra é o oposto: panelinhas e grupetos funcionando para panelinhas e grupetos.

E o meio cinematográfico, e falo do Brasil, é continuador desta tradição. Grupos como os do “Cinema Novo” e o “Cinema Marginal” eram grupos fechados. De gente talentosa, mas aldeias com seus tabus. O que veio depois…

Deve haver cineastas de talento, não discuto. Mas o sentimento de adesão (e obediência) aos mandamentos do clube parece ser maior que o das gerações precedentes, e superior ao talento de seus membros. Lembro do Neville D’Almeida e sua definição do “Cinema Mauricinho”: dócil ao “politicamente correto” e ao espírito de rebanho. Escrevi sobre isto no blog, procurem os interessados.

E com estes dados em mente, não posso me assustar com o boicote de cineastas ao filme do Josias Teófilo; para mim isto nem é notícia. Quando li as justificativas de cineastas para retirar seus filmes do dito festival em protesto, pude adivinhar suas feições e perfis. E ao verificar, me vi confirmado.

Aposto que, caso tenham perfis em redes sociais, mensagens pró-PT são como uniforme.

Na Universidade, assisti muito o desfile destes seres de alma coletiva, e não tenho o direito à surpresa por nada que estes façam.

Não sei a intenção de Josias Teófilo em apresentar filme com um personagem tão indigesto a este coletivismo em um festival; certas provocações são ingênuas pela sutileza.

Por que penso que foi provocação do cineasta a inscrição de seu filme?

Porque seria como inscrever em um festival conservador, direitista, um documentário sobre algum pensador da Esquerda. Hoje tudo se dá neste nível de arquibancada. Alguém duvida que admiradores mais apaixonados e primitivos do Olavo de Carvalho não agiriam como estes esquerdistas fossem eles o elemento hegemônico?

Eu, fosse um documentarista independente (e por isto catalogado como “direitista”, ou “coxinha”, ou “reaça” lançaria meu filme em outros círculos, menos totalitários.

E se não os houver?

Que se incentive a criação de círculos independentes deste meio da casta acadêmica. Talvez este evento seja um aviso de que não adianta diálogo com quem demonstra, com insistência, não querer dialogar. O meio “cultural” é deles, e ponto. Negar isto é negar a realidade acreditando que tal negação transforme esta realidade. Não transforma.

O problema é que direitistas, ou independentes catalogados como direitistas, não curtem muito se organizar para formar círculos independentes. Não é? Tendem a tomar qualquer iniciativa do tipo como coletivista. O indivíduo se unindo contra inimigos parece ser obviedade estranha aos que conheci, pelo menos. Vejam como direitistas sabotam e boicotam outros direitistas e vejam como esquerdistas se unem e se promovem, mesmo quando discordam, e entenderão a hegemonia da qual desfrutam.

Escrevo isto como blogueiro nada promovido por leitores, e que assiste blogueiros da Esquerda serem promovidos, citados, celebrados…sim, eles fazem por onde dominar todos os espaços. Citam uns aos outros mesmo para criticar;  promovem, sempre mencionam seus pares, e formam assim seus círculos, sempre renovados, de celebridades. Entre nós, os adversários deles, não importa se direitistas ou meros independentes (como me qualifico), o silêncio sobre colegas de trincheira é a regra.

“Promover Fulano? Ele não é meu amigo.” ou “Ele não é do meu círculo, e quer saber? ele não tem este talento que ele imagina. Um período de ostracismo talvez faça bem a ele.”

O Brasil parece não ter futuro com este padrão de mesquinharia, à Esquerda e à Direita. Sei que há intolerantes em outros países, mas há círculos alternativos que conseguem fazer com que o ar circule. Aqui não, todos são inimigos do lado de fora do banquete; a cada osso arremessado à rua, muitos são os massacrados na disputa por uma lasca.

O filme de Josias Teófilo, pelo pouco que vi, é primoroso. Bem fotografado, bem editado, não é filme que possa ser rejeitado, por um espectador honesto, como mero exercício de idolatria “olavete”. É companheiro digno de outros grandes documentários brasileiros, de outra geração, menos medíocre e uniformizada.

E isto talvez tenha agredido estas almas sensíveis da Esquerda; onde o documentário deles sobre o cotidiano do réu Lula? Ou da presidente deposta? Acaso não dariam bons filmes?

A qualidade e competência alheia em ofício comum machuca muito fundo.

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