“Notas” – 20/05/2017

Sobre a capa da “Veja”

“Uma capa histórica. Merece ser recortada e guardada, talvez emoldurada.”

Não, não havia qualquer mea culpa da publicação, qualquer promessa de mudança editorial. Não li a “Carta Ao Leitor”, mas não acredito que a revista tenha reconhecido que vem praticando jornalismo superficial e ligeiro.

Onde o Brasil chegou não foi por acaso; imprensa pouco crítica dividiu-se em duas torcidas e abandonou análises e projeções resultantes destas. Tomou-se um impeachment por remédio contra os males da Política e o resultado é este: o Brasil sofre a possibilidade de mais uma remoção de um Presidente, em menos de dois anos.

Acredito que o governo de Michel Temer chegou mesmo ao fim, mas não sou otimista no médio prazo sobre sua sucessão, com as possibilidades que se conhecem. Seria o caso da escolha menos péssima, nada mais. Muitos esperam que seja Cármen Lúcia, mas ela por si não resolverá muita coisa até 2018.

Um “Basta!”devemos gritar à democracia dos eleitores não-leitores, à democracia sem vigilância eficaz da imprensa. Quantos destes escândalos foram cobertos como deveriam por esta imprensa que anuncia novos tempos? Não houve torcida demais e fiscalização de menos? Não lembro de capa sobre os empréstimos do BNDES, por exemplo. Matérias extensas, como eram as da revista em outros tempos. Entrevistas com economistas críticos à política das torneiras abertas aos amigos sendo matérias de capa talvez tivessem constrangido autoridades. A imprensa como olho da maioria que paga as contas.

Mas não! Basta derrubar esta gente, esperar algum escândalo que coloque este partido para correr, e pronto! Neste intervalo, capas sobre dietas e sobre avanços no combate à senilidade sexual, claro. Matérias de página, página e meia, assinadas por uma junta de jornalistas.

Foi assim nos governos petistas, e foi assim também neste governo que “Veja” tenta sepultar com uma capa grandiloquente. Jornalismo ligeiro para consumo nas salas de espera de consultórios. Nenhuma edição que mereça ser guardada, como diversas o foram nos dias em que a revista era leitura obrigatória, coisa de mais de vinte anos passados.

Não, não me empolgo com estas encenações de “A História Vista de Perto” na forma de capas bombásticas; a “Veja” praticou um jornalismo que não foi de ajuda na luta política contra um esquema de Poder que buscava sua perpetuação via empréstimos aos empresários amigos e cooptação de políticos medíocres. Não consigo acreditar que muito do que está vindo à tona não poderia ter sido investigado, pois o que não falta em Brasília é fonte.

Helio Fernandes sempre traz coisa nova no seu blog, idem a “Tribuna da Internet”. Não é possível, pois, que “Veja” (que conta, ou deveria contar, com recursos maiores) não pudesse rechear suas páginas com muitas informações, muitas entrevistas com descontentes que puxassem alguns fios. Mesmo sem uma delação arrasa-bairro, é possível constranger poderosos com questionamentos sobre empréstimos de bancos oficiais e medidas provisórias generosas com os grandes empresários.

Não me lembro também de capas sobre o tipo de arranjo do que se chama de “governabilidade”, o que custa ao País em dinheiro e na cultura política; o Brasil rebaixado a um arraial de politicagem e compadrismo. Não é possível que estes arranjos de bastidores não sofressem quaisquer questionamentos em todos estes anos; o épico da repulsa à política menor veio tarde, com muito já destruído.

Cuidou-se dos aspectos mais chamativos da luta PT x PSDB, e esqueceu-se de abordar possíveis situações intermediárias; nem o Impeachment animou “Veja” a dar capa aos oradores que se revelaram ao Brasil como grandes oradores e combatentes da Oposição ao então governo PT. Não se criou muita alternativa ao quadro político atual, esta é a verdade. Os eleitores nem podem ser culpados, no fim das contas; escolhe-se entre duas realidades dadas como as únicas possíveis. E que pela cobertura que recebem, acabam sendo mesmo.

E com esta aridez editorial, esta estreiteza de campo hipotético, a revista anuncia um novo tempo de decência e serviço aos brasileiros, fartos de tanto assalto. Sem qualquer reconhecimento de culpa por não ter alertado com a insistência que o assunto exigia, sobre o que o Brasil teria de fato até 2018, ou seja o esquema de Poder que sustentou, até a véspera do impeachment, o governo do PT. Deveriam ter avisado que era o péssimo possível, nada mais. Que os brasileiros escolhessem melhor na próxima.

Nem sei como estão os números de venda em banca e de assinaturas da publicação; não confio nas comemorações dos adversários da Ed.Abril, os blogueiros pró-petismo. Mas acredito que a internet não a tenha poupado do estrago que causou à imprensa como um todo.

Penso que textos de qualidade e reportagens caudalosas são as armas contra a concorrência desleal; oferecendo o que a internet não pode oferecer, mantém-se de pé. Estes dois ingredientes têm faltado em “Veja”, talvez mais do que nas outras revistas. Ou o padrão que “Veja” estabeleceu em outros tempos torne este declínio de qualidade mais visível que as outras. É desagradável concordar com os críticos pró-imprensa petista nas críticas, mas há aspectos que considero difíceis de serem respondidos, como a superficialidade e o predomínio da opinião sobre a reportagem.

Quando a Imprensa, como um Poder que é, não se compenetra de que precisa mudar, não assume falhas, e não toma como dever sua auto-análise e o consequente desafio de se aprimorar, como esperar que a Política, fruto de vícios estruturais, possa apresentar qualquer avanço? Como esperar que políticos eleitos em um sistema que se prova esgotado sejam menos nocivos ao País quando a Imprensa que se acredita a vanguarda da democracia não se obriga a renascer também?

Há de fato um Brasil novo surgindo; partidos políticos convencionais desmoralizados  e crescente organização por setores não-governamentais. Será enfim a vitória do “Pós-PT”, pois a Esquerda vem se preparando para isto há anos. “Veja” o percebe? A revista se colocou a hipótese do que parece ser o Futuro? Ele chegará, talvez antes do que se imagina.

Teremos então a próxima “capa histórica” da “Veja”.

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