“Notas”- 19/05/2017

Sobre “complôs”

Leitores com os quais converso me perguntaram sobre a possibilidade de um complô contra Michel Temer; eu não estranharia “coincidências”, não estaria acreditando com rapidez no “GloboNews”, etc, etc.

Reinaldo Azevedo na “Folha de S.Paulo” de hoje defende a tese do complô contra Temer. O Ministério Público estaria agindo como um partido político, ou movimento místico, no sentido de usurpar o Poder.

Bom, os petistas não argumentavam assim quando oposicionistas sustentavam que Dilma Rousseff deveria ser retirada do cargo? Sempre há tese do complô quando se deseja ver um complô; há quem sustente,por outro lado, que a Presidência possa ser ocupada por alguém cuja autoridade esteja sendo colocada em questão. O que se espera obter como provas, como argumento conclusivo?

Não consigo ver na frase “Tem de manter isso,viu?”,  quando esta vem após menção ao pagamento de um preso para que este continue silencioso, algo natural. Penso que muitos tendem a considerar a frase como condescendente, no mínimo. RA defende que Temer respondeu assim à informação sobre o pagamento ao Eduardo Cunha por não ser “chefe” de Joesley Batista. Ordenasse que este pagamento fosse interrompido assinalaria esta condição, segundo Azevedo. Um comentarista da sua coluna na “Veja” observou que sua resposta também pode ser considerada resposta de “chefe”. Acrescento que o final da frase, o tal “Viu?” é mais que anuência, soa como ordem, ou recomendação enérgica. Digo mais: o silêncio já seria comprometedor. A resposta deveria ser algo como : “Estão pagando pelo silêncio do Cunha? Não pode ser. Ele está extorquindo vocês?”

Isto é o que sei da gravação, o que ouvimos todos. O restante, o que vem pela boca do delator apenas pode ser contabilizado como algo controverso, mas se levarmos em conta este aspecto da questão, esta condição do “palavra de X contra palavra de Y”, muito do dito até agora sobre Lula, cabe nisto também (nisto RA está sendo coerente, ele sempre defendeu que muito do material das delações contra Lula não seriam, a rigor, provas). Mas muitos que colocam em dúvida delação do dono da JBS não percebem esta incoerência.

Contabilizar os supostos beneficiados por este quadro de quase vacância da Presidência também não ajuda. Petistas também elencaram os satisfeitos com a queda de Dilma Rousseff.

O fato é que Temer não conta com apoio no Congresso, e este era o apoio que tinha para governar, ponto. Perdido este apoio, sua permanência no cargo é inviável, e que seus defensores não entendam isto mostra que não entendem na verdade o que seja o Poder. Imaginam o Poder como o cargo, não os pilares que o sustentam.

O que escrevi ontem sobre Aécio Neves não penso que careça de reparos, apenas pela ausência de algo concreto (por enquanto). Escrevi sobre danos à imagem do presidente (agora ex) do PSDB que imagino irreversíveis, insanáveis. E o que seria algo concreto, neste caso? Volto a citar Reinaldo Azevedo: o jornalista julga natural um Senador pedir um empréstimo a um grande empresário para pagar seus gastos com advogados. Eu não. Sendo este empresário alguém com negócios que dependam de regulamentações, um vínculo desta natureza com um político merece ser examinado.

A internet está repleta de opinadores que procuram indícios de “algo que não cheira bem”. Os fatores e os personagens envolvidos parecem não contar; não levam em conta que um complô desta natureza envolveria algum imprevidente, não? Algum deslize, alguma falha apareceriam, já teriam aparecido,não teriam como não aparecer.

“Os vermelhos se reuniram rápido demais para protestar, não?”

Eles são organizados, e sabem utilizar com eficiência canais de contato, redes sociais. Não são como direitistas que utilizam internet apenas para “hatear” e mostrar erudição vazia (falo dos “cultos”). Apoiam-se, não se sabotam uns aos outros. Divulgam páginas afins, não promovem boicote aos que possuem inimigos comuns. E, afinal, o que consideram rápido nesta movimentação das Esquerdas anteontem? a notícia já estava circulando havia horas.

“E as reformas como ficam?”

Voltam ao plano das questões que precisam ser mais discutidas, analisadas e negociadas, e isso é bom, não? Caso urgentes, haverá quem se lembre de se atentar a elas, penso.

Há uma confusão, compreensível, em muitos que imaginam ser esta crise algo advindo de estrategistas do PT. Vislumbram beneficiados onde não os há. Compram a sugestão dos petistas que celebram de boca vitória que sabem não existir. Como a Imprensa pouco fez no sentido de formar leitores críticos do noticiário, e concentrou sua energia na promoção de torcidas, algo tão abrupto provoca imaginações. Enredos ilógicos ganham verossimilhança.

Continuo pensando nesta crise como algo inevitável, consequência lógica de um impeachment que não era a solução mais adequada para o erro da eleição do PT. Escolheu-se manter um esquema de sustentação parlamentar viciado, e uma hora isto explodiria. Conforme o ponto de vista, foi explosão antecipada, ou adiada. Antecipada para quem acreditava ser possível esperar até 2018 com um quadro de fragilidade; adiada por quem acreditava que o impeachment deveria ter atingido a chapa, e não apenas a Presidente.

Complô ou não, vejo os acontecimentos recentes como sintomas da degradação do organismo político atual, desta democracia de eleitores não-leitores. O corpo apodrecido emitindo seus sinais de putrefação.

Há quem prefira tomar anestesia como cura.

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