“Notas”- 25/05/2017

Sobre a saída de Reinaldo Azevedo de “Veja”

Foi a notícia sobre jornalismo da semana, ou do ano, ou dos últimos anos; o fim do blog do Reinaldo Azevedo na “Veja”. Ao buscar por seu nome encontrei as chamadas sobre “o grampo que derrubou Reinaldo”. E, procurando saber, encontrei uma explosão de talco. Uma bomba de fumaça, um truque de mágico de circo mambembe.

Não havia nada que comprometesse o jornalista com as investigações sobre sua interlocutora Andrea Neves. Uma conversa entre um jornalista e uma fonte, de fato. Mesmo dois jornalistas com os quais Reinaldo Azevedo se atritou (vem se atritando, na verdade) nos últimos meses, Olavo de Carvalho e Joice Hasselmann (e que foram, de longe, os mais sensatos e equilibrados nos comentários sobre este episódio), registraram que a conversa tornada pública nada tinha de criminoso.

O que houve foi a auto demissão de um jornalista após ser flagrado qualificando uma reportagem de capa do órgão que hospeda seu blog de “nojenta”.

RA poderia ter escrito artigo protestando contra a publicidade da conversa e reiterado seu juízo sobre a reportagem. Havendo censura, ele estaria com suas razões e nome intactos.

Algo do tipo:

“E a Lava-Jato segue com seu terror jurídico. Publicaram conversa deste escriba e uma fonte.

Sim, sei que a fonte está, por estes dias, presa. Não importa.

É uma fonte. E conversa de fonte com jornalista não se publica. Ponto.

Não no Estado de Direito.

Este Estado de Direito para o qual os procuradores animados pelo fogo sagrado do que acreditam ser sua missão nutrem desprezo.

Repito aqui: a reportagem foi nojenta. O acusado não foi ouvido como deveria pela reportagem. Quis se homenagear o ente histórico do Ministério Público oferecendo em sacrifício um político ainda investigado. Esta a minha opinião.”

E por aí ele iria…

Custaria o quê? Não acredito que o demitissem.

Mas ele preferiu a via da saída teatral.

Bom, recebeu RA as homenagens dos blogs que vinham replicando seus ataques (ou melhor, “críticas à conduta teatral dos procuradores”) à Lava-Jato. Estes blogs que se referiam a ele, em outros tempos, com desprezo e com deboches grotescos.

“Conversa de jornalista grampeada e publicada: afronta ao Estado de Direito”, as manchetes variavam alguma letra ou vírgula deste padrão.

E os palpiteiros de twitter, sempre prontos a homenagear a “independência” (no caso de muitos destes tuiteiros, ser independente é distribuir pauladas em todos os políticos, reservando aos petistas, pauladas com almofada na ponta do porrete) também trataram de homenagear o “perseguido” de ocasião…

Claro que, fosse esta conversa com Andrea Neves anterior às críticas do Reinaldo à Direita, as piadas (e as houve, mas afogadas nos elogios e citações tortas de Voltaire) superariam, na escala de mil por um, qualquer manifestação de solidariedade. Mas após tantas críticas aos inimigos comuns…após ver no depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro excessivo respeito (onde houve pródiga aplicação do tratamento de “você” e “lhe”.) não correspondido pelo juiz e pelos procuradores… toma aí, RA, nosso abraço!

Como observou Olavo de Carvalho, quem ficou surpreso com a “revelação” da proximidade de RA com figuras do PSDB? Não era do conhecimento geral que RA sempre foi mais próximo dos tucanos que com qualquer outra facção política? Como também observou Olavo, isto também não é crime, o chato é tentar camuflar esta simpatia com afetações de imparcialidade, afetações que não enganam sequer leitores ocasionais de Reinaldo.

Entendo RA em um ponto: ele sempre manifestou desprezo por jornalistas que atacam o órgão que os publica (ou atrizes “de Esquerda” que não renunciam ao emprego nas “TVs golpistas”) acenando ao público com a mensagem da sua (deles, jornalistas) “superioridade” em relação ao resto da redação. Este desprezo de RA por críticos de empresas incluía mesmo ex-funcionários de empresas “direitistas” que fora delas, tornaram-se esquerdistas desde o berçário. Artigos dele tratando disto contam-se às dezenas.

E aí flagram-no qualificando reportagem de capa da revista que hospeda seu blog de “nojenta”. Quem, em seu lugar, não preferiria se demitir?

Desconheço os termos da conversa de RA com o diretor de redação da revista. Como também desconheço quem autorizou a publicação deste grampo no qual RA foi apanhado falando mal de uma reportagem da “Veja”. Muitos também desconhecem mas não se inibem de escrever considerações sobre os dois tópicos; confessar ignorância e registrar apenas impressões, deixando claro que são apenas impressões, parecem falhas nestes dias.

Reinaldo Azevedo vinha atacando os textos que julgava demasiado simplistas e apaixonados pela Lava-Jato ainda que textos assim fossem comuns entre a produção de seus colegas colunistas da “Veja”. Logo…qual a surpresa pelo desprezo que vota ao jornalismo da casa?

Não sei o que motivou sua saída da “Jovem Pan”; RA alegou “desgastes”, e como qualquer relação de trabalho é minada, após algum tempo, por desgastes…mais um presente para especuladores do mundo jornalistico foi oferecido no mesmo dia.

Como já escrevi no blog, não me decepcionei com Reinaldo Azevedo nos últimos tempos porque nunca fui um seu admirador apaixonado; o público que se decepcionou foi vítima da apreciação equivocada que fez, na maioria dos casos. Estes leitores devotos do seu blog tomaram-no pelo que ele não era e depois apresentaram a ele a conta da desilusão (quando deveriam ter apenas boicotado o seu trabalho) na forma de comentários agressivos e memes grotescos. Aos interessados, recomendo meu texto sobre seu atrito com Joice Hasselmann e os links lá indicados.

Continuarei lendo o que ele escreve, mesmo porque polemistas são cada vez mais espécie em extinção. Gosto de alguns de seus textos (os que acho engraçados, diga-se) e não gosto de outros. Simples. A vida continua, e seu blog já tem casa nova, no UOL, site da “Rede TV!”

Do que li da produção recente, notei alguma melhora na argumentação (não podendo mais gritar como argumento o número dos seus empregos, agora reduzidos à metade, alguma melhora viria mesmo), embora esteja ainda no começo, e por que não dizer? ferido com o episódio. Ainda coleciona mensagens de apoio, mas esta fruta logo virará bagaço, não se extrairá desta divulgação de um grampo muito sumo por tempo indeterminado.

Uma polêmica que por um lado me alegra (um jornalista ser assunto) e por outro me entristece, me desanima (a motivação menor, o teatro dos jornalistas prestando apoio de ocasião); a mediocridade dos nosso dias não permite exigências maiores, afinal.

Quando a casta intelectual consegue produzir apenas este tipo de épico, é injusto cobrar da maioria qualquer coisa.

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