“Notas”- 26/05/2017

Sobre como escrever o que deve ser escrito

“Gosto de Fulano, ele ‘mete a Real’, não se acovarda ao politicamente correto.”

Ouço e leio comentários do tipo sobre X ou Y quase todos os dias; alguns de fato não se dobram aos mandamentos dos círculos dominantes, mas parece que  acreditam que isto desobriga-os de estudar mais (ou ao menos estudar) diversas correntes ideológicas e apurar o estilo.

Expressões como “mimimi” e “chororô” em um texto de combate são tudo que os alvos de um texto de combate precisam para terem a certeza de que o oponente é inofensivo. Claro que gente que escreve assim, exibindo desleixo e miséria vocabular, faz carreira; o que não faz hoje em dia?

Acredito que o estilo e o estudo (que transparecem em um texto) impressionam os simpatizantes das ideias defendidas pelo autor, mas também os adversários que reconhecem (embora possam até afetar desprezo) um adversário temível, que dá trabalho.

Tenho lido no site de “Veja” os textos sempre bem escritos de Vilma Gryzinski; os mais recentes,um sobre a defesa da cracolândia por parte de gente que a vê de bem longe e o sobre o atentado em Manchester, eu gostaria de ter escrito.

A descrição que Vilma faz dos bem nascidos que se acreditam militantes de causas da moda é algo que falta em muito da imprensa brasileira; visual, cruel, precisa. Penso que basta de bradar vaguezas sobre coisas palpáveis e descritíveis. O grotesco desta gente que não lava sequer a roupa de baixo no chuveiro e se prontifica a salvar o Mundo precisa ser sempre retratada com nitidez. Rotulá-los, apresentando nossa moral, faz cócegas, quando faz.

Já o texto sobre a monstruosidade em Manchester é texto que penso faltar quando se escreve sobre violência no Brasil; declamar o número de mortos de forma violenta não toca qualquer sensibilidade. Lembrar as biografias das vítimas, mostrar seus rostos e o estrago concreto na vida das famílias é o que deve ser feito. Vilma colocou no seu post a foto de uma criança vítima de gente que é justificada (quando não aplaudida entre as paredes das universidades) por “desigualdades”, e “não-pertencimento”. Além da foto, o texto menciona crianças vítimas de bombas confeccionadas com pregos. Isto diz mais que berros gráficos de indignação e conclusões moralistas que não alcançam quem não compartilha a mesma moral.

Vilma Gryzinski parece ser pró-Partido Republicano e Pró-Israel, mas não deixa que estas simpatias deixem seus textos com jeito de fanzine das duas correntes. Isto é possível quando o autor tem cultura e estilo. Elogiei no blog Pepe Escobar que me parece pró-Vladimir Putin, ou pró- Aleksnadr Dugin, mas que é culto, bem informado e escreve um texto único (seu texto inglês é tão impressionante quanto seu texto em Português que lia na finada “Bizz”). Quando o autor é bom, o texto se justifica a despeito do leitor concordar com ele ou não; cultura e competência expositiva se bastam, ou deveriam bastar.

Muito do que Vilma vem escrevendo, desde a campanha, sobre Donald Trump, mataria de vergonha os colonizados pró-Partido Democrata da imprensa brasileira se eles tivessem capacidade de se envergonhar (alguns defendem Barack Obama e Hillary Clinton com paixão que falta em suas análises sobre políticos do Brasil). Nada de exposições de deslumbramento com a figura de Trump, ao contrário dos brasileiros fanáticos por Hillary Clinton. Apenas análises sobre elementos ditos narrativos, sem validade alguma, aos quais os pró-democratas se agarram no desespero.

Precisão, caneta afiada; os dias brutais exigem escrita de cirurgião anti- anestesia. Vilma Gryzinski é um membro deste corpo médico.

Uma excelente escolha de “Veja” que espero seja mantida.

Sobre o “debate” Marco Antonio Villa e Jair Bolsonaro

Não, não vi o “debate” entre o historiador e o militar deputado federal.

Joice Hasselmann garantiu que a vitória do debate ficou quem não o assistiu, e não duvido. Acrescento que ganhei com vantagem; desde que vi anúncio do evento no “YouTube” fiz questão de não tomar conhecimento da data.

Penso que o tempo é recurso irresgatável, e portanto, precioso para perder com algo que imagino, ou por que não dizer? adivinho ser desperdício deste recurso.

Que leitores me digam: o que poderia sair de bom deste suposto diálogo? Que se aproveitaria de provocações do Villa (que compareceria ao duelo com o discurso pronto e dobrado na lapela) e as costumeiras explosões de Bolsonaro?

Há duas concepções de História e de Política que não podem se confrontar de maneira polida, ou equilibrada. Houvesse honestidade no diálogo e um formato com mais encontros, quem sabe…o que vi depois no “YouTube” me confirmou: mais um desperdício de tempo.

E desperdício de energia por parte do Bolsonaro.

Que ele esperava daquilo? Que ele ganharia com aquilo? Quantos eleitores seriam atingidos com aquilo? Quantos indeciso reveriam preconceitos com aquilo?

Estas perguntas não devem ter sido feitas pelo deputado ao espelho. E não o demoveram os que talvez pudessem demover.

Quando a Direita vai aprender que debates públicos devem ser precedidos por debates internos frequentes? Que sem o treino dos debates em células não se exercita para debates partidários e destes aos interpartidários? Talvez nunca.

E 2018 já está aí. 2018…2018, 2022 já está sendo pensado pela Esquerda enquanto a Direita brinca de debater,  se deliciando com os gritos de “Mitou!” nas redes sociais.

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