“Notas”- 18/05/2017

Sobre um certo provérbio japonês

Meu pai gostava de me repetir certo provérbio japonês:

“Ri-se o Diabo de quem faz planos para o ano seguinte.”

Quem contava com o que aconteceu ontem, fora dos círculos da Lava -Jato e da Policia Federal? Quem adivinharia que tudo iria se esfarelar de minuto para outro?

Planos de aprovação das “Reformas”, expectativas para crescimento da Economia…

Tudo é Passado já.  Tudo é “jornal velho”.

O máximo de possibilidade para planejadores neste momento tem relação apenas com o cálculo de possíveis minimizações de danos, ou exercícios de imaginação sobre o tempo depois deste desastre. A corda roça o pescoço da classe política atual quase toda.

Por ironia, isto se dá em momento histórico no qual o exercício dia-a-dia da Política foi substituído pela miragem dos atalhos mágicos; remove-se uma Presidente incompetente do cargo (as comprovações de sua participação nos “malfeitos” ainda era incerta) e, pronto! tudo estará encaminhado para que o Brasil abandone sua vocação para o atraso e o improviso.

“Dilma caindo, o resto será o resto.”

Nada de planejamento, nada de estratégias de substituição de quadros em todos os níveis. A Direita (ou que responde por ela nos dias em que qualquer objeção ao petismo serve para que seu portador seja catalogado na Direita) não se preocupou com isto. Querem saber? Nem se preocupará, duvido que colha qualquer lição do que está acontecendo.

Poucas vezes na História a advertência do Evangelho sobre vinho novo em odre velho foi tão desprezada; acreditou-se que mantendo toda a estrutura de um arranjo político nocivo ao País, a caminhada ainda assim seria possível caso se operassem remendos. E não é assim, os vícios minariam qualquer espírito de recomeço.

A Lava-Jato seria desmoralizada caso não se avançasse sobre lideranças do PSDB e do PMDB, e alguns analistas não perceberam (ou se obrigaram a não perceber, o que dá no mesmo) que esta probabilidade ameaçaria o equilíbrio artificial proporcionado pelo impeachment de Dilma Rousseff.

“Sem o impeachment, o Brasil viraria a Venezuela”, repetem os crentes da solução improvisada.

Bom, ano e alguns dias depois, temos a incerteza total sobre nossas cabeças.

Não imagino o que poderá sobrar disto que responde por classe política. O socorro que substituições apressadas poderão proporcionar é duvidoso; não é difícil imaginar que alguns nomes serão logos impugnados pelos fatos.

Cristiana Lôbo, ontem, no “GloboNews”, observou que nenhum líder da então base aliada do Governo Michel Temer permaneceu no recinto do Congresso Nacional após a explosão da reportagem de Lauro Jardim, em “O Globo”; o Governo não tinha sustentação de fato, pois.  Isto me lembrou de entrevista de Ulysses Guimarães ao Fernando Morais, publicada na “Status” em 1978. Em certa altura, Ulysses lembra da renúncia de Jânio Quadros:

Ulysses, tendo ouvido falar da renúncia, mas sem a certeza, telefonou (pisando em cascalhos, cuidadoso, sem tocar no assunto de frente) para Auro Moura Andrade, então presidente do Congresso, e este logo ordenou que Ulysses fosse ao Congresso defender a aceitação da renúncia contra possíveis contestadores. Ulysses sentou-se apreensivo no Plenário, sem saber o que dizer quando algum orador pró-Jânio tomasse a palavra para defender alguma providência do Congresso. Auro Moura leu a carta -renúncia, releu-a (“Por que foi fazer isso?” angustiava-se Ulysses) e …nada! Nenhum orador se manifestou. Era nenhuma a base da Jânio àquela altura.

Assim terminam os governos, ainda que seus ocupantes nominais não renunciem, ou não sejam cassados. Há um ponto no qual nem contínuos atendem mais qualquer ordem. Quem não lembra do discurso de posse de Fernando Collor no Senado, no qual o ex-Presidente recordou o instante exato em que não se sentiu mais Presidente? Segundo o hoje Senador por Alagoas, um pedido seu a um piloto da aeronave que o transportava foi recusado, o piloto alegando pouco combustível. Era a senha.

Michel Temer evitará ao máximo a renúncia, mas isto só dilacerará mais sua autoridade. Não há base parlamentar substituível no médio prazo e sua popularidade hoje é mínima, quase nenhuma (não duvido que esteja,a esta altura, nula).

Aécio Neves pode se considerar página virada. Passado.

Ontem, Eliane Cantanhêde, também no “GloboNews”, não deixou de mencionar o episódio do helicóptero com a carga de meia tonelada de cocaína. E isto é também uma senha.

Se é verdade que Michel Temer não tem mais (se é que teve um dia) base parlamentar, ontem ficou comprovado que conta com Oposição ágil e vigorosa; lançaram (com prontidão invejável) pedido de impeachment, além do grito de “Diretas, Já!”, indiferentes à Constituição.

O “Pós-PT”, com o líder máximo, Guilherme Boulos, já ocupava ontem a Av.Paulista. E isto desmente tanto otimistas do PSDB (e associados) e PT (e associados); ambos estão atingidos de morte pelos acontecimentos de ontem (e de hoje). Por mais que neguem uns e afetem euforia outros. Não há motivos para sorrir, exceto para os setores da Esquerda que souberam calcular substituições, lá atrás.

Enfim, tudo que era válido até ontem, nada mais vale. É passado. É fumaça.

As bolas de cristal não deram o alarme.

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